As Margaridas…

Procurando algo para ler lembrei-me de que há muito tempo havia em mim uma grande vontade de concluir a leitura de “Orgulho e Preconceito”, sabendo que a Analu ama tal história e possui o livro, pedi para que me emprestasse. O livro, já com a capa razoavelmente gasta, trouxe dentro uma pequenina supresa, não tão surpresa assim, porque veio seguida de imensas recomendações. Ao abrir a obra encontra-se uma pequena Margarida, remanescente da última peça da Ana, em que Clara despetalava margaridas durante o tempo todo. O detalhe é que para mim detalhes nunca são insignificantes e ao me comprometer que não perderia tal flor de maneira alguma, não fiz simplesmente por medo de ser decaptada, mas principalmente pelo fato de ser uma Margarida e branca ainda!

Margaridas são minhas flores preferidas desde que me entendo por gente, acho que grande parte de meu amor por elas advém do fato de ter sido a primeira flor que eu soube o nome, o fato é que Margarida era o nome da minha avó paterna e nunca vai existir uma flor que signifique mais para mim do que esta.

Aquele pistilo amarelo ligado em várias pétalas brancas e fininhas representa muito para mim. Relaciono o formato da flor com o formato do Sol, mas é um Sol mais delicado, fofinho e bonito. As margaridas representam leveza, simplicade, pureza e elegância para mim. É como se aquilo não fosse apenas uma flor.

Margarida era o nome da minha avó paterna e ela era minha melhor amiga de infância. Mamãe ficava em segundo lugar, logicamente, pois vovó não podia sentar-se ao chão para brincar de barbie comigo, como mamãe fazia, mas vovó tinha todo um charme que a tornava imensamente especial. Ela foi a pessoa mais velha que eu já conheci, nasceu em 1918, isso significa que quando eu nasci ela tinha 76 anos! Casou-se muito jovem com um rapaz sete anos mais velho que vinha de uma família humilde, era uma jovem bonita e mineira, o que significa que sabia fazer comidas deliciosas. Seu marido acabou tornando-se fazendeiro, cafeicultor para ser mais exata e ela teve que abandonar seus estudos para cuidar da fazenda, aos poucos vieram aparecendo os filhos e não foram poucos, 13 no total, sendo que um nasceu morto. Vô Mário era muito nervoso e estressado, sistemático e eu acredito que não seria um velho fofo, caso tivesse vivido o suficiente para se tornar um velho (não o conheci), ele batia muito em todos os filhos e sempre brigava com todos, mas vovó era muito paciente, o ouvia e tentava ajudá-lo. Ele nunca a desrespeitou e sempre a amou muito, demonstrando de todas as formas que conseguia. Seus filhos cresceram e foram para a capital estudar, nessa época a família já tinha se mudado para o Norte Paranaense, que era o novo foco do café na época, então a capital era Curitiba, onde eu moro atualmente. Depois de alguns anos vovô morreu com câncer não sei aonde e ela se mudou para Brasília, onde uma de minhas tias morava e cuidava dela, mas ela não gostava de “depender dos outros” e por isso tinha seu próprio apartamento. Com a idade avançando cada vez mais e o fato de ela não se adaptar a Curitiba de maneira alguma, acabou se mudando para Cachoeira Paulista, junto com a minha tia que morava em Brasília e lá se submeteu a morar em uma casa que não era dela, foi nesse momento que tive o máximo de contato com tão inspiradora senhora.

