Arco-Íris

Com sete anos Tia Peruca me encantou. Ela e aquela peruca amarela, com um terno amarelo, em uma apresentação da escola da Dulce Maria na qual todo mundo estava de preto. Aquela mulher foi a minha maior inspiração da infância, porque ela podia ser quem ela quisesse e fazer o que quisesse, destemida e… linda. Outro dia encontrei “Carinha de Anjo” no Netflix e descobri que nem é tão legal assim e que Tia Peruca não é nem um terço do que era quando eu tinha sete anos. Mas não me decepcionei. Porque foi ela quem me impulsionou a pintar meus cabelos. E foi graças a ela que minha mãe me proibiu de algo alguma vez na vida. Só poderia pintar com dezoito anos, o que me deu onze anos de planejamento. Fiz toda uma ordem cronológica de cores a serem usadas e consegui cumpri-las. Até que em Agosto deste ano entrei em crise, pensei em desistir da minha saga e voltar a ser morena, comum e invisível. Tentei entender que não preciso demonstrar coragem ou qualquer coisa assim, preciso apenas tê-las em mim e, na maioria das vezes, eu nem tenho. Então eu fiquei loira. E meus familiares acharam o máximo. E todo o universo veio me dizer o quão bonita eu estava. E eu me olhava no espelho e não me enxergava. E eu falei um monte de coisas que não deveria e fiz um monte de coisas que não deveria e parei de me importar com a minha aparência, porque era Outubro, coisas fantásticas estavam acontecendo e eu não podia me deixar abater por uma crise capilar. Então eu lembrei dos meus restos de tinta e que já tinha usado todas as cores, menos amarelo e que não estava afim de usar amarelo, porque tinha acabado de estar loira. E eu precisava dar um up em mim e na minha vida. Precisava voltar a rir da minha cara quando me olhasse no espelho, me sentir menos responsável por todas as mazelas do universo… Precisava ser eu. Do jeito que eu sou e não do jeito que querem que eu seja.

Estava esperando o salário do trabalho que eu odeio cair para que eu pudesse ir ao salão, porque minhas raízes precisavam ser retocadas e isso eu nunca tinha feito. Precisava pesquisar melhor como fazer essa coisa colorida, sem que uma cor passasse pra outra e tudo desse plenamente certo. Precisava de planejamento. De tempo. De protelação. De descobertas interiores. De coragem. De falta de fuga. De enfrentamento. Precisava inventar o meu eu novamente. Admitir uma série de coisas que não me sentia apta, livrar-me de coisas e pessoas que já deviam ter ficado para trás há muitos anos. Precisava de mim. De dormir tranquila, ter bons sonhos, não ter vergonha, dançar e cantar e parar de sofrer pelo desnecessário. E algo no espaço tempo em que fiquei nula, branca, descolorida (literalmente) fez com que eu encontrasse todas essas coisas, ou a maior parte delas. Preparada senti-me, resolvi juntar todas as cores em uma paleta de pintura em tela que nós, família de artesãos temos, forrei partes do banheiro com as minhas já manchadas toalhas, me encarei e decidi começar.

E foi divertido. Eu só ria. A cada passo que a gente fazia uma foto engraçada era tirada e minha mãe ali, ajudando nas partes que eu não enxergava enquanto dizia que se ficasse feio não era culpa dela e que ela não ia pagar a cabeleireira para corrigir os erros. Meu pai, com seus olhares reprovativos e suas reclamações quanto ao cheiro. Meu irmão, abrindo a porta para rir da minha cara, enquanto encontrava partes que ainda estavam em branco e pegava o pincel para completá-las. “Eu vou assim para a sua formatura”, “Não tem problema”. Enquanto quase todos os outros familiares, que ovacionavam a falta de cor e a mesmice devem estar me achando a pessoa mais maluca com os mesmos genes que eles. E talvez eu seja. Ou talvez eles é que sejam chatos demais, preocupados demais. É só cabelo. E é meu. Sinto que estou perto de fechar este ciclo da minha vida, por motivos internos, externos e superiores. E isso me deixa feliz. Completa. Risonha. Contente. Mais eu. Queria que todo mundo encontrasse seu equivalente a pintar os cabelos. O mundo seria mais legal, mesmo que não fosse colorido.

irisarco

1 – Descolorindo as raízes (OX vol30 + Pó descolorante azul)

2 – Resultado da descoloração, pós lavagem + secagem

3 – Depois de separar mil e uma mechas e pintá-las alternando entre nove cores distintas (detalhe pra boca suja)

4 – A cara de felicidade do pós lavagem

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