Chorar é algo natural do ser humano, instintivo. A primeira coisa que fazemos assim que saímos das barrigas de nossas mães. É nossa maneira de dizer que estamos com fome, dor, sono ou avisar que sujamos a fralda e precisamos que ela seja trocada. Depois que aprendemos a falar, tal artíficio perde várias de suas principais funções, mas vai adquirindo outras ao longo da vida. Chorar é natural. É humano.

Nossas glândulas lacrimais funcionam 24 horas por dia, lubrificando nossos olhos para que consigamos enxergar perfeitamente o mundo ao nosso redor. Perfeitamente, lógico, é apenas um modo de dizer, tendo em vista que grande parte das pessoas possui problemas de visão, porém eles seriam piores caso suas glândulas lacrimais deixassem de funcionar.

O fato é que a gente cresce e o choro continua presente, seja para exigirmos que nossos pais nos deem tal coisa, ou para contar que nosso irmão nos bateu. Choramos quando nos machucamos, quando brigamos, estamos bravos, felizes, apaixonados ou simplesmente tristes, mesmo que não tenhamos motivos concretos para tal, choramos.

Só que com o passar do tempo o choro deixa de ser simples e natural e passa a ser um encargo, um peso em nossa vida, algo vergonhoso e que não deve ser feito na frente de qualquer um. Tendemos a tentar controlar nossas glândulas lacrimais, a ponto de ficar com os olhos lotados de água e esforçar-nos ao máximo para mantê-las exatamente onde estão, tudo porque ser visto chorando não seria socialmente adequado.

Velórios são engraçados por causa disso. É o único lugar em que todos podem chorar o quanto quiserem e jamais serão julgados. Alguns o fazem por estarem sentindo falta do falecido, estarem realmente tristes com aquilo, outros simplesmente porque precisavam chorar e sabiam que ali ninguém os perguntaria suas razões. Em velórios todos choram abraçados e não têm vergonha disso. Um limpa as lágrimas dos outros e se afoga em lágrimas no meio de tentativas fracassadas de consolos, sem o menor medo.

Em um de meus filmes favoritos (Clube da Luta), o personagem principal começa a frequentar grupos de apoio a pessoas com câncer, viciados em álcool e portadores de várias doenças, mesmo sem possuir nenhum desses problemas, apenas para ter um bom motivo para chorar. Ele queria chorar, mas não conseguia, então ia a esses lugares e acabava chorando desesperadamente.

Esse é o nível em que chegamos!

Algo antes tão natural e simples, torna-se objeto de vergonha quando crescemos um pouco. Temos necessidade de chorar, é algo natural e necessário, mas temos vergonha de fazê-lo. Chorar por aí agrega muitas perguntas indesejadas, explicações e momentos desagradáveis. Sim, porque ninguém vai te consolar e te abraçar se não souber exatamente porque você está chorando e se você disser que é simplesmente porque teve vontade, vão te chamar de fresco e dramático e vão te deixar ali, sozinho, afogando-se em suas próprias lágrimas.

A verdade é que muitas vezes choramos só para chamar atenção mesmo, para que nos notem, olhem para nós diferentemente, nos abracem e digam que somos especiais. As vezes choramos simplesmente para nos sentirmos amados e não há nada de errado nisso. Somos humanos. Precisamos nos sentir amados. É uma de nossas necessidades básicas e é completamente normal nos sentirmos sozinhos, abandonados e desabarmos a chorar, mas esses momentos passam, mesmo que pareçam ser eternos.

Tentamos controlar nossos reflexos naturais, nossos traços animais, inutilmente.

Essa coisa de chorar apenas em ambientes fechados e quando se está sozinho apenas piora as coisas. Mas eu, por exemplo, já não consigo chorar na frente dos outros com a mesma facilidade de alguns anos atrás. Não me acho digna de requerer tamanha atenção. Não acho correto sensibilizar os outros com coisas que muitas vezes são inúteis. Não gosto de preocupar terceiros por simplesmente suprir uma necessidade natural do meu corpo. Tenho vergonha de chorar na frente dos outros. Quando isso acontece, é seguido de vários pedidos de desculpas. Morro de vergonha. Não gosto de ser frágil e sensível, acho que isso me torna menos respeitável. Criei uma máscara de ferro sobre minha face. Procuro sorrir e ser feliz o tempo todo. As pessoas já têm muito com o que se preocupar em suas próprias vidas, não é correto roubar um pouco dessa atenção. Sou completamente fria e insensível por fora, mas meu interior é exatamente o oposto. Então quando eu fujo ou fico um pouco calada é porque o encargo da máscara está pesado demais, está difícil de carregar. Afasto-me porque sei que se ficar perto de qualquer um não conseguirei me controlar mais e eu não posso ser vulnerável. Sou forte. Sempre fui e sempre serei.

Sou apenas mais um resultado dessa sociedade banal, desse mundo tosco em que vivemos. Deixo de agir de acordo com o que sinto, simplesmente porque penso que assim estarei tornando a vida alheia um pouco mais fácil. Ser verdadeiro é difícil e incompreensível demais. Todos estão tão acostumados com futilidades e mentiras, que um mínimo pedaço de verdade já é capaz de derrubá-los por completo. Não quero ser a causa da queda de ninguém. Não sou cruel o suficiente.

Por isso digo que ninguém me conhece de verdade. Os que conhecem melhor são aqueles com quem falo via internet, porque aqui eu posso chorar o quanto quiser, ninguém vai estar vendo, ouvindo ou sequer sabendo disso. É seguro.

Saiba que se você já me viu chorando é porque eu realmente gosto de você. É o meu jeito de demonstrar isso.

(Sei que prometi para mim mesma parar de escrever minhas vulnerabilidades por aqui, mas torna-se inevitável. Depois que constato algo novo a meu respeito preciso contar ao mundo, na esperança de que algum interessado em minha existência aproveite as informações. Sei lá, só estou tentando ser menos arredia, estou tentando ser aquilo que meu rosto demonstra. Talvez eu consiga um dia, quem sabe.)

0 thoughts on “As lágrimas…

  1. Hoje, enquanto eu chorava bem brava no shopping eu pensei exatamente nisso: PELO DIREITO DE CHORAR EM PÚBLICO. Porque ninguém liga a mínima quando você ri. Então não deveriam ligar se você chora, ué!

    1. Exatamente! E se fossem ligar, que fosse por motivos reais, algo um pouco mais concreto do que apenas curiosidade.

  2. bukowski explica:
    “- existe alguém que seja feliz?
    – algumas pessoas fingem que são.
    – por que?
    – porque elas tem medo ou vergonha de assumir que não”.

    é isso.

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