A Culpa é do Outro

Acho que foi alguém da psicanálise que disse isso ou algo parecido com isso (foi sim, o Lacan!). É a ideia de que a gente sempre vai estar tentando colocar em alguém além de nós a culpa dos nossos problemas. É por isso que quem queima o chuveiro no inverno nunca é a gente e que as notas baixas de nossas provas sempre são culpa do professor que não ensinou direito.

Eu nunca tive muito essa noção e sempre coloquei a culpa inteira pra mim. Eu era a culpa das notas baixas, dos chuveiros queimados, de todas as vezes que vi meus pais brigarem, de todos os choros da minha mãe, de todas as mortes da minha família. Acho que talvez a minha ânsia por ter alguma importância no mundo seja tão grande que eu simplesmente agrego toda e qualquer culpa para a minha pessoa. Lembro do nível esdrúxulo de me obrigar a comer tudo que tinha no prato, porque há crianças passando fome em algum lugar do mundo e era um absurdo eu deixar sobrar.

Foi o John Green, baseado no Shakeaspere e me contando a história fatídica da Hazel e do Gus que me ensinou que a culpa não está em mim e nem no outro, a culpa está nas estrelas, o que significa que talvez a culpa não esteja em lugar nenhum ou em todos ao mesmo tempo. Tendo a crer que a culpa é uma das coisas que impulsiona a vida. Pelo menos é assim comigo, eu vivo tentando fazer as coisas de um jeito que eu não vá me sentir culpada e acabei desenvolvendo uma capacidade incrível de demonstrar que eu não me importo. É horrível, porque tem muita gente que acredita, mas é vergonhoso admitir que me importo desse tanto.

A primeira vez que eu li “A Culpa é das Estrelas” foi dolorida e cruel. Lembro de ter terminado o mais rápido que pude, só para acabar com o sofrimento. Mas o sofrimento não acabou, porque todas as quotes e a história inteira não cansaram de repassar em minha mente. Nunca. Isso é muito incrível em se tratando de mim, pessoa que faz vídeos sobre o que lê, porque depois de duas semanas não consegue lembrar mais o que tinha no livro. No caso de ACEDE eu lembro de quotes completas, lembro da sequencia da história, lembro de cada ponto que me fez sofrer. Lembro de tudo.

Dei o livro para a minha mãe ler. Queria saber se para ela seria tão sofrido e horrível quanto para mim, mas ela contou que riu a história inteira e que me achou muito parecida com a protagonista, o que me deixou emputecida. Porque a Hazel era a personagem mais chata e horrenda da história, metida, esnobe, insuportável, realista e fatídica demais, sempre querendo saber os motivos das coisas, com um estilo de vida tão ofegante quanto ela mesma e eu jamais seria parecida com aquela pessoa.

Hoje fui ver o filme. Estreou, é o único livro da minha vida que eu sei quase de cor tendo lido apenas uma vez, o que significa que mesmo que meu consciente não tenha achado ele tanta coisa assim, minha memória realmente gostou. Logo no começo, enquanto todas as quotes eram recitadas, tive o primeiro insight do filme: ele era mais fiel que um audiobook do livro, mas o livro ainda era muito melhor. Pelo simples fato de que no livro a cara das pessoas e as vozes são as que eu quero dar, os lugares são do jeito que eu imagino e tudo acontece do meu jeito. E o meu jeito sempre vai ser melhor do que o de qualquer produtor de Hollywood.

Com o decorrer do filme a angústia foi batendo novamente. Eu ria absurdamente, junto com toda a sala e quando percebi meu rosto estava repleto de lágrimas. Eu não sei quando ou porquê aconteceu, mas não foi em nenhuma das horas tristes. Não chorei de soluçar, não chegou nem perto do desespero do livro. Não quis que o filme acabasse logo, mas estava ali. Estava ali. Minhas unhas também eram azuis escuras. E eu entendia a Hazel.

Eu entendo perfeitamente porque ela se sente uma granada e porque ela acha que é melhor que nenhuma pessoa se aproxime dela, porque ela só vai causar sofrimento e dor e angústia. Eu entendo quando ela tem medo de morrer por pensar que a vida de seus pais estaria acabada. Eu entendo quando ela tenta provar para ela e para o mundo inteiro que ela consegue fazer as coisas, mesmo que tudo diga o oposto. Eu entendo que interagir com pessoas em determinadas situações é a pior coisa que se possa fazer. Entendo que seja absurdamente estranho perceber que alguém no universo gosta de você. E também entendo que isso é possível. Entendo que a vida continua. Entendo que só a gente sabe da nossa própria dor. E entendo que nós não somos culpados. Nem eu, nem a minha mãe, nem o presidente ou o papa e por falta de ter a quem culpar e para ser fiel à ideia de culpar a alguém, eu também vou culpar as estrelas. É o melhor que posso fazer no momento.

Eu nunca odiei esse livro, a Hazel ou o filme. Eu odiei perceber que tem muito de mim na história de uma menina que está realmente morrendo. E odiei o jeito que isso fez eu me sentir. Talvez eu não seja um lindo, único e especial floco de neve e eu com certeza vou ser esquecida, mas isso não tem importância. É só uma consequência de se estar vivo e… bem, eu estou. E tá tudo O.K.

One thought on “A Culpa é do Outro

  1. Sobre a frase do título, acho que você quis falar de Sartre, com seu “o inferno são os outros”, não?? Acho ótima essa frase, hahaha.
    E nem sei o que dizer sobre TFIOS porque essa história me tomou o coração completamente desde a primeira página do livro e não foi diferente com o filme. Estava com medo de ir com expectativas e me frustrar, mas amei demais. Nunca vi uma adaptação de livro tão fiel: o filme foi, realmente, o livro na tela. <3
    Beijos!

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