Ana, de novo.

Hoje Ana faz onze anos. Falei sobre o aniversário dela no ano passado e decidi que vou tentar falar na maior quantidade de anos possíveis. Ainda tenho dificuldades em me enxergar como tia, mas estou começando a entender a responsabilidade da questão. Penso no quanto minhas tias foram e são importantes para mim e descubro que não posso me omitir em relação às sobrinhas que eu tenha, não importa o quão longe estejamos.

Ainda não tenho a intimidade que gostaria de ter com ela, mas agora que Ana cresce, minhas esperanças estão maiores. Tímida ela ainda continua, pouco nos falamos e há uma distância gigante entre a gente. E nem falo apenas do fato de ela morar em outra cidade, mas sim da distância de pensamentos mesmo. Até agora tentei não me importar muito com a forma pela qual minhas sobrinhas são criadas, mas há práticas de condutas que elas reproduzem dos pais que me enchem de angústia.

Já sonhei que ela me ligava para eu resgatá-la bêbada em uma festa de madrugada, porque o pai a mataria se ela chegasse em casa assim e, bem, é esse o tipo de tia que eu quero ser. A tia que está ali, que entende, que se esforça. Que leva em conta o que ela pensa e faz o possível para não reprimir.

Tenho sentido uma vontade absurda de salvar a Ana. Como se ela precisasse doentiamente de mim. Queria poder tirar ela da casa dela por uns tempos, levar pra passear e enchê-la com todo o carinho que ela vive rejeitando por causa da timidez e repreensão prévia. Onze anos é quando a vida começa a ficar difícil, principalmente quando se é menina. As colegas começam a menstruar, namorar, ter peitos e as sensações que isso causa nem sempre são das melhores. E, bom, sei que a Ana vai precisar de alguém com quem conversar sobre.

Mas a cada dia que passa percebo que essa pessoa não será eu. E isso é meio inconcebível, porque, bem, eu sou a única tia dela, ela é minha primogênita e juro que meu amor é grande o suficiente pra qualquer problema que ela venha a ter. Só não consigo demonstrar. E o abismo entre a gente ao invés de se estreitar, só cresce. E enquanto Ana deveria estar aqui perto, continua longe. Quase intocável.

Sabe, Ana, se algum dia você vier a ler isso aqui, preciso te dizer que penso em você quase todos os dias. Que vejo muito de eu criança em você e que lamento por seus pais agirem de forma ainda mais rigorosa do que os meus agiram comigo. Acredito muito em você e jamais hesitaria em estar ao seu lado. Olha, não importa o que o mundo te faça acreditar, você é linda. Você é inteligente. Você é importante. E você é amada. Não importa exatamente “quem” ou “o que” você seja. Sempre vai ter uma tia desmiolada esperando você precisar dela.

Que seus onze anos se multipliquem muitas vezes.

2 thoughts on “Ana, de novo.

  1. Quando minha “ficha caiu” sobre o papel de tio, não tão assustado. Mas hoje olhando para minha sobrinha de 11 anos (a mais velha) e a outra de 9 e o pequenino de 5 me assusto um pouco.
    Fico a pensar como é construído o perfil racional/social de uma pessoa, olhando pra eles.
    Embora haja a interferência dos pais, escola, amigos e tios e tias, o perfil da pessoa pequenina permanece e cresce. Esse confronto que tú teve e que nossos sobrinhos terão acho que faz parte do desenvolvimento e independência racional de qualquer ser, assim como tivemos nosso momento.
    Somos responsáveis sim, quando isso ocorrer. Me recordo que não tive influência direta de meus tios, mas no meu caso, foram amigos de meus pais. Me recordo detalhadamente de alguns conceitos que sabei espelhando durante um bom tempo, hoje menos, a respeito deles.
    Preocupação sim. Acho que o que temos de fazer é estar acessível e se assim for, eles sempre nos procuram. Parabéns titia!

  2. Que lindo e sincero esse texto, May! Aposto que a Ana sabe que tem uma tia maravilhosa, e, se não sabe ainda, uma hora aprenderá que pode contar muito com ela. Para tudo.
    Não tenho sobrinhos – minha irmã só tem 19 anos, rs – mas imagino o quanto isso seja forte. Imagino mesmo que sobrinhos são filhos que nascem em outra barriga.
    Mas acredito que viva sentimentos parecidos em relação à Anna, à Nina e ao Rico. Esse amor desmedido e essa vontade de que eles saibam que sempre terão com quem contar.
    Sempre penso neles resumindo tudo em uma frase da Monica, em Friends, quando o Ben nasce. Ela olha pra ele e diz: “Hey Ben, I’m your aunt Monica. I’ll always have gun”, e eu acho que é isso, né? Ser tia é sempre ter o chiclete. Principalmente na hora errada e escondido dos pais. <3
    Beijos!

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