A toalha, o banheiro e os cadernos

Mayra. Catorze anos, seus cadernos, a toalha laranja, os livros e o banheiro.

Aos catorze anos Mayra odiava a tudo e a todos sem a menor explicação, hoje ela tem argumentos ótimos para odiar todos que odeia. O único lugar que se sentia segura e à vontade era o banheiro de sua casa, então ela estendia sua toalha no chão, trancava a porta e pegava seus livros e cadernos e passava o dia inteiro lendo e escrevendo sobre todas as coisas que viessem em sua mente.

Mayra recentemente havia convencido seus pais a lhe deixarem estudar na escola particular. Era seu segundo ano lá e tudo tinha dado certo no primeiro, nenhuma recuperação, todas as médias finais acima de sete, amizades novas, nada a se envergonhar. Tudo deveria continuar igual na oitava série. Igual não, tinha que ser melhor. Mayra estudava. Sempre. Até as matérias que ela detestava, porque eram justamente elas as que ela mais precisava saber! Era o que sempre lhe diziam e ela acreditava copiosamente. Os filmes estreavam, as pessoas dormiam umas nas casas das outras, algumas acompanhavam novelas e seriados, Mayra sabia a lição de matemática de cor e tinha decorado mais um pedaço do livro de história e ficado um pouco mais brava com a filosofia. Ela não podia aceitar a ideia de que um dia ia tirar uma nota baixa, todas as suas médias deveriam estar acima de oito no final daquele ano, para que sua mãe ficasse orgulhosa e a deixasse na escola particular por mais um ano, era esse o trato.

Mayra no banheiro, deitada na toalha laranja, escrevendo de vermelho em seu diário. Porque vermelho era a cor da raiva e era isso que ela sentia. A nota de história tinha saído e ela tinha tirado apenas 6,8 na prova que valia sete. Seu mundo havia caído. Se nem em sua matéria preferida ela era capaz de ir bem, o que seria das outras? Mayra estaria acabada. Ficaria em recuperação, suas notas seriam ruins e ela teria que voltar a estudar no Tiradentes. Chorava copiosamente, como se sua vida realmente não fizesse sentido. Escrevia como se a professora fosse um monstro e todos os personagens históricos malévolos. E ela terminou o texto com a frase “cansei! eu preciso sobreviver! vou deixar de me importar!”.

Deixou.

{e a cada vez que pensa em voltar a se importar, lê seu diário de catorze anos e dorme em paz}

One thought on “A toalha, o banheiro e os cadernos

  1. Eu já ia escrever que ela se importava demais, mas percebi que ela acabou percebendo isso. Ás vezes nos preocupamos demais, e esquecemos que a vida tem que ser vivida, deve ter brincadeiras – na hora certa -, e não ter apenas obrigações…Enfim, o texto está bem ótimo, eu pelo menos gostei muito! Chu ~♥

Comentários: