O Setembro Amarelo

Estou trabalhando em aprender a me permitir sentir coisas, sem racionalizá-las previamente. É bastante difícil este processo, porque sempre fui uma pessoa que pensa demais e faz de menos. Felizmente, uma terapeuta está me ajudando neste processo, de forma bastante eficaz. E isso me faz pensar em uma série de coisas – mesmo que a intenção seja aprender a pensar menos.

Setembro é um mês voltado para a prevenção do suicídio, algo chamado de “setembro amarelo”. A intenção é fomentar discussões sobre os problemas psicológicos e formas de contorná-los e superá-los. O plano de conscientização é promovido pelo Centro de Valorização à Vida, que possui uma linha telefônica de apoio para estes casos. Basta ligar e desabafar. E a ideia é bastante essa: que conversar pode ajudar muito.

Eu, como uma pessoa falante, concordo que conversar pode ajudar muito. Mas não é suficiente. Ter amigos não é suficiente. Ser amado não é suficiente. Problemas psicológicos e mentais são doenças e precisam ser tratados como tais. Isso significa que não é “falta de Deus”, não é “falta do que fazer” e não é “paranoia de quem pensa demais”. Não são coisas legais ou fáceis para quem passa por. Não é fácil de falar sobre, mas é menos fácil viver sentindo tudo o que nós sentimos diariamente. Porque a sociedade julga quem não se encaixa, julga quem tem qualquer tipo de problema. E julga mais ainda quando são problemas difíceis de ser explicados ou compreendidos.

Eu faço tratamento psiquiátrico e psicoterapêutico. Tomo medicamentos e faço terapia. Tento cuidar da minha saúde mental com todos os instrumentos que possuo. Tenho diagnóstico de ansiedade social, o que significa que 90% das vezes que eu recuso compromissos é simplesmente por não conseguir sair de casa para realizá-los. Mas como é difícil fazer as pessoas entenderem isso, eu acabo inventando desculpas.

É difícil conversar na minha própria casa sobre estas questões. Os medicamentos são entendidos como “algo para ficar acordado, porque ela tem muito sono” e a terapia basicamente ninguém entende porque preciso e porque me ajuda. Escuto bastante que eu deveria voltar a frequentar alguma religião. E que justamente por não sair e não me expor socialmente é que me sinto tão sozinha. Eu escuto que deveria conversar com as pessoas sobre o que eu realmente sinto, ao invés de inventar desculpas. E que não preciso me fingir de forte, em situações em que não me encontro assim.

Mas tudo isso existe apenas em teoria. Na prática, os problemas psicológicos são entendidos como besteiras e qualquer desculpa inventada faz mais sentido para terceiros do que dizer que você está em crise. E pessoas que se dispõem a ouvir você, na verdade estão apenas cumprindo alguma tabela para se sentirem bem consigo mesmas. Pouquíssimas realmente se dispõem a te ajudar. Pouquíssimas sequer se importam de verdade com as respostas para o já normal “tudo bem”. A maior parte das pessoas simplesmente não liga.

E é aí que iniciativas como o “setembro amarelo” podem ser problemáticas. A falsa empatia é uma realidade que machuca muito mais do que a solidão, para quem tem problemas psicológicos. Pessoas não preparadas e que não sabem ouvir ou responder às questões de quem está passando por situações difíceis, que colocam na cabeça que “precisam” ajudar, porque sabem que vão se sentir culpadas caso alguém próximo a elas cometa suicídio, mas que não fazem a menor ideia de como ajudar ou do que são estes problemas ou de como é viver com eles. Essas pessoas não deveriam ser motivadas a ajudar, a se dispor a conversar ou afins. Elas deviam ser motivadas a entender sobre os problemas, não a agir sobre eles. Porque elas podem piorar muito mais as coisas.

Se pessoas que fazem tratamento psiquiátrico e psicológico seguem tendo crises e dificuldades de se manter estável, pessoas que não tiveram o privilégio de um tratamento adequado são ainda mais vulneráveis a recaídas e a cometer suicídios. Se mesmo pessoas medicadas e em tratamento correm risco de vida, as que ainda não foram diagnosticadas, correm ainda mais. Quando a gente se dispõe a falar sobre saúde mental e a ajudar terceiros, estamos lidando com um fator de responsabilidade máxima: a vida de outra pessoa. E a gente não tem preparo para isso. Não somos médicos ou profissionais de saúde. No meu caso, sou alguém com uma vivência dolorosa nestas entranhas. Mas, mesmo assim, não sou indicada para falar sobre os problemas dos outros. Eu posso compartilhar minhas vivências e me dispor a ouvir, mas não posso fazer mais do que isso. Sempre estarei em posição de indicar tratamento especializado. E sempre estarei à espera de estes tratamentos sejam ofertados ao máximo de pessoas possíveis, com qualidade devida.

