A Revolução Rosa

Eram três garotas, duas de sete anos e uma de oito, brincando com suas bonecas high tech capazes de falar, sorrir e até urinar em fraldas de verdade. A brincadeira consistia em dar comida e trocar as tais fraldas, enquanto elas conversavam sobre aleatoriedades. Requisitaram minha presença no quarto de brincadeiras e deparei-me com uma fileira de barbies deixadas de lado. Perguntei porque é que elas não brincavam com as barbies e a resposta de duas das meninas foi “ela não faz nada”, enquanto a outra, que mora no interior e veio passar as férias, disse que barbie é sua boneca preferida justamente porque não faz nada, mesmo ela gostando das high tech.

A menina de oito anos disse que guarda suas barbies apenas porque sua mãe diz que um dia ela pode querer dá-las a suas filhas e em seguida afirma que não quer ter filhos. Nem casar. As outras duas concordam e a namorada do meu irmão, que me acompanhava na aventura de observar brincadeiras, indaga “mas por que, vocês não gostam de meninos?” e as duas pequenas respondem “não! eles são muito bobos!” enquanto a grande diz “ai, daqui alguns anos eu aposto que vocês vão estar namorando”. Tudo isso enquanto elas trocavam fraldas e estavam indiretamente se preparando para serem boas mães.

Lembrei-me da minha infância e que eu sempre quis casar, mesmo achando todos os meninos do mundo um bando de babacas, então de certa forma as coisas evoluíram, no entanto eu jamais faria meus pais gastarem uma fortuna com uma boneca high tech que ~~faz xixi~~ se eu poderia criar um universo alternativo completamente surreal com uma barbie comprada no posto de gasolina durante alguma de nossas viagens de carro malucas.

E eu percebi que sim, as brincadeiras infantis estão mudando, a quantidade de criatividade, raciocínio e ação diminuíram e a quantidade de pensamentos sobre um futuro e uma realidade plausível aumentaram e estão cada vez inseridas em mentes mais novas e inexperientes. Percebi que mesmo com o aumento da visibilidade dos movimentos feministas, brinquedos infantis continuam altamente sexistas e influenciadores de mulheres que sigam o padrão “crescer para ser mãe”, mesmo que elas nem percebam isso.

E eu fiquei triste, porque talvez a gente lute tanto pra mudar a mente dos já mentalmente estabelecidos que esquecemos de tentar educar as novas cabeças de uma maneira mais abrangente e menos preconceituosa. Fiquei triste porque lugar de criança é brincando no mato, se sujando e se machucando e isso não pode ser restrito apenas às que moram no interior e essas não podem sofrer bullying pelas outras quando visitam a capital! Por favor, a infância delas é muito mais legal do que a dessas crianças criadas em prédios que só conhecem os playgrounds do condomínio ou as hotzones dos shoppings.

Sei lá, queria ter sete anos pra poder mostrar pra essas meninas que há muito mais no mundo do que trocar fraldas de mentira e ouvir risadas robóticas, porque tentar mostrar isso pra elas com 19 só faz com que elas me achem ainda mais maluca. “Além de cabelo verde quer nos dizer que barbie é mais legal, que estamos indiretamente sendo treinadas pra seguir um padrão de submissão feminina e que estamos disperdiçando a grande chance de desenvolver nossa criatividade ouvindo risadas robóticas?” Sim, priminhas lindas, exatamente isso.

Cause even barbie is part of the revolution these days.

0 thoughts on “A Revolução Rosa

  1. Ih, amiga, então você ainda está numa categoria específica do feminismo, porque a maioria das que eu conheço simplesmente abomina a Barbie, por ela sugerir um padrão de beleza praticamente inalcançável e acabar incutindo isso na cabeça das meninas.. HAHAHHAA.

  2. Só não compreendí o título. Revolução? Está mais para evolução no sentido irônico.
    Dizer que mulher tem que ficar em casa e cuidar dos filhos é considerado machismo.
    Dizer que homem é diferente de mulher é machismo.
    E como sempre as coisas são distorcidas, quando chegam para as crianças tudo isso (evoluí) pois são inseridas na raiz e no crescimento tomam caminhos reforçados por um monte de estoriazinhas do tipo. “Não vá depender de marido, tenha sua própria vida, seu trabalho, sua independiência, e portanto, mudam-se os valores.
    E ainda adiantando e quem sabe um bom tema para alguma de suas excelentes publicações: A infantilização do Homem.
    Serás sempre minha escritora número 1!
    Abraços e continue por favor. Se houverem 10 textos por dias, 10 textos le-lo-eis.

  3. Se por um lado os bebês high tech treinam pequenas meninas pra serem grandes mães, por outro lado a Barbie incita a busca pela beleza e perfeição (e ainda futilididade, materialismo e etc). Ou seja: estamos no mato, sem cachorro. É por essa e outras que sou adepta da antroposofia e cada vez mais leio sofre a infância e aprendo que é possível crescer livre do consumismo. Não sei nem por quê, mas é um assunto que me interessa muito! As chances d’eu querer ter um filho futuramente são de 30%, digamos, mas mesmo assim acompanho esses debates sobre crianças e as diversas formas de educarmos.

    Sabe, infelizmente seria inútil tentar colocar na cabeça das suas priminhas que o mundo vai muito além de um quarto com brinquedos de alto tecnologia. Esse é o momento delas. Cada geração tem sua característica e o resultado só poderemos conferir mais pra frente. Fazer o quê? Na verdade, a mudança tem que partir primeiro dos pais.

    Eu amo todo e cada texto seu <3

  4. Eu era louca por Barbies, mas também gostava de bonecas. Só não tinha nenhuma dessas altamente tecnológicas, mas minha imaginação fazia o serviço muito bem.

    Tenho um primo de 4~5 anos que desde os 2 passa o dia inteiro (literalmente) jogando videogame. Acho isso muito triste, independente da questão sexista e tudo o mais. Acho que eles estão perdendo oportunidades brilhantes de fazer outras coisas TAMBÉM. Limitar a vida acaba limitando a mente.

    Beijos, May.

  5. Tava falando ontem mesmo sobre essas crianças criadas em playground e shopping. Lembrei da minha infância correndo e me ralando na rua, mas acabei de sentindo aqueles velhinhos que insistem em não mudar junto com o mundo.
    Sendo que insisto em certas coisas. Coisas que deveriam mudar em outra direção, não dessa forma distorcida. Minha mãe disse que uma vez me viu brincar com minhas amiguinhas e cada uma gritava com quem queria ser casada. Aí eu gritei “EU SOU SEPARADA”. Acho que era meu jeito de ser uma criança subversiva.
    Vamos treinar crianças contra o padrão de submissão feminina por aí?
    Beijo! <3

  6. May, concordo em partes com seu post. Acho que as brincadeiras de infância são uma forma de incutir padrões, sim, mas não necessariamente. Conheço e sou uma ex-criança que brincou de boneca e de Barbie, mas nunca fui alienada nesse sentido. Eu sonho em me casar e ter filhos, mas sei que posso ser muito mais que isso. E conheço meninas que se reduzem ao papel de mãe-esposa que nem curtiam tanto brincar de boneca. Acho que é determinista demais condenar de pronto a brincadeira de boneca, a Barbie, o video-game que incita violência, etc, etc. Esses componentes não agem sozinhos. Seria mais bacana pensar num plano de educação que leve essas coisas pra dentro de sala de aula e façam as crianças refletirem sobre seu papel, o que querem ser, onde querer chegar, do que condenar um brinquedo.
    E também concordo com a Del, essa coisa do quarto de brinquedos, da alta tecnologia, pode parecer meio deprimente pra quem cresceu brincando na rua, mas os tempos são outros, cada geração é uma geração. Da mesma forma que tenho certeza que sua avó pensava que sua infância era chata, sem graça e sem propósito e que ela sim foi criança de verdade.

    Na verdade eu só queria dizer que sou cria de apartamento, brinquei de boneca até os 11 anos e sou limpinha, feminista e tenho um bom coração, hahaha <3

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