A Magia da Caixa Azul

Existem pessoas que não importa qual idade a gente tenha quando conheça, vai parecer que conhecemos durante nossa vida inteira. Essas pessoas se conectam a nós e nossas vidas passam a ocorrer mutualmente, de uma maneira esquisita e bonitinha. Contam-se histórias de infância e busca-se criar lembranças fortes e emblemáticas para substituir todos os bons momentos não compartilhados pelo fato de um não conhecer o outro. Não é só com gente que isso acontece.

Era começo de 2013 e eu estava conversando aleatoriedades com uma das minhas melhores amigas quando ela fala “você precisa assistir uma série chamada ‘doctor who'”, você, como uma nobre desconhecedora de todas as coisas do mundo até que alguém te apresente a elas, solta um “não consigo ver essas séries de médico, tenho aflição”. Sua amiga, logicamente, ri da sua cara como se não houvesse amanhã e diz “Não, ele é um alien que viaja no tempo e no espaço numa caixa azul! Doctor é o nome dele, não tem nada a ver com médicos. Os efeitos especiais são horríveis e a série é super trash, sua cara, você vai amar.” ri, recuperei-me do meu fiasco e logo esqueci da existência da coisa. Nunca fui fã de aliens e afins, sempre morri de preguiça de ficção científica e só assisti Star Wars ano passado, porque meus amigos nerds me obrigaram. Tinha mais o que fazer do que perder tempo com aquilo. I was a fool.

Tempos depois fui introduzida à vida da pessoa mais viciada em Doctor Who que o mundo poderia inventar e eu achava ele um idiota porque se a série era boba e a pessoa idolatrava tanto, tinha que ser retardada. A dita pessoa passava o dia inteiro compartilhando coisas da série no facebook e eu ficava em dúvida se ia xingar, se parava de seguir o feed ou se assistia alguma coisa do seriado só pra parar de ser preconceituosa. Fiz nenhuma das três alternativas, me acostumei com os posts e passei a achar vários deles super divertidos, mesmo sem entender absolutamente nada. Um dia ele veio me contar que a série é a mais antiga da televisão britânica, existe desde 1963 e não terminou ainda. Ela não vai ter fim. Ouvir uma pessoa super empolgada te falando interminavelmente sobre algo faz com que você tenha um pouco de vontade de assistir, mas a preguiça de ver um seriado com 50 anos que demora dois anos pra assistir todos os episódios, me impediu de começar.

Até que aquela amiga genial que eu denominei “little sistá“, disse que eu precisava conhecer “doctá”. Eu não levo a sério indicações alheias, mas era a terceira pessoa insistindo pra eu ver a coisa e dessa vez tinha ficado sério, porque se ela tinha me dito que era a minha cara, que eu não ia me arrepender e que eu estava sendo boba por não ter começado ainda, é porque, de fato, eu estava perdendo tempo em não assistir.

Entrei no mês grátis de netflix só pra ver uma temporada e provar pra mim e pra todos que não tinha nada a ver, a coisa era idiota e eu tinha mais o que fazer da vida. Aí eu conheci a música de abertura, o Doctor, suas companions maravilhosas e os daleks. E foi como encontrar algo que eu procurava a vida inteira e nem sabia. Foi como se, imediatamente, existir fizesse sentido. Declarei-me apaixonada, viciada, envolvida. Doctor Who não é um seriado, é um estilo de vida (como diriam as amadas Gilmore) e mais do que isso, é real. Porque é plenamente impossível que nada daquilo exista, que a TARDIS seja só uma invenção e que o mundo seja sem graça o suficiente para não ter feito time lords existirem. Prefiro acreditar que de algum modo ele existe, afinal, “só porque acontece na sua cabeça, não quer dizer que não é real”, disse Dumbledore.

Não entendo como manter-se são depois que se conhece Doctor Who. Depois que se conhece daleks e todos os outros aliens que eu jamais decorarei os nomes. Depois de viajar para a Inglaterra Vitoriana, Roma Antiga, vários outros planetas de outras galáxias, universos paralelos e várias outras coisas malucas e inusitadas. São histórias contadas com tanta intensidade, genialidade, bom humor e densidade que é plenamente impossível viver igual depois que se conhece Doctor Who. É aquela coisa absurda de nem conhecer o negócio direito e jurar amor eterno. De descobrir que tem um doodle do google em sua homenagem e passar horas e horas jogando um jogo bobo, mas sensacional. Porque tudo que envolve Doctor Who é absurdamente sensacional, mesmo quando é idiota e isso faz com que deixe de ser idiota.

Depois de toda essa conexão, sinestesia, frenesi, harmonia e sensação de “mal conheço, mas considero pakas”, torna-se impossível habitar o mesmo planeta que pessoas que escrevem coisas toscas, que ofendem Doctor, que menosprezam os companions (por favor, nunca vai haver uma “profissão” melhor do que essa, eu posso ser velha e ter 5 pós doutorados ou posso ser uma dona de casa malacafenta que dos dois jeitos serei frustrada por não ser uma companion.) ou que falam “ah é a série de ficção científica mais antiga e famosa do mundo, é legal”. Não. Não. Não. Doctor Who é a coisa mais sensacional que eu tive acesso durante este ano, é meu novo amigo de infância não compartilhada que vivo tentando criar lembranças em comum. É o dono de uma conexão que não acontece com qualquer coisa, a qualquer momento. Que me perdoem os antropólogos e suas teorias lindas, vocês não viajam por aí em uma caixa azul bigger on the inside e vocês não sabem o que é allons-y, sem contar que vocês piscam.

2013-10-05 13.22.57
timey-wimey stuff

2 thoughts on “A Magia da Caixa Azul

  1. SÓ QUERIA FALAR QUE TE AMO EM CAPS POR ISSO. QUE POST GENIAL. QUE FINAL. MEU DEU, OBG PELA MAYRA BIG SISTÁ. NÓS SÓ NÃO MORAMOS NA MESMA CIDADE PORQUE SERÍAMOS INSUPORTÁVEIS FALANDO “FULANO É UM ESCROTO, UMA PESSOA HORRÍVEL, XINGA A MÃE. SEM CONTAR QUE ELE PISCA”. NOSSA, NOSSA. EMOÇÃO.

  2. Primeiro eu queria dizer que o mundo é uma grande mentira porque o blogger se recusa a manter seu blog atualizado nos meus feeds, então eu nunca sei quando você posta, e aí eu entro aqui e eu perdi milhares de post, e você sumiu do Facebook e da vida, e meu Deus, internet sem Mayra não.
    Ok, continuando.
    Doctor Who. Preciso ver, preciso muito, porque você ama, a Milena ama, e lá em SP ela falou tão apaixonadamente, com aquele pingente de Tardis lindo que você deu pra ela, e insistiu tanto, e argumentou tão bem. Eu não sei por que eu ainda não vi, juro pra você. Acho que vem da minha resistência com ficção científica, que daí eu morro de medo de não gostar e não compartilhar essa euforia toda que eu queria tanto pra mim, sabe?
    Mas gostando ou não eu achei o texto uma delícia. Amo me apaixonar pelas coisas e só conseguir falar delas, e querer morar ali pra sempre sem voltar pra realidade. Qualquer coisa que vire nosso estilo de vida vale a pena.
    E eu ainda vou ver Doctor Who por vocês, me aguarde.
    Beijos <3
    Sdds extremas <3

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