Ah… O Ano Novo…

Um dia eu bradei para o universo com todas as letras que a data comemorativa que mais me irritava era o carnaval. Ledo engano. Existe no ano novo. Acho que sempre o desconsiderei porque nunca o vi como uma data comemorativa, sempre foi o dia do show gravado da globo seguido por incontáveis fogos de artifícios e ir dormir. A única vez que foi diferente foi mais emocionante, mas era por causa do lugar e não da festividade. Afinal, pouco importava o que era comemorado quando eu estava em Times Square com uma neve fininha tentando enxergar fogos super rápidos e sem graça enquanto ouvia pessoas felizes cantando músicas tão velhas que eu nem lembrava que existiam e entendia que existe algo além da música da globo e daquela outra insuportável do “adeus ano velho, feliz ano novo”. Ano novo é uma cilada.

O problema começa com o nome, porque alguém resolveu inventar que era “réveillon”, palavra esquisita de origem esquisita que eu não sei o que significa, mas quando coloco no google translate ele traduz para “new year’s eve”. Eu sequer sei como é que se fala réveillon e, sinceramente, não faço a menor questão. Após o nome vêm todas as hipocrisias. Pessoas que passam o ano inteiro xingando os umbandistas e macumbeiros começam a ovacionar Iemanjá, a Rainha das Águas, sem fazer a menor ideia do que ela representa e de pra que servem as oferendas. Aí pulam ondas, guardam romãs na carteira, escolhem roupas de cores específicas e fazem mil e uma outras coisas, para depois se embebedarem, dormirem e recomeçarem a vida exatamente como em todos os outros anos. As mesmas manias. Mesma forma de encarar as coisas. Mesma rotina. Mesmos gostos. Mesmas companhias. Mesmo tudo.

Só que existe a ilusão. Não podemos esquecer a ilusão! Porque algum infeliz um dia resolveu comparar o primeiro dia do ano com a primeira página de um novo livro em branco, uma nova agenda a ser preenchida de momentos incríveis e inesquecíveis e as pessoas acreditaram. Ninguém é plenamente satisfeito com a sua vida, então a hipótese de haver um jeito de magicamente tudo se transformar é claramente acatada por todo mundo, veja, por exemplo, a quantidade de gente que jogou na mega sena da virada. As pessoas fazem listas, promessas, criam metas, se olham no espelho e juram a si mesmas que dessa vez vão ser diferentes. E não cumprem quase nada. Não só porque esquecem da maioria das promessas, mas principalmente porque mudanças de vida não acontecem do dia para a noite, não é o virar de um dia, um ano ou um milênio que vai magicamente transformar a sua vida. Se você quer que algo seja diferente, comece a construir essa diferença aos poucos, que uma hora ela chega lá.

Eu tenho um terrível problema em prever minha vida. Meu psicólogo sempre cai na discussão do “tá, mas quando você tiver 25 anos, o que você vai querer ter feito/estar fazendo?” ou qualquer pergunta parecida e eu sempre respondo “sei lá, a única expectativa é conseguir terminar a faculdade com 21 anos e depois disso eu não faço ideia”, “mas e casar? sair de casa? viajar? fazer novos amigos? ter um emprego legal?”, “não perco meu tempo planejando essas coisas”. E não perco mesmo. “Quais são seus planos pra 2014?” sei lá. Sobreviver? Completar 20 anos e surtar? Tentar não reprovar em nenhuma matéria (e falhar porque dormir e ver seriados é muito mais legal)? Ler o dobro de livros? Voltar a fazer exercício físico ou qualquer outra atividade extracurricular? Ser mais dócil e amável? Escrever menos? Falar menos? Dormir menos? Não sei. Sobre 2013 posso responder a quaisquer perguntas, já foi, já vivi, já sei. O agora e o amanhã eu só vou saber quando pisar lá, oras bolas carambolas!

“Expectativas geram decepções” disse alguém muito sábio algum dia na vida e eu acatei com afinco essa frase. Não espero nada. Não planejo nada. Ainda assim vivo me decepcionando, imagine se eu planejasse! As poucas coisas que me arrisco a sonhar com e a planejar arduamente na maioria das vezes dão errado, ou por não dependerem só de mim, ou por dependerem de mim a ponto de me fazerem desistir. Eu não sou boa em planejar situações, esperar por momentos, preparar milimetricamente e torcer ansiosamente pra acontecer. Se tiver que acontecer vai acontecer e eu vou achar o máximo e se eu nunca tiver perdido tempo pensando sobre aquilo, o fato de não acontecer não vai me abalar nem um pouco.

Eu não gosto de Ano Novo. Acho uma celebração completamente inútil, sem graça e sem sentido algum e, enquanto ano passado fiquei de preto só para irritar a minha mãe, dessa vez deitei em minha cama e fiquei xingando cada vizinho que soltava fogos de artifício até o momento em que eles pararam e eu consegui dormir em paz. E se eu mandei mensagem de ano novo foi ou porque me mandaram e eu tinha que responder ou porque tenho muita consideração pela pessoa e não queria que me achassem mal educada, afinal, elas não tem nada a ver com o fato de eu não gostar de ano novo.

Para 2014 só digo Allons-y e brigo por ele se chamar 2014 ao invés de Alonso.

One thought on “Ah… O Ano Novo…

  1. Encontrei uma Georgia Lass ou foi coincidência? No primeiro episódio de Dead Like Me (um dos meus seriados favoritos), Georgia está refletindo sobre sua vida (ela morreu) e em como ela não fez muita coisa, como ela sempre evitou interesse, porque interesse leva a expectativa e expectativa leva a decepção. Se não foi uma referência, fica aí a dica, que você vai adorar esse seriado. :3

    Quanto ao ano novo… Eu adoro, me julgue. Adoro poder tirar um tempo para refletir o que eu fiz de bom e de ruim no ano que passou, o ritual do banho de sete ervas, as listas de resolução, a roupa branca e a calcinha nova. Compro uma agenda, onde eu planejo tudo para o próximo ano, só para abandonar lá por junho. Gosto das expectativas, mas sou impaciente e acabo perdendo o interesse. Mas a cada novo ano eu prometo ser mais focada, e as vezes isso até acontece (tenho uma agenda que durou até agosto, tô com fé de que a desse ano vai até outubro). É uma mentira que eu me sinto bem contando para mim mesma. 🙂

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