O Setembro Amarelo me incomoda mais do que me traz esperanças. Me incomoda isso de achar que uma conversa profunda cura uma depressão ou crise de pânico. Me incomoda achar que as doenças psicológica são apenas de causa social. Eu sou cientista social, estudei Durkheim horrores, mas ainda assim acho que nem tudo que acontece com a gente tem causa social. Problemas cognitivos existem. Problemas hormonais existem. Psicossomatismo existe. E tudo isso deve ser tratado com os profissionais adequados. Não com essa falácia de que “é culpa da sociedade, mas se você estiver rodeado de boas pessoas e com laços sociais fortalecidos, tudo ficará bem”. Nem sempre fica. As vezes a nossa cabeça simplesmente não funciona de forma benéfica para nós mesmos. E acreditar que é algo que se cura com conversa pode fazer com que a gente se sinta ainda mais deslocado e maluco, ao perceber que mesmo rodeado de gente bacana os problemas persistem. Então, bom, não seja essa pessoa que diminui a dor dos outros. E, principalmente, não seja essa pessoa que diminui a sua própria dor. Sua dor é válida. E, se ela existe, precisa ser ouvida, diagnosticada, tratada e levada a sério. Porque ela é séria.

Viver nem sempre é a melhor solução. As pessoas que optam pelo suicídio não são covardes. Não fizeram isso para provar algo para você. Tentar descobrir “porque fulano se matou” é uma tremenda burrice. Motivos não importam. O que importa é o ato. Se a pessoa teve a coragem absurda que um ato deste necessita, é porque ela estava sofrendo tanto que não conseguiu ver outra saída. As vezes, mesmo tendo tentado por anos. Mesmo tendo se tratado, mesmo tendo tido apoio e ajuda. As vezes a pessoa simplesmente não consegue lidar com ela mesma. E ela precisa ser respeitada nisso. A dor dos suicidas precisa ser respeitada. Nós, vivos, não temos o direito de falar por eles. De julgá-los. De tentar entender a dor deles. A gente não entende. Nunca vamos entender. Exceto se um dia decidamos fazer o mesmo. E toda a luta pela saúde mental não pode ser pautada em um “medo de se tornar suicida” ou de “ser próximo a um suicida”. Porque cometer suicídio não é causa, é a única solução que parece existir para aqueles que o fazem. O que precisamos é tentar continuar acreditando que existem outras soluções e cada um tem seu tempo para que esta ilusão acabe. A vida de todos nós perde o sentido as vezes e a forma como isso nos afeta é imprevisível. Se é imprevisível para nós, quem somos nós para tentar prever como os outros lidam com isso?

O Setembro Amarelo não deveria ser para estimular que pessoas despreparadas tratem de um assunto tão sério. Ele deveria ser para que as pessoas que já têm liberdade com suas próprias dores se sintam à vontade de falar sobre elas. Alto o suficiente para que a sociedade passe a entender que estamos aqui, seguimos vivendo e precisamos de atenção dos órgãos de saúde do país, mais do que de pessoas curiosas com “como um depressivo se sente”.

AVON, doze anos depois.

Quando eu tinha 11 anos, mãe e eu resolvemos que venderíamos AVON. A ideia era baseada no fato de que eu gostava muito de vender coisas e parecia prático. Na época, além de AVON eu fabricava e vendia minhas próprias bijuterias. E não eram coisas “mal feitas”, “de criança”. Eu fiz três níveis de curso e sabia fabricar as mais diversas formas de bijoux. Tinha clientes fixas, tanto para elas, quanto para a AVON. Na época, aprendi bastante sobre maquiagem e perfumaria, o que era muito divertido para mim. Não lembro o que motivou o término dessas produções e vendas, mas culpo o fato de eu ter mudado para uma escola mais difícil, que demandava mais tempo de estudo. A farra das vendas durou, provavelmente, pouco mais de um ano. Mas foi muito importante para eu aprender sobre lucros, organização, investimentos, planilhas e afins. Era algo que me fazia bem.

