Ganhei esse livro no final do ano passado, da Kamilla. Ela disse que eu iria gostar, porque era sobre uma viajante. Demorei a começar a ler e demorei mais ainda para concluir a leitura, mas devo dizer que concordo com ela: gostei.

O livro conta a história da autora, Amanda Lindhout, uma jovem canadense que passava temporadas sendo garçonete e outras gastando o dinheiro obtido com o trabalho em viagens emocionantes. Ela queria conhecer o mundo e as primeiras cem páginas do livro relatam viagens interessantíssimas pela Índia, Paquistão, Iraque e vários outros. E eu ficava imaginando que o livro seria inteiro assim, uma coisa meio “Comer, Rezar e Amar”, o que não me agradaria. Gosto de histórias que agregam coisas e me fazem pensar, não histórias que simplesmente contam. As que simplesmente contam só são divertidas quando você conhece quem está contando.

Não gosto de ler a sinopse do livro antes de lê-lo, pois acredito ser como trailer de filmes: conta as partes boas. Logo, não li as orelhas e nem o que tinha escrito atrás. Pouco depois da página cem, porém, estava irritada e precisava saber se aconteceria algo emocionante que me impulsionaria a continuar a leitura, pois tudo que estava agregando era a vontade abrupta de viajar, mas ela já é grande o suficiente mesmo sem livros assim por perto. A contra capa do livro conta que a história é sobre o cativeiro de quinze meses a que Amanda sobreviveu e ao saber disso pensei que jamais deveria ter começado a ler o livro, porque não gosto de histórias de cativeiros em geral e porque saber que era real tornava mais real ainda e aquela ideia já me assustava pelo simples fato de ter sido escrita. Continuei lendo. E não consegui mais parar.

A  história do cativeiro é terrível, mas a narrativa é cativante. Enquanto lia imaginava Amanda revivendo tudo aquilo para transformar em livro e tive a certeza de que não teria a mesma coragem. Então voltei para a orelha do livro, aquela parte que conta sobre as autoras e descobri que ela tinha uma ong, o que me deixou ainda mais perplexa. Além de ter revivido tudo naquela intensidade, ela ainda tinha criado uma maneira de ajudar aquelas pessoas que tanto fizeram mal. Nesse momento eu parei de julgá-la, o que estava fazendo ao ler várias coisas esperançosas, hiper otimistas, ingênuas e as vezes até burras que ela fazia na ânsia desesperada por liberdade. Parei porque não consigo imaginar como reagiria à situação que ela passou, mas tenho certeza de que não ia ter peito pra voltar e tentar ajudar aquelas pessoas de algum modo. Eu ia era inventar artimanhas para ver todos mortos – o que ela, provando que é gente, também pensou em alguns momentos.

O que torna a história ainda mais interessante é o conflito religioso ao qual o sequestro está atrelado, visto que faz parte de uma jihad. A gama de conhecimentos acerca do islamismo e das guerras religiosas que o livro transmite são importantes para criar uma noção básica que nos faça enxergar aquelas pessoas como pessoas, justamente o que as autoras fazem questão de fazer durante toda a narrativa. Não importa o tamanho das atrocidades que os sequestradores estejam fazendo, eles nunca são apresentados ao leitor como se fossem robôs cegos que fazem tudo aquilo em nome de Alá. Eles são mostrados como fiéis que acreditam piamente que participar da jihad vai tornar a vida deles no paraíso melhor, mas antes disso, são mostrados como humanos com tantos desejos e falhas quanto a própria autora. O que me fez admirá-la ainda mais, pois creio ser exigido um sangue frio absurdo para conseguir falar de seus sequestradores de forma tão branda e não odiosa. É claro que ela deve odiá-los, mas o livro estimula o leitor a odiá-los se e quando quiser, não mostra isso de uma forma pré-moldada.

Por fim, mesmo você sabendo que ela seria libertada e tendo o alívio de saber que cada uma daquelas cenas de quase-morte resultaria em vida e que cada uma das frases desesperadamente otimistas que ela dizia a ela mesma, tentando acreditar, a leitura é tensa. Da metade para o final do livro, senti como se a história estivesse acontecendo comigo e a única maneira de escapar era terminando de lê-la. Terminei e fiquei indignada, ainda estava um pouco assustada e sentida com tudo aquilo. Porque não é um livro sobre a história de uma sobrevivente de cativeiro. É um livro sobre um cativeiro. Sobre o conflito. Sobre sequestradores e sequestrados convivendo. Sobre negociações, aflição familiar e todo o encargo emocional que um sequestro no exterior por radicais islâmicos provocaria em qualquer família ocidental. Falaram-me que ler “Lolita” ia me deixar aflita e enojada, mas seria necessário. Eu li, achei tenso, mas acabei me encantando pelo Humbert e traindo todo meu devir feminista. Terminei dizendo que todos deveriam ler, porque o livro é bom e o Nabokov é extremamente convincente. Mas não tive torpor, angústia ou enojamento. Não, pelo contrário, são livros como “A Casa do Céu” que me causam isso.

3 thoughts on “A Casa do Céu

  1. Interessante. Por outro lado fico pensando em como o Ocidente produz e vende uma imagem sobre o Islã sempre associado ao estupro, tortura e a luta pela sobrevivência. Seja em filmes (Black Hawk Down), livros ou mesmo videos curtos no youtube (como esse aqui:

    que se transformam em filmes com esse aqui:

    ), É a atualização da justificativa para a guerra do Vietname, Afeganistão e Iraque – a ideologia norte-americana de que o “Outro” é o inimigo e deve ser odiado e eliminado. Quanto ao fato da autora voltar lá para ajudar, não sei muito bem o que pensar. A máquina de guerra norte-americana sempre se justificou com as intenções de “ajudar” e “salvar” os “Outros”.

    1. Concordo e o que achei interessante no livro é que ela é canadense, o governo não se mete em resgates e mesmo dando um relato ocidentalizado, é de uma pessoa que realmente admira o islã e os países islâmicos. Ela tem medo de morrer, mas em nenhum momento afirma ser benéfica a invasão norte americana etc. Tenho receio de histórias assim por causa disso, mas essa me pareceu eficaz em mostrar as contradições e os dois lados da moeda.
      Olharei as suas referências, obrigada.

  2. Maymay, fico feliz que tenha gostado do livro.
    E só de você ter escrito sobre ele no blog, significa que ele te marcou e foi uma leitura que fez a diferença. Foi bem essa a intenção que eu tive quando escolhi esse livro para você.
    Beijos

Comentários: