Eu tinha oito anos quando fui convidada a ser dama de casamento do meu irmão mais velho. Ismael nunca conviveu muito comigo, sempre morou em outra cidade, com sua mãe, mas sempre foi meu irmão. O mais velho de todos. Aquele com quinze anos a mais e que, além de tudo, era meu padrinho. Lá fomos eu e Mário, com roupas que nem sonhávamos em usar naquela época, participar da cerimônia de casamento. A festa foi divertida, a família estava lá quase que inteira e é a última foto com quase todo mundo e vovó no meio. Foi um bom dia.

Tempos depois soube-se que Cláudia estava grávida. Eu, acostumada em receber primos de segundo grau, filhos daqueles primos que já estavam quase casados quando eu nasci, porque fui ser a neta mais nova de vinte e poucos, pensei que seria legal ter mais um neném à caminho e nem me liguei que significava que eu seria tia.

Oito. Esse é o número de tias que eu tenho. Ela teria apenas a mim. E na época eu nem me liguei disso, nem a nada parecido, afinal, eu tinha apenas nove anos e já era esquisito o suficiente ter um irmão casado, pensar que seria tia pioraria a coisa, ainda mais porque sempre fui conhecida por ter mil e uma doenças de velho e não gostar de pessoas da minha idade ou de divertimentos comuns, sendo tia a coisa toda faria sentido.

Ela nasceu pequenina, prematura. Não me deixaram ir visitar. Vi fotos e fiquei aguardando o dia de conhecê-la. Ela foi à minha casa com cinco meses e deixaram que eu a pegasse no colo, mesmo sabendo o quão desastrada eu era. Vovó tentou me ensinar como era ser tia, mas eu nem dei bola. Nunca pensei na Ana como sobrinha, era a Ana e ponto. Reflexo da minha raiva para com rótulos, talvez, o fato é que pensar em mim como tia daquele pedaço de gente agregava uma responsabilidade muito maior do que os meus nove anos permitiam.

Festa de um ano, de dois, Ana tocando piano, violino, sendo craque no futebol, mudando o time para qual torcia, não largando a mamadeira e a chupeta nunca, usando roupas legais e sendo apaixonada por chuteiras e odiadora nata de tiaras. Eu rindo a cada vez que tinha que dizer “Deus te abençõe” e demorando ser chamada umas cinco vezes de “tia” para lembrar que se tratava da minha pessoa. Eu quase nunca tendo a chance de vê-la. Ela crescendo a ponto de não querer mais brincar de barbies comigo.

Eis que há alguns anos Ana, que também é Beatriz,  ganha uma irmãzinha, Maria, que também é Fernanda. Nessa altura da vida eu já tinha entendido que tia era e tia deveria continuar sendo e já tinha percebido que isso era muito mais do que ser apenas prima mais velha, como fora acostumada ao longo de todos os anos. Porque tias são respeitadas, elas têm certo poder sobre as sobrinhas, exercem algum tipo de autoridade. Com Maria eu consegui ser uma tia muito melhor do que com Ana, embora até hoje esqueça que devo ser soberana a elas e passe a maior parte do tempo tentando me divertir, apenas.

Fui com Ana ao cinema, teatro e praia pelas primeiras vezes de sua vida. Ensinei-a a pintar as unhas e amei descobrir que ela também odeia banana. Levei-a à livraria e dei de presente o primeiro livro sem figuras que li na vida, mesmo sabendo que ela gosta mesmo é de esportes e de matemática e de artes. Aliás, depois de vários instrumentos, Ana resolveu ser pintora e escultora e fez uma vaca e nos deu de presente! Hoje o pé dela é bem maior que o meu, ela não toma mamadeira e consegue usar tiaras quando obrigada. Ainda consegue imitar o Michael Jackson, jogar videogame e ser melhor que meus primos no futebol. É uma das crianças mais tímidas que já conheci, mas nada que cócegas, chocolates e perguntas constrangedoras não resolvam. Ah! E ela não tem vergonha de “com quem será”, ela ri!

Hoje Ana Beatriz faz dez anos. D-E-Z.

Hoje eu dou conselhos sobre a vida pra ela, mesmo sabendo que não tenho moral nenhuma para isso, digo que ela pode ser quem ela quiser, porque sempre estarei aqui por ela. Sonho com ela indo em baladas e eu levando e contando ao pai dela sobre os garotos por quem ela se interessar. Imagino que talvez ela se case antes do que eu, o que seria muito engraçado. Tiro fotos com caretas e dou bronca quando ela faz coisas erradas e sempre digo que a amo antes de ela entrar no carro quando vai embora, sempre chorando. Hoje eu atendo ao chamado “tia” na primeira vez que escuto. Maria sempre vai me chamar de “madrinha”, só pra Ana eu sou a “tia”. E eu não sou mexicana ou uso perucas, mas ela ainda é minha carinha de anjo, a primeira sobrinha, a que me fez tia. A ela um feliz aniversário e um ótimo ano!

Efeito: flash do celular
Efeito: flash do celular

0 thoughts on “Ana

  1. Chorei, chorei muito.
    Não dou conta de textos sobre pupilos. Que homenagem mais linda, Maymay!
    Tenho certeza que você é uma tia fantástica, a mais legal de todas, e a Ana e a Maria são umas sortudas! 🙂
    beijos!

  2. Não dou conta de textos de aniversário apaixonados, ainda mais quando são para crianças! Já amei demais a Ana, e imagino você de TIA SOBERANA, hahahahahaha, morri!
    Mas repito o que a Anna disse, tenho certeza que você é uma tia fantástica e que é a ídola delas! <3

  3. Sério, eu queria ter uma tia como você com cabelos coloridos! Elas devem contar para todo mundo como você é corajosa, fantástica e única! Parabéns para a Ana!

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