A Falta de Cor

Pode parecer que não, mas sou uma pessoa arredia. Não costumo ser simpática ou ter vontade própria de ser legal com desconhecidos. Moro em um prédio repleto de gente idosa e não conheço nenhum dos meus vizinhos, mas minha mãe é popular por ser a organizadora das novenas de natal e afins. Ela tem uma amiga, que eu tenho muitos pés atrás com. Tudo porque, quando eu estava no terceiro ano, a dita cuja vivia aparecendo na minha casa para jantar e indo embora só depois da meia noite, após ter falado um monte de coisas e tudo super alto, enquanto eu queria dormir. Aí no começo desse ano eu tive que morar sozinha em casa por alguns meses e ela resolveu interfonar e disse que eu deveria pegar o número de telefone dela e ela o meu, para caso eu precisasse de algo. Juro que pensei em não anotar ou em passar o número errado, mas não consegui ser má a esse nível e passei o número certo e anotei o dela, enquanto implorava para que o Cosmos fosse pelo menos um pouco legal comigo e fizesse com que nunca precisássemos daquele contato. E nunca precisamos.

Sexta-feira é dia de diarista e estou novamente sozinha em casa, o que me faz ter que comer no restaurante universitário, ou sobreviver à base de miojos, nuggets, pão com manteiga, nestom com nescau, café, capuccino, bolacha recheada e chocolate. O jantar no r.u começa cedo e o plano do dia era fazer a refeição no Politécnico, que é o campus mais longe da minha casa, mas que eu sempre quis conhecer e convenci minha amiga a me apresentar. Saí de casa pouco antes das 18h e deixei a chave com a diarista, para que quando ela fosse embora deixasse na portaria e eu entrasse lindamente quando retornasse. No ponto de ônibus, minha amiga me liga dizendo que esqueceu a carteira em casa e por isso estava impossibilitada de comer no r.u, eu fico meio decepcionada, mas vou logo entrando em contato com pessoas do meu campus que provavelmente estariam lá. Contato feito, sigo para o campus, encontro as amigas e passo um par de horas conversando e, claro, comendo. Então lembro que tenho que voltar para casa antes que fique muito tarde, porque não tenho coragem de voltar andando quando passa das 20h, despeço-me e caminho para casa. No meio do caminho percebo que quando estou com medo entoo salmos católicos, como se fossem mantras. Resquícios de toda a educação cristã e talvez da fé em um espírito que talvez me salve de pessoas malvadas que estejam por aí.

Entro no prédio e vou logo perguntando para o porteiro “moço, deixaram alguma chave pra mim aí?” ao que ele responde “não que eu saiba, mas vai ali dar uma olhada” e é claro que eu vou, toda esperançosa. E é claro que a chave não está lá. E é claro que meu otimismo faz com que eu suba até meu andar e tente abrir a porta em vão. E também com que eu procure pela chave embaixo de cada um dos tapetes e enfeites que ficam no corredor. E é claro que eu não encontro.

O universo todo brilhando e em um prédio qualquer nessa cidade recém iluminada, uma garota encolhida nas escadas, sem saber se chorava pelo desastre que seu dia tinha sido, dormia enquanto esperava seu irmão voltar com a chave, batia no vizinho do lado (mesmo sem fazer ideia de quem era) só pra usar o banheiro ou tentava, de alguma forma, recuperar a chave perdida. Lá estava a garota, xingando mentalmente cada pedaço da vida da tal diarista e, principalmente, xingando a si mesma, porque essa era apenas mais uma prova de que não se pode confiar em ninguém. Porque é claro que quando eu conseguisse entrar em casa ela estaria toda revirada e sem várias coisas. E eu só entraria com a chave de outra pessoa, porque a minha tinha evaporado.

No auge do desespero, peguei o celular. Mandei uma dúzia de mensagens ao meu irmão, perguntando onde ele estava, quando ia voltar, contando minha situação e falando pra ir logo porque eu precisava fazer xixi. Nenhuma resposta. Liguei. Nenhuma resposta. Passei whatsapp. Nenhuma resposta. Liguei de novo. Vácuo. Mandei então um mar de mensagens para Milena, que respondeu dizendo para eu ir ao banheiro na casa do vizinho do lado, mas meu orgulho não deixava. E eu resolvi incomodar a minha mãe e perguntar se ela tinha o telefone da diarista, porque era só eu falar com Nair e meus problemas estariam resolvidos. E minha mãe me ligou para saber porque eu queria o telefone. E eu contei a história inteira e no final já estava chorando de desespero, sentada na sarjeta, no escuro, no frio, morrendo de vontade de fazer xixi. Porque, como se não bastasse toda a situação, eu tinha que ter a garganta mais seca do mundo e a vontade de xixi mais atacada do universo. Mamãe disse “vai no ap x, que Nair também trabalha lá e a moça deve ter o telefone dela, eu só tenho na agenda que está dentro de casa” e eu me recusei, porque nunca vi a moça na vida e não ia simplesmente surgir na porta dela pedindo o telefone da diarista da mesma. Fui grossa com a minha mãe, desliguei na cara e voltei à minha angústia. Liguei para o meu irmão de novo. Nada. Mãe manda uma mensagem dizendo que ele havia avisado que iria jogar futebol. Eu estava perdida.

Desci até a portaria novamente, procurei pela chave novamente. Nada. Subi. Comecei a folhear os contatos na agenda do celular, que já estava com menos de 10% de bateria, procurando por alguma luz no fim do túnel. E encontrei o telefone da vizinha. Ângela é a pessoa mais popular do condomínio, ela conhece todas as pessoas, de todos os apartamentos. Como pude não pensar nela antes? É claro que ela ia me ajudar! Enviei uma mensagem perguntando o número do telefone da minha diarista. Ela tinha o fixo, os dois celulares, além dos telefones dos irmãos da mesma. Conseguiu falar com Nair, que afirmou ter deixado a chave na portaria e retornou a ligação a mim, dizendo que em minutos iria me resgatar. Parei de chorar, respirei fundo, controlei mentalmente minha bexiga e minha raiva para com o universo e, de repente, vi Ângela chegar em meu andar.

Perguntou como eu estava, como minha mãe estava, como eu tinha sobrevivido ao temporal, afirmou ter ficado preocupada e me interfonado durante ele e ter feito bolo de cenoura, que queria me dar um pedaço e tudo que eu queria era a minha chave, ou notícias dela. Então Ângela pegou o celular e começou a falar com um tal de “Zé” sobre a minha chave e descobriu-se que ela estava no sofá da sala da casa dessa pessoa. Mas é claro que essa pessoa não estava em casa, estava do outro lado da cidade. E é claro que meu desespero voltou imediatamente. E é claro que Ângela tinha a solução. A mãe do rapaz estava em casa, então fomos até a casa dela e pedimos pela minha chave, que supostamente estava em seu sofá. Segundos de procura e eis que, finalmente, meu mol de chaves retorna às minhas mãos.

Vou até a casa da Ângela pegar o tal pedaço de bolo de cenoura, aviso mamãe, Mário e Milena que estou bem, foi só um susto, a chave já estava em minhas mãos e eu estava quase em casa. Enquanto isso Ângela liga para Nair, a fim de acalmá-la e em seguida eu volto para casa, abro a porta e finalmente faço o xixi de cinco minutos.

Há uma troca de porteiros às 19h e o porteiro que saía disse ao porteiro que entrava que deveria entregar aquela chave para uma “menina loirinha”. Na hora em que ele estava de fato indo embora, um casal entrava no prédio, e a menina era loirinha. O menino, sabe-se agora, era o Zé. E o primeiro porteiro disse ao segundo “a chave é dela” e o segundo entregou. E a menina não entendeu nada, mas pegou a chave e levou até a casa de sua sogra. E eu cheguei e não tinha chave. E ela estava num sofá alheio. Tudo por falta de cor.

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