Absurdamente Extraordinário

É incrível como só o tempo é capaz de nos moldar e preparar para o que está por vir. Há quatro meses eu era um neném chorão que não fazia ideia de como chegaria onde estou hoje. Não posso rasgar seda e dizer que tudo foi maravilhoso porque não foi, porque no período que se decorreu eu tive que me desmontar e remontar tantas vezes que nem sou capaz de tentar contá-las. Eu cresci. É como se algo tivesse saltado aqui dentro, mudado, despertado para uma coisa tão nova, tão maravilhosa e que esteve aqui por tanto tempo, que esteve aqui desde sempre e eu só não tive discernimento para percebê-la. Desde o nosso nascimento construímos nossa jornada, estamos fazendo tudo desde que nascemos, desde sempre.

Não consigo lembrar-me da minha pessoa antes de imaginar ser uma atriz esplêndida que na celebração de recebimento do Oscar diria simplesmente “gostaria de agradecer à minha mãe, minha avó e a todos os meus professores e colegas de aula de teatro”, sabe, daquele tipo que ama fazer cinema, mas tem um infarto ao pensar que pisará em um palco. Não há nada mais esplendoroso que isso. Nem a celebração do Oscar. Porém eu tremia ao ouvir dizer que teria que fazer uma peça infantil. Minhas pernas bambeavam com a simples ideia. Hoje posso dizer que não passava de uma tremenda besteira mascarada por um receio de decepcionar as pessoas que mais venero desde que me entendo por gente. É que eu amo crianças, eu sonho em ter doze filhos, meus priminhos me idolatram e eu brinco de cabana, Barbie, esconde-esconde e o que mais quiserem brincar até hoje sem a menor vergonha disso. Eu sou fã nata do Peter Pan queria ir para Neverland e ser criança para sempre. Eu abomino a ideia de estar crescendo, de ter que encarar meu adulto interior, gosto da criança, não quero que ela morra, só que todos dizem que ela já morreu, que eu sou mais adulta do que pareço, mais madura que muitos na minha idade e isso sempre me magoou muito porque eu não quero ser adulta, nem madura, nem nada, eu quero ter sempre a liberdade de fazer o que quiser e dar uma desculpa esfarrapada para a possível bronca recebida depois. Não que eu queira ser irresponsável, irresponsabilidade e pensamento de criança são coisas completamente diferentes. Para piorar a situação justamente no semestre mais temido pela minha pessoa, pego a professora mais mistificada do colégio. Não que ela seja um monstro, pelo contrário, ela é doce, gentil, sorridente e amorosa a questão é que ela fala o que a gente precisa ouvir, como o oráculo de Matrix. Coisas que a gente precisa ouvir, mas não sabia, que realmente nos transformam e que batem tão fundo em nosso ser que são capazes de nos desmontar, nos fazer chorar por noites a fio repensando todo o fato de nossa existência. A questão, caros leitores, é que isso é bom, é enfadonhamente bom. Redescobrir-se é fantástico. Ouvir o que você sempre precisou, mas ninguém nunca teve coragem de dizer é mais fantástico ainda! Desde a primeira aula anoto mentalmente cada passo da filosofia da dita professora, faço tudo que ela pede e me esforço com o fundo do coração para conseguir fazer algo decente, mas talvez a criança já tenha ido embora ou talvez ela esteja tão abafada pelo meu medo incontrolável que não se sentiu livre o suficiente para bailar por aí. E em meio aos trancos e barrancos, às quedas e reerguidas eu cheguei onde deveria. No dia vinte e três de Junho, o primeiro da nossa jornada.

Nossa peça é diferente de todos os infantis que eu já tinha visto na vida, morro de vontade de assisti-la, mas não posso porque tenho que atuar. Eu não estou satisfeita com meu rendimento e aproveitamento, mas tenho a mais absoluta certeza que estou dando o máximo de mim, o máximo do que eu posso. Quando paro para pensar no “eu” de quatro meses atrás e comparo-o com o de agora mal posso crer na quantidade de mudanças que ocorreram. Sinceramente eu não sei como foi que consegui manter-me em pé. Tantas coisas aconteceram. Tantas. Em todos os âmbitos que vocês possam imaginar eu mudei, eu mudei interna e talvez externamente, me doei, sangrei, sofri. Mas estou aqui. E sei que isso é repetitivo, mas vocês jamais conseguirão imaginar a felicidade que se encontra na minha pessoa neste momento. Felicidade que não está contida no peito de maneira nenhuma está saltitando pelas teclas do Jackie, correndo para contar a vocês ansiosamente que eu sobrevivi, eu consegui, eu não errei, eu gostei do que eu fiz.  É tudo tão grande, tão maior, mas ao mesmo tempo tão certo e tão pequenino. Escrevemos essa peça desde que nascemos. Escrevemos para que pudéssemos colocá-la em prática algum dia e hoje foi esse dia.

A Maravilhosa História dos Seres Extraordinários e sua Jornada ao Magnífico País dos Avessos” estreou nesta manhã, estávamos completamente inseguros porque nosso ensaio no teatro havia sido desastroso e não fazíamos ideia do espaço que deveríamos ocupar, de como a coisa prosseguiria e tomaria forma, de quantas pessoas iriam nos ver, se alguma criança iria nos ver, se conseguiríamos, se o som e a luz funcionariam ao mesmo tempo em que as nossas vozes e todas as outras coisas que você possa imaginar. Chegamos duas horas e meia antes e ainda tivemos a capacidade de atrasar o espetáculo por dez minutos tamanha a nossa ansiedade e felicidade porque hoje era o nosso dia. Eu nunca tinha ficado tão feliz em ver crianças. Nunca tinha ficado tão feliz em ver meus colegas de turma. Nunca tinha me divertido tanto estando em cena. Nunca tinha aproveitado cada segundo e ao mesmo tempo morrido de vontade de abraçar a todos e de sofrimento antecipado porque faltam apenas mais três apresentações. Nunca os sentimentos haviam sido tão misturados, tão intensos e tão juntos. Nunca. Foi intenso, foi lindo, foi mágico! Obviamente não foi perfeito, mas com certeza vivemos cada segundo como se fosse nosso último e fizemos tudo da maneira mais precisa que conseguimos, pensando somente no aqui e agora, porque naquele momento nada mais importava. Como poderia importar? Naqueles minutos todo o nosso trabalho semestral, todo o nosso sofrimento e as nossas alegrias, todos os Gurdjieffs e os exercícios, tudo que ouvimos, vivemos e passamos tudo aquilo era possível de ser visto de fora, era a prova de que realmente aconteceu. Nossa prova final. O último teste. Eu jamais imaginaria dizer isso algum dia, mas ontem enquanto cada um expunha um pouco do que sentiu durante nosso tempo juntos tive a coragem de dizer que eu não gostaria de estar em nenhum outro lugar do mundo que não aquele com aquelas pessoas, naquele momento, fazendo aquela peça. Porque é a melhor peça do mundo. A melhor do que qualquer outra seria. É a NOSSA peça. Construída com NOSSAS personagens, NOSSAS improvisações, coletivamente pensada em cada milésimo de segundo única e exclusivamente para nós pessoas e nós atores. Era nosso momento de fazer tudo valer a pena e olha, eu acho que a gente conseguiu. Não efusivamente, mas iniciamos o processo. Nosso neném nasceu. Agora é só criá-lo com sapiência o suficiente. O palco é onde somos capazes de perceber que todas as indagações ocorridas durante o processo a respeito da nossa capacidade e de termos ou não nascido para fazer aquilo morrem e percebemos que não existiríamos sem aquele singelo momento. Como um certo amigo engenheiro disse uma vez, você pode conhecer todas as formas de energia do mundo, mas a que mora no teatro é inexplicável. Só estando lá para senti-la.

Eu realmente não sei como fui capaz de chegar até aqui, mas agora de onde estou sou capaz de dizer que esse lugar é maravilhoso e que gostaria de viver aqui o máximo possível. Com a mais absoluta certeza de que nada teria sido possível sem as pessoas que me acompanham no palco, a loirinha linda que me acompanha fora dele e a sábia e com o melhor colo do mundo mamãe.

Está valendo apena.

