2 O Rio de Janeiro

Eu sempre quis ir ao Rio, como já mencionei. E quando eu sempre quis fazer algo eu realmente planejo e crio expectativas para com a coisa. E foi assim que eu passei meu dois mil e treze inteirinho. Até Setembro chegar. Os onze primeiros dias deste mês quase fizeram meu coração explodir porque mesmo que eu esteja em uma fase completamente aventureira na vida, não esqueço que fui criada sob uma redoma de proteção e que ai-meu-deus-rio-de-janeiro-sozinha-pela-primeira-vez-pra-casa-de-amiga-virtual sabe? Sempre dá um pézinho atrás. Mas foi um pé bem pequeno, porque era a casa da Paloma e se tem uma coisa que eu tinha certeza é de que ela não era malvada. Mas nada impedia que o resto da cidade fosse.

Desembarquei, nos conhecemos e fomos andando até o metrô e depois até trabalho do pai dela. Então eu comecei a perceber as diferenças entre Rio de Janeiro e Curitiba, algo que eu sempre faço porque cada lugar é diferente de algum modo e como ele é diferente as pessoas se relacionam com ele e com as outras de maneiras diferentes. Então eu permiti a mim mesma o ato de observar as coisas em todos os dias que estive lá. Das minhas descobertas, destacam-se:

1 – No Rio de Janeiro existem hidrantes vermelhos iguais aos que os cachorros de desenhos animados e filmes fazem xixi. Em Curitiba os hidrantes ficam em um bueiro escrito “Hidrante de Recalque” e é apenas isso.

2 – Por ser uma cidade de praia ninguém se importa com a roupa que você veste. Dá pra andar totalmente away from life na rua e não se sentir mal. Só quem trabalha em escritório é engomadinho. E o melhor é que a quantidade de assédios por causa de roupa é ínfima se comparando com aqui. Em Curitiba você põe o pé fora de casa e já é julgado.

3 – Todos os cruzamentos do Centro da cidade ficam fechados por carros que acham que “cabe mais um” e vão. Tudo vida um caos, parece o trânsito da Índia e em meio à toda a turbulência, surgem os tiozinhos de amarelo dizendo quem é pra ir e quem é pra ficar. E nem com eles a coisa se resolve. Aqui não têm tiozinhos de amarelo e quando isso acontece todo mundo buzina até voltar a andar. Lá ninguém buzina. Simplesmente enfiam os carros nos buracos e vão.

4 – No Rio de Janeiro tudo é longe. Eu achava que a cidade se resumia à Zona Sul e ao Centro, mas agora entendo o motivo da divisão por zonas, em primeiro lugar. A cidade é absurdamente grande, repleta de serras, morros e paisagens lindas. E se você não mora na Zona Sul tem que acordar cerca de três horas antes do compromisso para conseguir chegar ao lugar. Isso se o trânsito tiver bom. Aqui não tem nada disso. Três horas demora quem mora na mais distante das cidades da região metropolitana.

5 – O transporte público é esquisito. Há apenas duas linhas de metrô, que fazem quase que o mesmo trajeto e só passam por um pedaço pequeno da cidade. O resto é tudo feito de ônibus e mesmo não tendo uma rua inteira só para eles, como é o caso de Curitiba, eles conseguem ir mais rápido que os ônibus daqui. É claro que nos horários de pico é tudo absurdamente lotado, mas pelo menos algumas linhas dispõem de ar condicionado. A coisa mais esquisita, porém, é que não existe “horário de ônibus”. Você sai de casa e simplesmente espera que ele passe. É provável que ele passe mais ou menos na mesma hora todo dia, mas talvez não. Você nunca vai saber. O simples ato de pegar ônibus já é uma aventura tremenda.

6 – As pessoas são legais. Não importa quem você pare na rua para perguntar o que, eles vão sorrir e responder de uma maneira gentil. A família da Paloma me fez sentir em casa no momento que os conheci, completamente acolhedores, divertidos e simpáticos. Ninguém que eu encontrei ou me aventurei em conversar foi grosso ou malvado, como os curitibanos costumam ser, principalmente com quem tem sotaques diferentes. Lá eles não usam muita ironia pra conversar e isso me incomodou porque por aqui a gente ironiza o dia inteiro e o problema da ironia é que quando ela não é compreendida parece que estamos sendo grossos, então tive que me esforçar pra ficar calada.