Vovó era a mais velha da família e eu a mais nova, ninguém tinha paciência de ficar conversando com ela, também não tinham paciência comigo, acabávamos sempre juntas, talvez por falta de opção, inclusive, o fato é que sempre que eu estava vendo meus desenhos animados e filmes, ela estava logo ao lado fazendo crochê, várias vezes tentou me ensinar, mas eu nunca consegui aprender realmente, uma pena. Ela estava ao meu lado na primeira vez que resolvi cozinhar, sempre me ajudava em tudo que eu precisava e uma vez eu estava passando mau e acabei vomitando no chão da sala, depois disso ia pegar um pano para limpar e ela não deixou, foi até a cozinha, pegou um pano e se agachou para limpar. Ela tinha as mesmas doenças que eu, então entendia as minhas dores e várias vezes fomos à fisioterapia juntas. Vovó também era dona do cabelo mais legal do universo, ele era super branquinho, curto e enrolado, parecia de um anjinho e eu sempre que podia o penteava, prendia e inventava coisas diferentes, ela deixava só para me ver sorrir. Foi ela que me ensinou a adoçar meu café, a amar pão de queijo e a assaltar a geladeira de madrugada. Vovó também dizia que eu era uma das melhores manicures que ela já tinha conhecido, por isso sempre permitia que eu pintasse suas unhas, eu também passava creme no corpo dela e ajudava ela a se vestir, principalmente a colocar as meias! Uma vez ela resolveu escrever cartas para todos os parentes, mas não se lembrava direito como escrevia, então eu passava grande parte das minhas manhãs dedicada a ensiná-la, até que ela finalmente conseguiu escrever uma carta, foi tão gratificante ver aquilo! A principal característica da vó Guida, no entanto, era a oração. Acredito que a família inteira é católica somente por causa da fé dela, era algo tão lindo e contagiante que tornava-se impossível sequer pensar em não crer em Deus quando ela estava por perto. Sua rotina iniciava às 5 da manhã, quando ela acordava para rezar e ela rezava pela família inteira. Com doze filhos é de se imaginar que seja uma família grande, mas além de seus filhos e netos, ela também rezava por seus irmãos, sobrinhos e para todas as outras pessoas que ela conhecia e queriam orações. Eram raras as vezes que não a via rezando e foi ela que me ensinou grande parte da minha cultura cristã. Ela ia à missa todos os dias e quando não havia quem a levasse, assistia pela televisão. Ela era surda, então colocava uma cadeira bem perto da televisão e o volume no máximo. Eu tinha que gritar para falar com ela, acho que é por isso que falo alto até hoje. No fim, são escassas as minhas recordações da época de Cachoeira Paulista que não envolvam a minha querida avó. Em um fatídico domingo de páscoa, porém, ela ganhou um ovo que era metade de chocolate preto e metade de chocolate branco e sabendo que branco era meu sabor favorito, separou tal metade e chamou minha tia para levar a minha parte até a minha casa, quando estava na esquina começou a ficar tonta e perder o ar, minha tia começou a gritar desesperadamente e saímos correndo para ajudá-la, carregamos vovó para casa e a colocamos no sofá, enquanto um tentava ligar para a ambulância, outro tentava contatar o resto da família e outro ficava tentando acudí-la das mais diversas maneiras possíveis, ela olhou diretamente em meus olhos e disse “Reze por mim, por favor. Nunca deixe de rezar por mim.” e então tudo que eu pude fazer foi ajoelhar-me ao seu lado, segurar em sua mão e rezar desesperadamente, qualquer coisa que me viesse à cabeça (rezo por ela até hoje). Eis que chega a minha mãe me pedindo para sair dali e ir correndo até a Igreja procurar meu pai, que depois de muitas semanas tinha resolvido ir à missa, eu fui e não o encontrei, então voltei para casa e minha vó não estava mais lá e eu nunca mais a vi, pelo menos não viva. Falaram-me que o carro chegou e levaram-na para o único hospital da cidade, mas ao chegar lá ela já não respirava. Mesmo assim um padre foi até lá para dar-lhe a extrema unção e na hora que ele começou a rezar, ela reviveu, quando a oração terminou, porém, ela foi embora, para sempre. Eu tinha apenas nove anos, mas aquele dia nunca será esquecido por mim. Passei uma semana inteira sem ir para a aula e nem me importei com o fato de uma multidão ter comparecido ao seu enterro, minhas tias terem ido até lá de taxi aéreo, minha escola ter acabado a aula mais cedo somente para que as professoras pudessem ir ao cemitério, nem vi nada disso. Eu chorava desesperadamente, mais do que qualquer uma das outras pessoas e tinha medo de encostar na minha avó, porque jurava que ela estava apenas dormindo e encostar nela não parecia certo, mas minutos antes de fecharem o caixao dei-lhe um beijo na testa e encostei pela última vez naquele lindo cabelo.

O caixão estava todo enfeitado com Margaridas brancas, as flores preferidas da minha avó, que originaram o seu nome. Desde então, todas as vezes que vejo Margaridas por aí, lembro-me de seu sorriso, seu rosto um tanto amarelado e os cabelos brancos, leves e suaves saindo de sua cabeça, exatamente como as pétalas da flor. Minha avó era tão margarida quanto todas as outras que vivem até hoje e, talvez como uma forma de me conformar por ela ter me deixado (egoísta, eu sei), acredito que há um pouco da minha avó em cada uma das margaridas brancas existentes no planeta.

É, esse livro tem tudo para ser interessante.

0 thoughts on “As Margaridas…

  1. Puxa vida, margaridas representam então. Elas se tornaram importante pra mim porque tudo o que teve a ver com essa peça se tornou importante pra mim, e ver uma margarida sempre vai me fazer sorrir, porque vai me lembrar o quanto eu me apaixonei, assim como lembrar de orgulho e preconceito sempre vai me remeter a vamos falar de amor sem dizer eu te amo. Mas o significado das margaridas pra você é maravilhoso, e menina, que post lindo e emocionante. Tenho certeza que sua vó está sentada num jardim de margaridas, lendo esse texto, e mandando mil beijos pra você. E guria, impressionante como as avós tem fé, né? Admiro TANTO a fé da minha avó. Acredito que quanto mais fé você tem, mais as coisas que você pede são atendidas. Vovó reza MUITO, pelo nome de cada um de nós, e você sabe, SOMOS MUITOS. E meu, é batata: Quer alguma coisa importante? Liga pra vovó e pede pra ela rezar. Sempre funciona. Minhas 2 avós tem o mesmo nome: Aparecida. Só que a que está viva se chama Maria Aparecida. Não existe nenhuma flor com esse nome, mas mesmo assim, elas são as minhas flores preferidas.

    1. Sim! A fé da minha vó era a coisa mais linda do universo! Tudo que você pedia pra ela rezar, funcionava. INCRÍVEL. Achei super legal essa coisa de suas duas avós terem o mesmo nome, uma grande ironia do destino, não? O convite do casamento dos seus pais devia ser engraçado hehehe Avós são melhores do que mel, como você mesma disse. Lindinhos e eternos para nós, né. ówn <3

  2. chorei com o post. eu tinha uma ligação muito forte, mas era com meu avô, ele faleceu qdo eu tinha a mesma idade que você perdeu sua avó e só me lembro de alguém carregando ele pro carro e eu em casa rezando. Tive que ir ao funeral, não chorei, acho que não acreditava que ele tinha ido, tb tinha medo de encostar dele! Ele foi a pessoa que mais amei (e ainda amo) na minha vida, e é o único que eu pude ter certeza que já me amou. E eu achando que você ia falar de Orgulho e Preconceito, hunf..

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