Andar.

Eu sempre gostei de andar. É isso. Andar é a coisa que eu mais gosto de fazer na vida. Quando estou triste, chateada, chorante, alegre, contente, cantante ou saltitante. Andar sempre é o que me faz bem, o que me alivia. E é tão simples, está tão ali. É só colocar um pé na frente do outro e seguir em frente.

Andar, saltitar, correr, pular, andar devagar, rápido, de qualquer jeito. O importante é que seja ao ar livre, em uma rua qualquer, o caminho ou destino pouco importam. Não há o que me impeça de ser exatamente o que sou enquanto ando e falo comigo mesma em inglês, em alto e bom tom, sobre o que me dá na telha.

Andar sentindo o vento bater na cara, ou o sol, com protetor solar, óculos ou sem. Com roupas chamativas ou sóbreas, para provocar ou para ser provocada. Para relaxar. Andar. Simplesmente por andar.

Recentemente descobri que além dos pensamentos insanos que me ocorrem em minhas caminhadas diárias, as palavras fluem muito melhor nessas ocasiões. Eu sou tagarela, é o que me dizem desde que aprendi a falar, porém, no entanto, todavia, quando estou andando eu falo muito mais. Quero fazer as palavras acompanharem o ritmo dos passos e nunca paro.

Falo sobre o que me vem em mente que geralmente não faz sentido ou interessa a qualquer pessoa sã, mas quem disse que eu falo com gente sã?

Falar caminhando é a melhor coisa que já inventaram. É a personificação da liberdade, porque a gente pode se movimentar e falar o que estiver pensando, é como se a vida fluisse em algum ponto, em algum momento, de algum modo. É de fluidez que a gente precisa ao viver nesta vida tão presa a tantas coisas bobas e mesquinhas.

Eu canto, eu danço, eu pulo, eu faço de cada quadra por onde passo extremamente essencial. Eu observo o céu, as casas, as cores, as pessoas e eu falo sozinha. Falo sobre mim, sobre todos que conheço, sobre futuros que jamais serão reais e projeto diálogos que jamais existirão. Falo em inglês, brigo comigo mesma, esbofeteio-me, provoco reações em quem passa, canto músicas estranhas repentinamente, invento línguas novas e falo esquisito, cochicho, apenas mexo a boca. E ando. Rápido. Apressada. Só por andar.

Enxergo as pessoas do outro lado da rua e invento uma história para elas, dizendo para onde estão indo, quem vão encontrar e como se sentem no dia de hoje.

Emano os mais bem fundamentados discursos sobre as teorias que acredito e me acho tão genial que jamais consigo transpassá-los para um interlocutor em alguma ocasião relevante.

Eu sonho, sinto saudades, sinto. É um dos poucos momentos que me permito sentir algo. E é bom.

Ando todos os dias. As vezes sem direção, as vezes com pressa, as vezes puramente por vontade de andar e não me arrependo. Nunca me arrependo. Porque na verdade o que eu queria é que todos os meus momentos fossem tão simples, efêmeros e significantes quanto uma boa caminhada.

Let’s fuck this all up and just take a walk.

0 thoughts on “Andar.

  1. É, também gosto de caminhar… Aí quebrei o pé. Humpf.

    Você fala em voz alta enquanto caminha ou mentalmente? Porque eu tagarelo mentalmente, mas ficaria meio ~intrigada~ se visse alguém falando em voz alta enquanto caminha, haha. E, não sei você, mas eu gosto de caminhar sozinha. Ou melhor, comigo mesma. Quando tem outras pessoas junto, elas querem interagir e estragam todo o feeling da coisa.

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