Há algumas semanas eu decidi que iria voltar a vender AVON. A ideia veio espontaneamente. Vendo os cortes do governo, comecei a ficar com medo de ter minha bolsa cortada. Como minha atual meta é ser doutora, não posso assumir compromisso de um emprego com horário fixo e, como sou bolsista, não posso ter carteira assinada. Assim, a AVON surgiu como boa forma de atender às minhas necessidades, trazendo uma coisa que me fazia falta: a leveza e a diversão.

Ocorre que, apesar de eu ser extremamente privilegiada e estar em duas pós-graduações públicas, recebendo bolsa do governo federal – algo que não é comum em nenhum outro país do mundo, o valor recebido não é suficiente para arcar com contas e, principalmente, com as demandas do próprio universo acadêmico. Neste ano, por exemplo, fui aprovada para participar em dois grandes eventos internacionais, muito importantes para a minha carreira. Porém, a inscrição de um deles custou quase R$300 e do outro R$500. Isso sem contar que não são eventos na minha cidade, então preciso arcar com transporte, estadia, comida e afins. Para piorar, grande parte dos valores não são parcelados. Ou seja: apesar de todo o suposto investimento que o governo federal faz em mim, ele não é baseado em fatos reais e, de modo algum, suficiente para que um estudante consiga arcar com custos de pesquisa e de vida pessoal. Se as agências de fomento querem exigir dedicação exclusiva dos pesquisadores, precisam proporcionar um ressarcimento monetário à altura. Como isso não ocorre, o que temos são cientistas movidos pela paixão por suas próprias pesquisas e carreiras, mas que precisam se virar nos trinta pra conseguir orçamento para sobreviver.

(in)Felizmente, não nasci e fui criada para ter uma profissão fácil e fixa, que me proporcione estabilidade financeira e uma rotina pré-determinada. Eu tenho o anseio de ser cientista, de pesquisar coisas que transformem a nossa forma de ver o mundo e que impulsionem a humanidade para fazeres melhores do que os atuais. E isso não é fácil, tanto pela estrutura governamental, quanto pela falta de apoio dos civis e pela pressão das agências de fomento, mesmo quando o fomento delas não é assim tão bom. Estamos em uma fase em que é melhor aceitar e agradecer o pouco fomento que temos do que tentar pedir por mais. Visto que até este pouco está ameaçado.

Em um mundo que valorizasse a ciência, eu obviamente não precisaria pensar em outras formas de conseguir dinheiro. Eu poderia me inscrever para todos os congressos que quisesse e realmente me dedicar exclusivamente às minhas pesquisas. Eu poderia conciliar as minhas pesquisas com a minha vida pessoal de forma equilibrada. Conseguiria manter minha sanidade mental sem precisar recorrer a diversos tipos de auxílios diferentes. Teria paz de espírito ao dormir de noite, pensando: “hoje consegui adiantar minha pesquisa, oba!”. No mundo real, preciso me justificar para família, amigos e conhecidos, pelo fato de ter 23 anos e não ter carteira assinada. Pelo fato de acreditar na ciência independente de financiamento privado e por acreditar que “cientista” é uma profissão tão fantástica quanto qualquer outra. Preciso passar por julgamentos e reafirmações constantes, visto que é mais valorizado eu dizer que vendo AVON do que dizer que faço dois mestrados. E, preciso começar a pensar em outras formas de ganhar dinheiro, porque fazer dois mestrados não é suficiente para isso. Porque ter um currículo Lattes muito melhor do que a maior parte das pessoas da minha idade, não me garante um futuro estável financeiramente. Porque, por eu não querer seguir os padrões tradicionais brasileiros, que veem “estabilidade” como sinônimo de concurso público, preciso, desde cedo, começar a me acostumar com os perrengues de ter uma vida independente, supostamente empreendedora e totalmente iludida com a crença de que posso fazer algo pelo mundo em que vivo.

