Amor

Queria saber quem foi que começou com essa história de que homem é machão e mulher é nada. Quem foi que inventou que homem sente prazer e vontade de copular a cada corpo que vê e mulher só quer saber de casar e ter dois filhos, numa grande chácara. Queria saber quem inventou que o homem deve agir de maneira x ou y para conseguir uma mulher e que a mulher tem a maneira w e z de dizer ao homem o que está querendo com aquilo tudo. Mas eu não sei nada disso.

O que eu sei é que tem muita mulher que sustenta o marido e mil filhos, que tem dois, quatro, seis empregos e que faz o possível e o impossível para se manter satisfeita consigo mesma e com aqueles que ama. O que eu sei é que mulher não é frígida a ponto de andar por aí e não observar corpos masculinos. O que eu sei é que muita mulher acompanha a bunda de homem, tanto quanto eles acompanham as nossas. E os pensamentos são os mesmos. Prazer carnal. O que eu sei é que mulheres passam tantas horas quanto homens conversando sobre aquela pessoa ali e o que ele faz ou deveria fazer. Sei que mulheres, que aprenderam desde criança a sempre ter uma confidente, não escondem nada para essa pessoa. Nem um dos mínimos detalhes. E que dão pitacos na vida alheia. E que quando a coisa é muito absurda é necessário compartilhar com o grupo inteiro, para várias opiniões, muito preparo psicológico e finalmente… o enfrentamento. O que eu sei é que mulheres possuem um órgão chamado clitóris, que já virou até motivo de documentário pelo fato de não condizer com a desculpa científica de que sexo só serve para reprodução. Porque o clitóris só serve pra prazer. E só as mulheres têm um órgão específico para isso. O que eu sei é que, muitas das mulheres que querem casar e ter seus dois filhos, antes deles elas pensam no marido, na vida casada e em fazer tudo isso só depois de ter adquirido certa independência. O que eu sei é que ninguém ensina pra gente com um manual passo a passo como agir ou se fazer entender em determinadas situações, a ponto de que o sexo oposto entenda x ou y. Porque nós não fomos criados como o sexo oposto. Fomos criados como nós. Só entendemos a nós, e muito porcamente.

O fato de haver uma diferença imensa na criação de meninos e meninas gera um turbilhão de problemas que nos assolam por toda a vida. Porque nem nossos pais se entendem por inteiro, por mais felizes que eles pareçam ao mostrar as alianças de sei lá quantos anos de casados. Porque meninos são criados para serem babacas dependentes em alguns quesitos enquanto meninas são criadas para ser babacas dependentes em outros quesitos. A ilusão de completude dá-se pela junção desses quesitos, ou seja, se o homem x é independente bem naquilo que a mulher é babaca, pronto.  Não tem nada a ver com o corpo, intelecto ou qualquer coisa assim. As pessoas se relacionam por puro utilitarismo. Por pura preguiça de tentar entender o outro. Então elas sentam e fingem que estão ouvindo, enquanto na verdade estão pensando que o menino x tem carro pra te levar na balada e que a menina z tem aqueles peitos que dá pra fazer aquela coisa que você viu no filme pornô. Porque meninos veem essas coisas com onze anos, enquanto as meninas estão aprendendo a lavar panelas e passar roupas. Em uma visão puramente racionalista, os relacionamentos são como uma enorme feira de escambo, em que o produto de troca é você. Você por inteiro, não só o seu corpo ou a sua mente. Você.

Só que em algum momento de todo o nosso desenvolvimento enquanto hominídeos, lá em uma das sei lá quantas espécies de australopithecus, talvez antes, talvez depois, nunca saberei quando ou onde, inventamos uma coisa chamada “amor”. Acredito que ele tenha nascido a partir da relação afetiva entre as fêmeas e suas proles, que se sentiam na obrigação de cuidar delas até que elas pudessem viver sozinhas. Quando veio a consciência de que o macho copulador também era responsável pela prole eu não sei. E também não sei como foi consolidada a ideia de família, mas acredito que não tenha tido nada a ver com o amor romântico.

O amor romântico, por sua vez, teria nascido – ou pelo menos tornado-se mitológico/ritualístico/tabu – quando já éramos homo sapiens. Quando já éramos descendentes de Cristo e não mais da Lucy. Porque Cristo é a representação mais tácita do amor, do comprometimento, da compaixão e de tudo que há de mais puro e bondoso no mundo. Não só porque ele era Filho de Deus, mas porque ele era humano. Ele não poderia amar se não fosse humano, vejam bem, o Deus do Antigo Testamento é cruel, maligno, destrói cidades e populações inteiras, basta você desobedecê-lo. Ele não vai te perdoar. Ele vai pisar em você. Jesus não. Jesus vai te acalentar, dizer que está tudo bem e que basta ele ser crucificado e perder todo o sangue por você que você será salvo.

Depois disso, a noção de amor sofre uma mudança drástica. As pessoas começam a achar que talvez os casamentos devam envolver mais do que trocas econômicas ou usuais, começam a pensar que talvez possa vir a existir esse sentimento que Jesus falou em todos nós, em diversos quesitos. E então elas denominam a explosão de hormônios, idealização excessiva, taquicardia e embrulho no estômago de “paixão” e dizem que se duas pessoas sentirem isso concomitantemente, estão condenadas a ser feliz por um tempo, mas que a felicidade eterna só viria caso a idealização sumisse e a aceitação diante dos erros e falhas (representantes da humanidade) aparecesse. E, de repente, não mais que de repente, o amor vira o maior tabu do mundo. O objeto mor de desejo de todas as pessoas.

Poucos ainda se interessam por se relacionar da maneira escambática comum até então. Agora eles têm a chance de amar. De encontrar no outro algo que desperte em você sensações únicas. E passam a vida inteira procurando isso. E constroem casas, carros, prédios, teorias, músicas, poesias, livros, pinturas e todos os outros tipos de arte baseando-se neste ideal. O amor torna-se a principal ilusão do homem. Aquilo que o impulsiona quando nada mais faz sentido. Porque se nada faz sentido, é porque você ainda não amou. Então surge o desespero ardente que não cessa de crescer na mente de todos os indivíduos por uma completude carnal instantânea, porque o amor nunca chega e o corpo precisa se manter vivo. E quando qualquer fagulha de algo que possa ser considerado amor aparece por perto, tudo muda. Tudo faz sentido, a luz no fim do túnel começa a brilhar, a esperança bate à porta e eu, você, nós, ficamos dias e dias esperando que a pessoa amada nos ame e que, se ela nos amar, a gente seja realmente feliz. Porque o único caminho para a felicidade é o amor. Porque o mundo se resume ao amor.

É só uma palavra, disse Mr. Smith para Neo. Uma palavra curta, de quatro letras, que os humanos insistem em encher de significados. Insistem em complicar. Insistem em sofrer por e em delegar a resolução de todos os problemas de suas vidas nisso. Mas nós, que não somos Mr. Smith, nós que somos humanos sabemos que, tendo sido inventado ou não, sendo eficaz ou não, existente ou não, quando qualquer coisa semelhante a isso aparece, nosso chão some, não sabemos como agir, toda gota d’água vira um furacão, nada faz sentido e eu, tu, eles, nós voltamos a buscar o escambo, com a ilusão de um dia talvez transformá-lo no tão adorado sentimento chamado “amor”.

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