A beleza que não existe

Nasci magra e pequena e continuo assim até hoje. Aos cinco anos, empazinada com a imensa quantidade de corticóides que eu tinha que tomar para continuar me mexendo, tive o auge do meu peso. As fotos revelam bochechas fofas e vermelhas, que desapareceram conforme o corpo foi se acostumando com o remédio – e ele foi se tornando desnecessário e insuficiente.

Minha mãe sempre sofreu com o fato de ser um pouco mais gordinha do que era esperado. Ela diz que as coisas pioraram depois que ela teve filhos, pois até então dava para controlar. Meu irmão nasceu grande e pesado e teve que conviver com a vida de comer menos bolacha recheada do que eu durante toda a infância. A gente sempre foi oposto nesse aspecto: eu tinha que comer bastante, mas não conseguia e ele tinha que comer pouco, mas também não conseguia.

Ele acabou sofrendo muito mais do que eu com toda essa história. Porque as pessoas insistem em reclamar de pessoas acima do peso, mas só olham para as magras quando elas realmente são magras demais. Sempre me consideraram “normal”, mas meu irmão sempre foi considerado gordo. E isso fez com que a vida dele fosse repleta de nutricionistas, comidas esquisitas, academia e diversos outros esportes. Eu, por outro lado, só fazia esportes por indicação médica, por causa da artrite.

Cresci e me sustentei comendo besteira e nunca consegui chegar ao peso esperado para o meu tamanho. Exceto nos seis meses que antecederam o vestibular, quando fui o mais pesada que já consegui ser: 49kg.

Só que nunca me importei muito com essas coisas. De tanto ver todo o perrengue que meu irmão passou e passa, todas as críticas externas e tudo que ele deve pensar sobre ele mesmo, nunca consegui me importar demais com o meu peso ou com o fato de existirem pessoas maiores e mais gordas. Pelo contrário, acho elas o máximo. Essa coisa de conseguir comer toda a sua porção e ainda terminar a porção da pessoa que come pouco, sem nenhum esforço, sem passar mal depois. Estando bem. Pra mim isso é simplesmente sensacional. E me incomoda profundamente saber que essas pessoas incríveis são chamadas de feias, balofas e fazem elas acreditarem que elas são piores pelo simples fato de conseguirem – e gostarem – de comer.

Eu sei que alimentação balanceada é essencial para uma boa saúde. Mas isso é válido tanto para os gordos quanto para os magros. Meu irmão pode ter sido o dobro do meu tamanho a vida inteira, mas a alimentação dele sempre foi muito melhor do que a minha. E por que raios eu sou considerada mais “dentro do padrão” do que ele? Não faz sentido.

Na cabeça de uma magricela como eu, ser gordinho sempre pareceu mais legal. Ir em lojas e encontrar roupas que te servem, na seção de adultos!!! Conseguir comer o combo do fast food inteiro, não ter que encarar o “vamos a um restaurante” como uma seção de tortura estomacal. Poder comer o que se tem vontade sem a sensação de que seu corpo precisa urgentemente colocar tudo aquilo pra fora. Poder comer coisas diferentes e não apenas aquelas que você tem certeza que consegue digerir sem problemas. Abraçar pessoas e ter onde ser abraçado. Ter corpo para ser apalpado e acariciado. Ter uma barriga ao invés de costelas e conseguir deitar de bruços sem sentir pressão nos ossos da bacia!!!

Só que enquanto tudo isso passa pela minha cabeça, na cabeça dos gordinhos o ideal é ser magro. É conseguir passar horas sem comer, simplesmente porque não se tem fome e conseguir movimentar o corpo com leveza, não se preocupar em sentar em uma cadeira que pode quebrar e outros problemas, que eu não consigo imaginar, mas sei que existem.

Eu emagreci ainda mais nos últimos meses. Descobri há duas semanas, quando fui me pesar e estava com apenas 42kg. Veja bem, sou magra, mas meu normal é 45kg, quando eu fico abaixo disso, me sinto realmente mal e me sinto culpada de todas as formas possíveis por não conseguir comer direito e por não conseguir engordar. Posso estar super bem comigo mesma, mas basta olhar para uma foto em que apareçam partes muito magras ou tomar banho e perceber que toda a gordura da barriga desapareceu que eu fico assustada. Não é legal passar a mão e sentir todos os ossos de sua costela. É como se eu estivesse desaparecendo aos poucos.

E, bom, é engraçado. É engraçado que eu e meu irmão estejamos na mesma casa. Ele com a dieta hipocalórica, repleta de proteínas e uma rotina intensa de atividades físicas. Eu com a dieta hipercalórica, repleta de carboidratos e açúcares e a rotina de atividades físicas viva porque músculos pesam mais que gordura. Sei que nesse momento a gente faz essas coisas para se sentir saudável, com ânimo e energia suficiente para aguentar nossas vidas. Mas imagino que da mesma forma que as vezes eu me sinto a magricela mais horrenda do mundo, ele sente o oposto. E sei que, de certa forma, não importa o quanto a gente se esforce, vamos sempre ser ratos em uma gaiola, correndo sem chegar a lugar nenhum. Porque por mais saudável que a gente possa estar, continuaremos pressionados a sermos diferentes daquilo que a gente é.

Só os fortes sobrevivem, e isso porque tudo está sempre tentando fazer a gente enfraquecer e desistir. As vezes é difícil encontrar aquela pontinha de força interior, mas quando a gente encontra, vamos lá e vencemos mais uma batalha. Nunca vamos ser perfeitos. Nossos corpos sempre estarão em construção e nunca serão inteiramente nossos. Mas a cada dia que a gente consegue se aceitar e fazer um pouquinho mais pra se sentir bem com aquilo que temos já é uma pequena vitória. E tudo que podemos fazer é acumular essas pequenas vitórias.

One thought on “A beleza que não existe

  1. ” As vezes é difícil encontrar aquela pontinha de força interior, mas quando a gente encontra, vamos lá e vencemos mais uma batalha.” e todo o resto desse útimo parágrafo <3 <3 <3

    Sempre te achei um bichinho fascinante, MayMay! Esse texto só me fez lembrar o porque haha, sabe que te acho incrível e linda do seu jeito! Aliás, beleza é uma coisa que não te falta <3 mas esses padrões mesmo não fazem sentido e só deixam nossa cabeça cheia de caraminholas, nunca seremos tudo o que podemos ser perante a sociedade porque é mais lucrativo assim, pelo menos na minha humilde opinião…

    Enfim, li esse texto umas três vezes mas ainda assim o comentário saiu meio fuen :~ desculpa,

    beijo! <3

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