É aí que a AVON surge como diversão e possibilidade de relaxamento, frente aos milhares de estresses que a vida acadêmica me provoca. Enquanto apresento maquiagens, perfumes, cremes e produtos capilares, dou vasão para aquela parte de mim que é suprimida enquanto ajo como cientista. Posso falar sobre coisas consideradas “banais” para o mundo acadêmico e, mesmo que por razões monetárias, consigo criar tempo para manter laços sociais, até então enfraquecidos. Então, vender AVON não é uma coisa “ruim”, de alguém que está “desistindo do que acredita”, pelo contrário. É uma forma alternativa de conseguir me mantendo no meu foco de vida. Porque com isso, consigo conciliar minha vida de cientista e uma nova forma de adquirir dinheiro e relações. Ambas as coisas que, atualmente, a vida acadêmica e de cientista tem dificuldade em proporcionar.

Para além das razões pessoais, a AVON me atrai pela história da empresa. Surgida em uma época onde a divisão de gênero da sociedade era muito forte e estabelecia que o homem era o provedor da casa, que trabalhava fora, enquanto a mulher deveria ser mãe e cuidadora, a marca foi um dos pontapés iniciais para o êxodo doméstico das mulheres, inicialmente nos Estados Unidos. As mulheres passavam a se reunir para vender e comprar produtos cosméticos, podendo aproveitar o tempo em que seus filhos estavam na escola e podendo, pela primeira vez, ter seu próprio dinheiro, que poderia ser gasto com aquilo que elas quisessem. Mesmo sem a consciência de conceitos como “feminismo” ou “empoderamento”, a marca foi essencial para iniciar essa transformação empírica na vida das mulheres, que atualmente são, em grande maioria, no Brasil, as principais provedoras da casa.

Além disso, a marca foi uma das primeiras a extinguir os testes em animais, tendo-os substituído pelos testes in vitro e em voluntários humanos desde 1989. Nos produtos fabricados e vendidos no Brasil atualmente, portanto, não há a utilização de animais. Entretanto, a AVON permanece em todas as listas que falam sobre as marcas que testam em animais. A razão foi a expansão da marca para o mercado chinês, que exige que todos os produtos cosméticos vendidos no país passem por testes em animais. Dessa forma, todas as marcas que vendem na China precisam realizar estes testes. Entretanto, grande parte delas afirma que os testes são realizados apenas pela obrigatoriedade legal e que afetam menos de 1% do total de sua produção. É claro que a marca poderia ter escolhido não pertencer ao mercado chinês, mas considerando que estamos em um mundo capitalista e que a marca é estados-unidense e, com isso, intrinsecamente imperialista, seria bastante inocente acreditar que a consciência ambiental pesaria mais do que o aumento de capital. Acredito, porém, que isso não é uma culpa que deva contar negativamente para a marca, mas sim para o sistema em que vivemos – que afeta muitas outras marcas e, com isso, prejudica diversos animais inocentes.

Apesar destes testes, entendidos como “obrigatórios”, a empresa possui grande responsabilidade social. O Instituto AVON atua contra o câncer de mama, destinando parte da renda da empresa para a causa, que também proporciona diversas campanhas conscientizadoras, disseminadas nos catálogos da empresa. A questão ambiental também aparece nos papéis utilizados, que passam por um processo de reciclagem. É claro que há muito a melhorar, visto que a área de cosméticos é ainda uma das maiores produtoras de poluentes. Entretanto, saber que a empresa se importa minimamente com isso já é um bom passo.

Outro fator positivo é o fato de a marca, mesmo sendo internacional, realizar campanhas exclusivas com celebridades brasileiras, inclusive aquelas que estão em crescimento de popularidade. A marca visa atingir a maior quantidade possível de mulheres, sendo esse o seu público alvo principal. Mas há também uma crescente linha de produtos de beleza masculinos. Além dos cosméticos, a AVON oferece produtos para casa, além de acessórios, roupas e calçados, de marcas reconhecidas – como Havaianas, Moleca e Olimpikus. As compras realizadas no catálogo seguem os direitos do consumidor brasileiro, podendo ser trocadas e retornadas. Além disso, todos os produtos são validados pela ANVISA e possuem data de validade, fabricação e lote incluídos em todas as suas embalagens. Além de tudo isso, a marca consegue manter preços mais baixos do que o de suas concorrentes, com qualidade paralela a elas. A parceria com a marca grega Korres têm trazido produtos de qualidade internacional, com preços em real. O mesmo tem ocorrido com os investimentos na renovação da linha de perfumaria.

Ou seja: estar de volta à AVON é benéfico para a minha vida pessoal por N razões. Além do fator monetário, a empresa me desperta coisas positivas e o anseio de fazer algo para além do universo extremamente racional e estressante da academia, me é relaxante.