7 – Os prédios históricos são absurdamente lindos e eu fiquei tão apaixonada pela Biblioteca Nacional que quis morar na cidade só para visitá-la várias vezes. Não só à biblioteca, claro. Eu também visitaria com frequência a Livraria Cultura de perto da Cinelândia que é em um prédio que era um cinema e é apenas a livraria mais linda que já vi na vida. Aliás, uma das coisas que pretendo fazer quando voltar lá é entrar em cada um dos prédios históricos, porque eles parecem fantásticos.

8 – Copacabana vale apena. Sempre me falavam que eu ia detestar, que era sujo, que tinha um monte de favela do lado e “estragava a vista” e eu estava nervosa pra conhecer a tão dita praia, mas quer saber? Achei o máximo. Não vi as favelas que supostamente têm por perto (Não que fosse algum problema ver favelas, né gente. Elas já até viraram ponto turístico! Pfvr), não vi sujeira (querem ver sujeira vão às praias do Paraná/Camboriou) e muito menos algo que me fizesse arrepender da visita. O que eu encontrei foi a maior faixa de areia da minha vida, uma água muito muito agradável, porém com o chão cheio de pedrinhas e milhares de turistas fazendo turistagens. Valeu apena.

9 – Ainda existe cinema de rua na cidade. E não é só um.

Ir ao Rio de Janeiro sozinha me fez perceber que eu sei viver longe dos meus familiares, sei aproveitar o tempo e sei ser absurdamente feliz. Fez-me perceber que sim, a cidade é mesmo maravilhosa. Mesmo com todos os percalços e defeitos que toda cidade tem. E que se eu morrer sem ter morado lá por pelo menos alguns meses, toda a minha existência terá sido em vão. Ir ao Rio de Janeiro fez-me compreender Chico Buarque e Vinícius de Moraes e me fez achar a descrição perfeita para a cidade: a bossa-nova. Porque o Rio de Janeiro é pura bossa-nova. É exatamente aquela a essência da coisa. E é por isso que desde que eu voltei para essa chuvitiba-friorenta não parei de ouvir Tom chiando ao pé do meu ouvido.

0 thoughts on “2 O Rio de Janeiro

  1. Amiga, você repara demais nas coisas! Eu reparo pouco, nem percebi os hidrantezinhos! Em Vitória também é assim! E não reparei que o trânsito era maluco. Mas percebi que tudo é longe. Percebi super. Acho que justamente porque aqui em Curitiba tudo é perto, e as pessoas super se acostumam mal com isso. Lembro que quando eu morava em São Paulo, minha amiga morava a tipo, meia hora da minha casa, e eu achava perto e meus pais nunca reclamavam de me levar lá. Já aqui, qualquer distância que seja maior que 15 minutos já os irrita. E, realmente, o metrô do Rio de Janeiro é absurdo de fraco! Sdds metrô de São Paulo, que é perfeito, né?
    Mas eu também gostei muito do clima da cidade, e falei exatamente isso com a Milena: Essa cidade é a bossa-nova purinha, não é a toa que ela saiu daqui!
    Quero muito voltar pra visitar a biblioteca, o teatro municipal, e pra passar uma tarde na livraria Cultura da Cinelândia, ir em cinemas de rua, e ver um pôr do sol no Arpoador, que a Anna ligou bem na hora, eu e Mimi nos distraímos no telefone e quando acordamos o sol já tinha se posto 🙁
    Beijo! <3

  2. O trânsito parece a Índia mesmo, super me tira do sério hahaha Isso e o ônibus – sonho saber a hora que preciso sair de casa para conseguir chegar na faculdade na hora que preciso chegar, mas não tá fácil pra ninguém. E ainda acho essa história do “hidrante de recalque” hilária. O pessoal aqui é relativamente simpático mesmo, mas mais com turista.

    Volte que a gente visita tudo juntas! Beijos 🙂

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