8 ∞

Lembro-me de em meados de Maio de 2009 entrar na sala 308, em uma turma desconhecida para aquela que seria a maior aventura da minha vida até então. Havia me mudado para o Bom Jesus Centro em 2007 e estudei na mesma sala até esse dia. Era a turma 1 do colégio e eu tinha as melhores amigas do mundo nela, mas eu surtei, não sei porquê ou como, só lembro de ter surtado e acabei sendo transferida de turma com um pedido do meu psicólogo para a escola. Pois é.

A nova turma, porém, seria um poço de aventuras e novas descobertas, tendo em vista que eu realmente não conhecia ninguém. Era a 1 8 (gostaria de poder escrever primeira oitava da maneira convencional, mas meu teclado não faz aquele símbolo característico de números ordinários, portanto referir-me-ei às turmas utilizando-me apenas de números naturais, espero que não os encomode) e a primeira pessoa que foi falar comigo tempos depois tornou-se uma das minhas melhores amigas. Era a Giulia e junto com ela veio a Leila, depois agregando-se a Camila, a Camila Tatar e a Luciana – que só conversou comigo por causa da aula de inglês – . O fato é que em menos de um mês o meu medo por estar numa turma nova já tinha passado, acho que a energia deles possibilitava isso, automaticamente você se sentia parte da equipe e jurava estar ali desde sempre. Apaixonei-me por aquele grupo e jurei para mim mesma que só o abandonaria caso mudasse de escola.

O segundo ano chegou e lá estávamos nós na segunda oitava, dessa vez com a Luciana somente até a metade do ano, a Giovana desde o começo e tinha também a Marcelly, que foi para a minha sala só porque eu vivia falando bem dela. O fato é que a segunda oitava foi a melhor turma de segundo ano daquele colégio e eu acordava contente às seis da manhã todos os dias para passar mais um dia com aquelas pessoas maravilhosas, que me faziam tão bem.

O melhor ano do Ensino Médio, na melhor turma existente.

Eles me chamavam de Velma, me xingavam e me bullinavam. Eu sabia que grande parte daquelas pessoas me odiava e me considerava um indivíduo mal, mas eu não ligava. Não conseguia ligar. Eles me transmitiam coisas tão boas que as más eram imperceptíveis. Em 2010 80% da sala tinha um apelido pejorativo, mas ninguém se importava! Eu sempre dizia que se você se importasse com zoação, não poderia comparecer ali. Éramos regidos por uma união muito forte, sabem? Daquele tipo em que tem cinquenta pessoas na sala e você já falou com todas pelo menos uma vez na vida, além do “bom dia” habitual. Foi um ano memorável. Fomos uma turma memorável.

Então chega 2011. Todos ansiosíssimos por serem Feras. Dessa vez estaríamos no topo da cadeia alimentar, ninguém nos chamaria de calouros, ou teria algum motivo para nos apelidar pejorativamente, seríamos os maiorais e adorávamos essa ideia. O ensalamento saiu e logo fomos nós felizes no dia 07/02 para a nossa primeira aula na 408, a terceira oitava. Ah… A terceira oitava.

O primeiro dia como Feras!

Ali, sem a nossa camiseta característica, invejosos de quem possuía o casaco “Fera”, tiramos a nossa primeira foto da turma, na aclamada aula de Literatura, aquela que foi a primeira aula do ano e em que ouvimos o nobre professor Marcelo Brum nos dizer “AAAAHHH SEGUNDA-FEIRA!” e todos caímos na gargalhada… Foram bons momentos. Memoráveis.

Confesso que no começo do ano ocorreram vários estranhamentos internos, devido ao fato de grande parte da turma ser proveniente da 2 8  e estar acostumado com a calmaria e nerdice que reinava aquele lugar. Deparamo-nos com gente nova, gente diferente, gente que gostava de conversar e de expor suas ideias e opiniões, gente que falava durante a aula. Gente estranha. Foi difícil essa adaptação. Em determinados momentos eu mesma fui ao coordenador disciplinar reclamar da turma, não apenas uma vez. Ultrapassaram-se os limites de “boa convivência“. Com o passar do tempo, porém, fomos nos acostumando com as características de um e de outro e logo estávamos quase na mesma união vivida em 2010. Admito que não chegamos nem perto, mas evoluímos bastante do começo do ano para cá, isso é um fato. É fato também que cada um ali começou a definir seus anseios, seus objetivos de vida e a partir disso mensurou as amizades e as escolhas que faria. Após as férias de Inverno parecia que tinhamos entrado em um novo ano. 2011 está sendo tão intenso que parece grande demais para caber em apenas 365 dias (220 letivos), parece que foram uns 500 já. Estávamos exaustos, ansiando pelas férias de Dezembro, não todos, pois há aqueles que rogam a Deus por um tempo a mais para estudarem. Não é o meu caso. O meu caso delimita-se a frequentar a escola apenas por frequentar. Perdi o gosto por aquilo. Em diversos momentos queria desistir, fugir, escafeder-me. Mamãe me dizia “Peça para mudar de sala de novo!” e eu dizia “Mas a minha sala é a melhor sala que tem! Não adianta eu mudar!” e foi assim que continuei ali. Na verdade, foi assim que todos continuamos ali, mesmo não gostando realmente do nosso modo de ser, nossa convivência era necessária.

Leonardo Campoy, nosso professor de sociologia, repetia em todas as quartas-feiras que a nossa turma era a turma dos “freaks“, segundo ele, ali tinha todo o tipo de gente, convivendo harmonicamente. Verdade. Todo tipo de gente MESMO. Acho que só deu certo porque era na escola, garanto que se fosse em outro lugar muitos teriam saído no tapa em diversos momentos. Éramos portanto a turma mais esquisita do terceiro ano, aquela de quem as pessoas tinham medo, mas que ao se aproximarem não conseguiam mais se afastar. Eu amava aquela turma.

Hoje ela foi embora.

Segunda-feira inicia-se o “Super Intensivo” e para que ele ocorra as turmas são reorganizadas, de acordo com as áreas dos cursos, ou seja, teremos um mês de aula lado a lado com nossos concorrentes. Não é tão tenso no meu caso, mas imaginem uma turma com 52 pessoas que querem medicina, um curso que tem 50 pessoas para cada vaga oferecida. Vai ser terrível. Eu não conseguiria sobreviver sob tal pressão. Não entendo porque a escola faz isso, mas ela faz e isso significa que hoje foi o meu último dia na 408, na 3 8, no meu Ensino Médio. E… nós fechamos com chave de ouro!

Fizemos um amigo secreto da turma, onde piadas internas foram utilizadas e a integração demonstrou ser real. Foi lindo de se ver. No final da aula tiramos a nossa última foto da turma e eu chorei desesperadamente ao ter que me despedir das minhas doces e amadas amigas, que nunca mais compartilharão aulas comigo. Sei que o terceiro ano ainda não acabou, mas a escola não vai mais ter graça longe da minha turma, as outras podem até ser legais, mas não serão a minha.

Sempre reclamei por não pertencer a lugar nenhum, mas ali você continuava a não pertencer a nada, ao mesmo tempo que pertencia a tudo e isso era belo! Os professores claramente gostavam de nos ensinar, contavam histórias “exclusivas” e nos divertiam, enquanto se divertiam. A gente se respeitava, brincava e brigava também. Éramos uma gigante família, família sim, porque mesmo que uns odiassem os outros, ajudariam estes caso fosse necessário, podem até dizer que não, mas eu sei que ajudariam.

Hoje Marcelo Brum entrou em nossa sala às 11:40 da manhã e disse “Pela última vez, bom dia terceira oitava” e todos gritaram em peso “Bom dia!“, não com a mesma força com que gritaram “LARANJA!” na aula de óptica do Berro em meados de Abril, mas forte o suficiente para causar aquela euforia imensa. Hoje eu tive vontade de ter braços do tamanho do mundo para abraçar aquele quadrado de concreto e impedir que ele se dissipasse quando o sinal tocasse. Mas o sinal tocou, meu sonho acabou. E eu chorava porque tudo foi lindo demais para ter sido real. Chorava porque estava abandonando aquilo que me fez levantar disposta a ir para a escola por três anos consecutivos. Chorava porque junto com aquela turma ia o meu Ensino Médio.

Sei que continuarei conversando com grande parte daquelas pessoas, sei que nunca esquecerei da grande maioria delas, sei que dentro de meses terei esquecido de alguns (mesmo achando isso trágico), mas sei também que nunca mais vai ser a mesma coisa. Podemos nos amar individualmente, mas a consciência de grupo terminou aqui. Não seremos mais reconhecidos por fazermos parte da turma 8, não seremos mais uma das melhores turmas da escola, não seremos mais nada, além de meros estudantes quaisquer. Talvez nossas turmas do super intensivo sejam legais, mas não serão legais o suficiente para competir com o que nós vivemos. Entre os Sambados e os Heavy Metals dos intervalos, o vídeo do polvo ou até mesmo o da Shakira e a música do Cine, cantada pelo Cristo que embalou o nosso primeiro ano. Nada será o mesmo. Agora somos um poço infinito de lembranças e recordações daqueles que foram os melhores momentos de nossas vidas.

Só queria agradecê-los por terem sido tão bons para comigo.

Amo-os e não há quem tire isso de mim.

Oito foi o número de nossa turma,

Oito foi a quantidade de meses que passamos juntos esse ano,

Oito será para sempre o nosso número, porque se o virarmos 90 graus obteremos o símbolo do infinito

Somos infinitamente felizes por termos estado juntos!

P.S.: Tive que postar um vídeo da nossa homenagem pros professores também, mas isso é só uma prévia! 😉

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  1. Bonitinha, que bom a sua turma ser assim! A minha era a mais desunida possível. Ou talvez eu não tenha sido tão otimista quanto você, pra conseguir declarar que mesmo dizendo que não, todos se ajudariam. Acho que na minha não rolaria isso não, mas foi bom mesmo assim. Entre mortos e feridos, salvamos-nos todos, e hoje estamos aí, um em cada canto, e os importantes pra sempre no meu coração. Agora, com o pouco tempo a mais de vida que eu tenho em relação a ti, e mesmo sabendo que esse é o tipo de conselho que a gente NUNCA escuta, eu vou falar mesmo assim. Nesse final do texto você disse que por mais que seja bom o que vem pela frente, jamais será tão legal quanto foi estar nessa turma. Segredinho de amiga? Vai sim, meu amorzinho. Vai ser tão legal quanto, vai ter pedaços mais legais, pedaços menos legais, e essa é a magia da diferença!
    Beijos, e boa sorte nessa nova fase da sua vida! Te amo!

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