Animal Kingdom (2016) | Série

Animal Kingdom, poster da série

Quem faz a série?

         Jonathan Lisco é o criador da série, que tem como base o filme australiano homônimo, lançado em 2010. David Michôd e  Liz Watts, que produziram o filme, também compõem a equipe da série. Lançada em junho de 2016, pelo canal TNT, a primeira temporada teve dez episódios, com uma média de 50 minutos de duração cada um.

        O elenco principal é composto por Ellen Barkin (Smurf), Scott Speedman (Baz), Shawn Hatosy (Pope), Ben Robson (Craig), Jake Weary (Deran), Finn Cole (J), Daniella Alonso (Catherine) e Molly Gordon (Nicky). 

Animal Kingdom - pôster da série
Animal Kingdom – pôster da série

Sobre o que se trata?

      O enredo principal gira em torno de J, que é o protagonista da temporada. Logo no episódio piloto, vemos que a mãe dele faleceu de overdose e ele foi levado a morar com sua avó, Smurf. Por sua vez, Smurf lidera uma organização criminosa, semelhante a uma máfia familiar, tendo seus quatro filhos como funcionários. Todos eles têm suas próprias casas, mas passam a maior parte do tempo na casa da mãe, que desenvolve uma relação de chefe e mãe ao mesmo tempo, colocando em questão vários estigmas da maternidade compulsória.

       J cai de paraquedas nesta casa que se sustenta a partir de ilegalidades e tudo que ele sabe é que sua mãe não gostava da forma como a família vivia. Ele e a namorada, Nicky, acabam no meio de confusões e precisam se decidir entre qual moralidade seguir e qual a melhor conduta para determinadas situações. Catherine, esposa de Baz, também é fundamental, trazendo para a série discussões sobre o passado da família de Smurf e sua consolidação no lado “obscuro” da sociedade.

O que eu achei dela?

      A série é bastante direta, o que é um ponto positivo. Para quem gostou de Skins (2007-2013) e True Blood (2008-2014), tendo interesse por ilegalidades, drogas, sexo e demais ações desafiadoras do status quo da sociedade, com bastante drama familiar e criminalidade, Animal Kingdom é a melhor pedida possível!

      A série consegue ser intrigante, surpreendente e manter o espectador curioso para o que há por vir. Os personagens não são explorados o suficiente para criar uma identificação com quem está assistindo, mas ainda assim é possível torcer por alguns deles. Smurf é absurdamente sensacional, quebrando todos os estigmas e paradigmas de uma mulher de meia idade e mãe de quatro filhos. A série é importante por mostrar todo o desvio passível de ocorrer na sociedade atual, apresentando novos paradigmas. A temática é bem abordada, a produção é bem realizada e o espectador fica com vontade de acompanhar a próxima temporada. Ponto para os produtores!

A Arte de Pedir – Amanda Palmer | Resenha

Quem escreveu o livro?

      Amanda Palmer é uma artista estados-unidense, que foi estátua viva por muito tempo, mas também pianista e vocalista da banda The Dresden Dolls e cantora em sua própria banda. A Arte de Pedir foi seu primeiro, e até agora único, livro, mas a autora escreve no próprio blog. Além disso, ela é bastante ativa no twitter. Tornou-se famosa por ter sido a primeira musicista a atingir 1 milhão de dólares através do financiamento coletivo crowdfounding e atualmente mantem-se através de doações no patreon

O que é interessante saber antes de ler?

  1. O livro é uma auto-biografia, que foca bastante nas questões de vulnerabilidade e síndrome do impostor, podendo ser considerado auto-ajuda, dependendo de quem lê.
  2. A narrativa surgiu a partir do discurso de Amanda ao TED Talk – que eu recomendo a todos.
  3. O prefácio do livro foi escrito por Brene Brown, que também fez um TED Talk, que eu também recomendo.
  4. No meio do livro, você descobre como Amanda Palmer conheceu e se apaixonou por Neil Gaiman e quase explode com a fofura dos dois. Isso significa que: se você tem vergonha de demonstrar emoções em público, prefira ler esse livro em lugares privativos. 
Amanda Palmer
Amanda Palmer

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

    A Arte de Pedir conta a história da vida de Amanda Palmer. O livro é dividido em alguns capítulos, todos eles iniciados por uma de suas músicas. As letras combinam com o texto que está por vir. O livro mescla a história pessoal com a carreira da cantora, fazendo com que o público sinta toda a intensidade dela.

