Ao Avesso

Acordei cedo hoje, ainda não eram nem 18h.

Tomei meu banho, comi uma coisa e fui conferir a quantas anda minha vida internética.

Não, eu não estou de férias. Apenas decidi viver um dia às avessas. Um desses anseios toscos que invadem nosso peito às vezes.

Então eu acordei e percebi que estava faltando cerca de uma hora para começar a escurecer. Ri sozinha enquanto ouvia as reclamações da minha mãe dizendo “você faltou aula para dormir de novo!” “mas dormir é bom!” “mas a gente tem que dormir de noite!” e ai… quem foi que inventou isso?

Não que eu tenha algo contra o dia, longe de mim. Ele é bonito as vezes, tem seu charme. O céu azul me encanta, ainda mais quando está surrupiado por cumulus-nimbus, porque sim eu tive minha fase de decorar as nuvens e as constelações e passar horas e horas tentando identificá-las. Eu gosto do Sol brilhando enquanto o vento bagunça meu cabelo e gosto de quando tudo resolve ficar cinza e a chuva me banha de graça enquanto ando pela rua. Mas a noite também precisa ser valorizada.

Tudo começa com o pôr-do-Sol, que é bem mais bonito que o nascer do mesmo. A partir daí começa uma abundância de maravilhas que se concretizam quando há uma coisa branca sorrindo pra você lá em cima. Porque a Lua simplesmente sorri. Ela é o Cheeshire cat de Alice que fica sorrindo pra gente o tempo inteiro e a cada dia ela sorri com mais ênfase, até que atinge seu ápice e começa a murchar de novo e daí eu me esforço horrores pra fazer a vida ser divertida o suficiente para que ela volte a sorrir de novo, porque eu gosto do meu cheeshire, eu gosto da Lua.

As vezes as estrelas aparecem também e começam a dançar com ela e com as nuvens e com as luzes dos aviões que passam pelo meio do caminho e com a névoa que aparece e deixa tudo laranja, mesmo estando no meio daquilo que as pessoas chamam de “noite”.

Quem foi o animal que decidiu que a noite seria noite e o dia seria dia? Quem foi que inventou que a gente tem que acordar super cedo e ir dormir na hora em que o céu e o kosmos estão mais sorridentes, bonitos e amistosos? Porque é que não pode ser ao contrário?

Hoje foi tudo ao contrário. Não fui à aula, não almocei, tomei meu café da manhã pouco antes das 18h. O almoço dar-se-á por volta de 22h, porque sou gulosa e a partir daí fartar-me-ei em meio a doces, misturas e ceias que permearam toda a minha noite, que hoje eu elegi para ser meu dia.

Em um mundo perfeito estaria encaminhando-me à universidade por agora e voltaria à meia noite, só então faria todas as outras coisas que faço naquele período que chamam de “tarde” e na hora que o Sol nascesse eu ia tomar meu banho e dormir o dia inteiro. Nem é porque é legal ser do contra ou porque dormir de dia é mais descansante do que dormir à noite. Quer dizer, eu realmente descanso mais quando durmo de dia e eu realmente gosto de ser do contra, mas o que posso fazer se a noite me encanta muito mais? Se quando o dia fica escuro é como se algo aqui dentro se iluminasse e dissesse “uhul, está na hora da gente viver”? O que posso fazer se na verdade a convenção social eleita como correta para o geral não me contempla? O que fazer se o dia não me representa?

Sinto-me defronte a mais uma de minhas propostas de revoluções que jamais serão colocadas em prática. Mas as férias existem, os dias de greve geral de mim mesma para com o resto do mundo também e ainda bem que eles existem porque só em momentos assim eu vejo que ainda vale apena existir.

Afinal, qual a graça de sentar numa cadeira para estudar durante o dia, enquanto ele está lindo maravilhoso e convidativo para um sorvete no parque com gente querida? Não dá. É impossível. Sempre me rendo ao sorvete. Só que de noite ninguém faz nada, de noite o silêncio reina e quem o quebra são as caixas de som dos carros das ruas que passam com músicas hilárias, que só servem para me animar ainda mais a fazer aquilo que eu deveria. Porque de noite nem dá vontade de tomar sorvete, de noite a gente pode tomar litros e mais litros de café, com todas as misturas possíveis e fechar com um bom bolo de caneca enquanto vemos aquele filme que nos dá sono na hora em que resolvemos dormir.

Se algum dia eu resolver fazer algo da vida, será uma escola/universidade/emprego que fucione a noite para que pelo menos alguns felizardos possam aproveitar os dias da maneira como devem.

0 thoughts on “Ao Avesso

  1. Que assim seja. Eu sou mais noturna. Já cheguei a afirmar que gostaria de trabalhar à noite – o que me leva a pensar que eu deveria ser freela (mas em qual área trabalharia?).
    Um dia atípico é uma quebra de rotina deliciosa. Sou à favor dessa prática também.
    Abraços.

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