0 thoughts on “Absurdamente Extraordinário

  1. Muito orgulho de você, baixinha! Fiquei muito feliz e emocionada de te ver ali em cena, firme e forte, depois de todos os medos e dúvidas que eu sei que você passou. No teatro estamos sempre quebrando barreiras, mas no infantil eu também suei a camisa muito mais do que eu pensava! E a gente realmente sai outro! Aprendi tanto e tanto com a Livien, e tenho certeza que você aprendeu MUITO com a Janja também! Sei mais do que ninguém como a despedida de algo que amamos é dolorida. Chorei no primeiro dia do Vamos Falar de Amor tamanha dor que era só sobrarem mais 3, e aqui estou, 1 ano depois, com a cabeça na estreia do Estado. E lá vamos nós que a vida corre e o palco (nossa casa!) nos espera! Beijos, eu te amo, e morro de orgulho de ser sua mãe.

  2. Ahhh, que fofa, May!! Peças infantis são tão gostosas de serem vistas, imagino pra quem as faz…
    Tenho certeza de que foi incrível.
    Você e Ana Luísa sempre me deixam babando com esses textos sobre teatro e eu fico louca pra largar tudo só pra poder assisti-las. 🙁

    Beijos!

  3. Eu sou tão sortuda! Olha o tipo de amiga que eu vou arranjar! É tão lindo poder ler palavra por palavra o seu amor pelo Teatro (assim como o da Nalu)! Vejo vocês se prepararem durante meses, duvidarem, se questionarem, surtarem e no fim, serem puramente felizes. Olha o tamanho desse aprendizado, olha quanta coisa boa você tá sentindo! Mesmo não conhecendo o Teatro pessoalmente, eu sou muito grata a ele pelo que ele proporciona a essas duas pessoas tão queridas.
    Tenho certeza que a sua criança interior está preparada pra ficar por perto, sempre.

    Queria tanto poder assistir! Um dia ainda vou estar em Curitiba bem na temporada de espetáculos…

    E VOCÊ É UMA COISA LINDA E APERTÁVEL! Me mimando fofamente na Semana Cazuza! Não precisa se preocupar, e época de estreia eu entendo que vocês ficam loucas e apressadas. Você sempre terá licença poética pra deitar e rolar nos meus posts.

    Beijo! <3

  4. Eu não sei muito o que dizer além do fato de que eu queria muito muito ter visto você, primeiramente porque adoro peças infantis e segundamente porque é você! (Nalu, também queria ter te visto).

    Eu acho incrível como você deposita todo seu coração no teatro. Acho admirável, quero ser assim quando crescer. Tenho certeza que é esse fato que fez com que sua estreia fosse ótima, que fez com que tudo desse certo e que vai me fazer muito muito feliz no dia que eu puder assistir a uma estreia sua! você me fez chorar bjs.

  5. Odeio fazer isso, mas vou fazer:
    “Eu sou tão sortuda! Olha o tipo de amiga que eu vou arranjar! É tão lindo poder ler palavra por palavra o seu amor pelo Teatro (assim como o da Nalu)! Vejo vocês se prepararem durante meses, duvidarem, se questionarem, surtarem e no fim, serem puramente felizes. Olha o tamanho desse aprendizado, olha quanta coisa boa você tá sentindo! Mesmo não conhecendo o Teatro pessoalmente, eu sou muito grata a ele pelo que ele proporciona a essas duas pessoas tão queridas.
    Tenho certeza que a sua criança interior está preparada pra ficar por perto, sempre.

    Queria tanto poder assistir! Um dia ainda vou estar em Curitiba bem na temporada de espetáculos…” +1!!!!!!!!

    A Mi disse tudinho que eu pensei em dizer!

    Eu sou apaixonada pelo teatro, como espectadora, é claro. Acho uma magia incrível, sempre que consigo ir assistir a alguma peça, me sinto saindo outra pessoa de lá. <3

  6. Confesso que chorei lendo esse texto. Ser madura o suficiente para encarar as dificuldades que encontramos na vida é difícil demais, porém quando percebemos que conseguimos alcançar aquilo que tanto almejamos, nossa, que sensação incrível. Estou muito orgulhosa por você ter enfrentado tudo com tanta tenacidade, fraquejando ali e aqui (afinal ninguém é de ferro), mas no fim, o espetáculo deu certo. Parabéns, Mayra! Nunca perca essa criança interior. Crescer não significa ter que se afastar completamente das meninices, da mágica Neverland e você está provando isso. Estou muito feliz por você <3
    Que venham muitas outras peças, muitos outros desafios… sei que você vai conseguir superar tudo, sempre. Beijões, lindona :**

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