A Colheita.

Eu não entendo nada sobre agricultura, mas acredito que a colheita seja feita antes do Inverno, porque ele deve ser ruim para as plantas. Mas, bem, isso não importa para mim no momento porque eu não sou agricultora e não preciso saber dessas coisas por enquanto.

A questão é que eu completei dezoito anos.  E até os dezesseis eu achava que escaparia dessa missão dos recém maiores de idade. Nunca me imaginei fazendo isso, afinal, papai é quem o fazia, desde antes de eu nascer. E estava muito bom do jeito que estava. Mas ele foi se cansando de todo aquele vai e vem e passou a missão para o meu irmão, que não gostava muito da coisa. Visto isso, papai passou meus dezessete anos em uma contagem regressiva que parecia nunca chegar ao fim “faltam 11 meses”, “10” e assim sucessivamente. Eu completei dezoito anos e nem papai nem mamãe estavam aqui para festejar comigo, mas eles chegaram dias depois e fizeram a comemoração que tanto queriam.

Ele foi logo fazer uma ferrenha pesquisa acerca do custo benefício das coisas e um dia chegou dizendo “Inês, sua vez de ir até lá passar o cartão para que ela comece!” e eu fui com mamãe e no mesmo dia marcamos os primeiros testes, um físico e dois psicotécnicos e minhas aulas começariam dali duas semanas. E eu não fazia a menor ideia de onde estava me metendo.

Peguei o ônibus amarelo em uma manhã fria de Julho, durante a greve. Fui obrigada a assistir ao programa da Fátima Bernardes pela primeira vez na vida enquanto esperava. Chamaram-me, registrei os meus dedos e fui para a foto. O rapaz riu e disse “Vai ser com esse cabelo roxo mesmo?” e eu pensei “Claro né, não é peruca”, mas respondi apenas “Sim”, forcei um sorriso e passei pela foto. Fase 1 completa.

Eis que hoje, 12/12/12, dia do meu teste, que, ainda bem, não foi marcado para as 12h, mas sim para as 14h. Chegamos às 13h15. Jonas já estava lá e encaminhou-me para a fila, que estava quilométrica. Entrei e comecei a ficar nervosa só de ouvir os relatos alheios. Pessoas na terceira tentativa. Pessoas que derrubaram protótipos e furaram o muro… Todos os tipos de pessoas. Mamãe ficou ao meu lado para me tranquilizar e me dar água, porque eu pedi tanto para que não chovesse que meu São Pedro me ouviu.

Pegamos o ônibus azul pela primeira vez, ele é maior e mais rápido, mas mesmo assim não chegava nunca no lugar esperado. E quando chegou, nós, como era de se esperar, nos perdemos. No meio de um bairro onde nunca tínhamos pisado. Nos achamos pouco antes de nos atrasarmos, passei o dedinho e esperei um pouco enquanto víamos  “Chocolate com Pimenta” na televisão. Fui chamada. Estava com pressão baixa, mas passei bem pelos testes de força, o único empecilho foi a obrigatoriedade do óculos, mas nada demais, nunca saí de casa sem mesmo. Fase 2 completa.

Assinei meu nome às 13h55min e fiquei esperando ser chamada. Sol quente, fila quilométrica, conversas enervantes e água esquentando. Mamãe e meu irmão me tranquilizaram, conversando sobre aleatoriedades e eis que às 15h30 meu nome finalmente é chamado.

Voltamos ao mesmo lugar em outro dia. Dessa vez não nos perdemos, o ônibus azul já era mesmice e a sala estava super lotada. Não consegui me sentar para ver as Olimpíadas que passavam na televisão. Acordei 8 da manhã em plena greve, o teste tinha que dar certo. Eu não fazia a menor ideia do que iria fazer ali. Passei o dedinho, fui chamada. Entrei numa sala repleta de gente, recebemos um lápis (ou caneta, não me lembro bem) e um papel. Fizemos várias espécies de “jogos da memória” e eles eram facílimos, ainda mais para alguém com a minha memória fotográfica e teatral. Então tivemos que desenhar palitinhos e dessa vez não podia pedir para que nenhuma amiga o fizesse para mim. Fiquei com medo de não conseguir, fiz o meu melhor. Marquei o próximo exame e voltei para casa. Fase 3 completa?

Passei meu dedinho, cumprimentei os colegas de prova e nos encaminhamos para o carro. Decidi ser a primeira porque tudo era melhor do que sair pelo portão tão temido por todos. Consegui fazer a baliza. A menina que foi depois não conseguiu, mas o terceiro conseguiu e fomos os dois para a rua. Ele andou duas quadras e estava tão bem que o avaliador já pediu para parar. Chegara a minha hora.

Sim, completíssima. Novamente o ônibus azul, o lugar esquisito, que estava vazio novamente, o “Chocolate com Pimenta” passando na tv, mamãe dizendo mais uma vez para eu manter a calma e eu sem fazer ideia do que estava fazendo ali de novo. Passei o dedinho, fui chamada. Havia completado a primeira fase com eficácia e então tive que responder uma série de perguntas acerca da minha vida pessoal, felizmente não houve nada que eu precisasse mentir sobre. Foi assim que a fase 4 foi completada.

Entrei no carro, fiz tudo certinho, mas não havia santo que me fizesse desengatar o freio de mão. O instrutor riu, disse que é porque eu era mulher, fiquei brava pelo fato, mas pelo menos ele não me tirou nota e desengatou para mim. Comecei a andar.

Quinze dias se passaram e eu compareci no horário marcado no prédio amarelo há duas quadras de casa. Fui ouvindo musica e levei um livro para ler. Li o livro até o início da aula, que foi terrível porque a professora era péssima. Sentei-me na frente e fui curitibana o suficiente para não falar com ninguém. A instrutora mudou, veio uma muito boa. Eu continuei lendo, ouvindo música, trocando mensagens e não falando com ninguém, exceto quando tinha questões a fazer para a professora. Prestava total atenção na aula, fazia anotações e ficava assustadíssima com a quantidade de coisas ruins que poderiam ocorrer caso eu fizesse algo errado. E morria de rir do fato de as pessoas tratarem o teste como se fosse um novo vestibular. Se eu não liguei nem pro verdadeiro, por que ligaria pra esse? Não me conformo em não ter aprendido a trocar o pneu, mas foi a quinzena literária mais bem aproveitada do ano e eu ainda aprendi a salvar alguém em uma convulsão e virei mestre na arte de ignorar gente chata, que era só o que tinha. Tive até coragem de comer salgadinhos duvidosos na festa de encerramento! Cresci e com isso completei a etapa.

Fiz várias conversões, paradas, arrancadas, desenvolvimentos de marcha, desvios e enquanto isso meu acompanhante de prova dignou-se a distrair o avaliador conversando sobre sua vida no Pará. Todos os meus erros o avaliador dizia “vou desconsiderar por causa da via estreita” e afins até que, do nada, ele me mandou estacionar. E eu morrendo de medo de ter feito algo errado e decepcionado minha mãe que me esperava lá fora.

A consistia em um teste no computador, o qual foi realizado na semana em que minhas aulas voltaram e eu não tive tempo algum para reler a apostila e tentar decorar alguma lei. Fui na cara e na coragem, mais na coragem do que na cara. Meus cabelos já estavam verdes e eu consegui entrar para a prova antes do horário previsto. Passei meu dedinho, dirigi-me a um computador e fui. Chutei a maioria das perguntas, mais por fome e preguiça do que por falta de conhecimento mesmo. Podia jurar que havia reprovado, então cheguei em casa e verifiquei o resultado: aprovada e eu ainda poderia ter errado mais uma que o resultado continuaria o mesmo.

Cinco dias depois fui buscar a minha LADV que dias depois descobrir ser  um cartão que me permitia dirigir somente ao lado de meu instrutor. Usei esse argumento para nunca dirigir sem ele por perto. As aulas iniciaram. Na primeira conheci o instrutor, Jonas, um cara bacana, mas que usava perfume forte demais. Vivia dizendo que se candidataria vereador nas próximas eleições para ficar rico e que era para eu votar nele. Eu morria de raiva. Fomos a um lugar deserto e eu sentei no banco do motorista pela primeira vez na vida. Uma das melhores sensações do ano. Não bati e nem deixei morrer e quando me dei conta estávamos em uma das ruas mais movimentadas da cidade. Continuamos no mesmo ritmo, mas com o passar do tempo eu errei mais, aprendi mais e acabei acertando mais também. A baliza foi o melhor momento da experiência. Sentia-me o máximo ao fazê-la e orgulhava-me de mim mesma por raramente errar. 20h aula depois recebi o papel dizendo que poderia marcar meu exame, mas o instrutor disse que me aconselhava fazer mais 10 aulas pelo menos. E assim a sétima etapa foi quase conclusa.

Marquei o teste para mais de um mês depois do fim dessa aula. Uma semana antes fiz quatro horas extras e na última o instrutor me olhou com uma cara que parecia cara de quem não me achava apta ao teste, mas não paguei mais aulas. Foram só aquelas mesmo. Apostei na cara e na coragem novamente. Fase 7 finalmente foi concluída.

 Desliguei o carro e ele disse que nós dois havíamos passado. Abri a porta do carro, saí, quase dei pulos e berros, controlei-me. Entrei no banco de trás, voltamos para o DETRAN, liguei para meu pai, que, infelizmente, não está na cidade, mas que deu um grito tremendo de felicidade e em seguida ligou para a minha mãe para reforçar o orgulho, e saí para contar para a minha mãe. E foi assim, caros leitores, que a oitava e última fase foi conclusa também.

Colhi o que eu plantei, o que eles plantaram, o que a sociedade plantou. Eu colhi. Eu consegui. Sem nunca ter querido, me esforçado, superestimado, desejado… Colhi por acaso. Estava passando pelo matagal e colhi. Como todas as melhores coisas que me aconteceram, essa também foi obra do acaso, com só um pouquinho de esforço meu e 100% de energias positivas advindas da minha família, afinal, é ela o meu grande porto seguro. Eu colhi, mas esse fruto ainda hei de dividir com muita gente.

Vejo vocês no trânsito no dia 22/12 e esse é mais um motivo para o mundo demorar mais um pouco para acabar.

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  1. QUE EMOCIONANTE ESSE RELATO, fiquei lendo correndo pra chegar no final logo! MEUS PARABÉNS, muito orgulho de você!! Todo mundo tira carteira nessa vida, menos eu, já percebi. Mas marquei meu re-teste pro final de janeiro, torce? <3

  2. Que liiiiinda! Habilitada! Dá muita emoção, May, eu reprovei na primeira, chorei e me odiei, pra variar eu sempre espero e cobro demais de mim mesma. Na segunda eu passei e minha instrutora, a Lilica, rs, me fez suspense dizendo que eu tinha reprovado porque o avaliador não gostou de mim, hahaha! O Fabio estava na segunda vez, fizemos juntos, foi muuuuito legal. Aproveita muito, vem dirigindo pra SP! Abraços ;P

  3. passei por isso muitos anos atrás e lembro de pouca coisa. acho que das aulas teóricas, com o professor sádico mostrando vídeos de acidentes com gente sem cabeça. mas a carta mesmo eu quase nunca usei. meus pés sempre foram bem mais explorados.

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