      Amanda tem uma filosofia de vida de que quando você dá amor ao outro, não precisa dar mais nada e as coisas boas simplesmente voltam a você. O livro aborda muito a questão da vulnerabilidade, explorando situações onde para ela é muito fácil pedir e demonstrar sentimentos e outras, onde as coisas são um tanto complicadas.

      Por ser uma artista e muito intensa, Amanda acaba sendo incompreendida por muita gente e o livro percorre o período de críticas à sua carreira, atitudes e decisões e mostra que tudo que ela faz e pensa é sempre moldado a partir da forma como ela espera que os outros a vejam. Apenas após o relacionamento com Neil Gaiman isso começa a mudar. 

       A carreira dela é consolidada pela relação com os fãs, então eles têm um enorme espaço no livro. Assim como seu melhor amigo, Anthony. Há espaço para algumas histórias de família, ex-namorados e Amanda não tem vergonha de revelar coisas realmente íntimas dela e de seus relacionamentos na narrativa, o que chega a ser um tanto surpreendente. 

    A partir da história dela e das possíveis identificações para com as nossas, o livro se torna absolutamente necessário. Considerando que a sociedade está cada vez mais egoísta e egocêntrica, alguém que nos mostra que está tudo bem ser vulnerável e que todas as pessoas precisam de ajuda, as vezes elas só não sabem ou não se sentem confortáveis para pedir, merece um troféu só por espalhar a mensagem. 

a arte de pedir trecho 1

          A Arte de Pedir tem 304 páginas, foi publicado no Brasil pela Editora Intrínseca e você pode adquirir clicando aqui, para ajudar o Ancoragem.

E o que você achou do livro?

      É um livro bastante difícil de falar sobre. Difícil de assimilar. Comecei a leitura em fevereiro, quando estava no hospital, após a maior cirurgia que já fiz. Tive que dar um tempo, porque achei ter aprendido o suficiente para o momento – a me deixar ser ajudada. Tenho essa coisa de achar que posso fazer tudo sozinha e dificilmente crio coragem para pedir ajuda, não gosto de mostrar que não sei ou não posso. Mas, quando você precisa passar por quatro meses andando com muletas e precisando de ajuda até para tomar banho, essas coisas acabam melhorando um pouco. 

      Voltei ao livro na semana passada e terminei-o rapidamente. Parece que da metade para o final, tudo que você consegue fazer é mergulhar no universo narrativo. A intensidade da Amanda é invejável, tanto na forma como ela vive a vida dela, quanto na forma que ela escreve. Cada linha e parágrafo que eu terminava, era uma linha e parágrafo para memorizar e guardar no coração. E, se tem uma coisa que ficou quentinha com o final do livro, foi ele.

A Arte de Pedir - Trecho do livro
A Arte de Pedir – Trecho do livro

       Eu me senti abraçada pela história da Amanda Palmer, senti como se fôssemos melhores amigas e como se finalmente eu tivesse provas de que não sou a única maluca da face da Terra. Mesmo porque, a Amanda consegue ser mais maluca que eu em alguns aspectos. Eu fiquei feliz após ler o livro, mesmo com os olhos cheios de lágrimas. E isso é incrível e sensacional. É como se Amanda provasse que não é sensível e artística apenas nas músicas e pinturas que se propõe a fazer, ela é intensa em tudo. E isso é esplêndido.

      É claro que após a leitura eu fucei o site dela, ouvi várias das músicas e fiquei bastante feliz em ver como a vida dela está atualmente. O sentimento apaziguador segue comigo, não sei até quando ele vai ficar. E já não sei se gostei tanto do livro ou da pessoa que o escreveu, porque cada dia que passa penso mais que: os dois são a mesma coisa. E, bom, não creio que algo possa ser mais emblemático do que essa simbiose.

VMA 2016 – A Consagração de Beyoncé

      VMA é a sigla de Video Music Awards, evento anual realizado pela emissora de televisão estados-unidense MTV. O intuito da premiação é celebrar, principalmente, a música pop dos EUA. O palco do evento é alvo de performances incríveis ano após ano, que insistem em se reinventar. Os artistas, cada vez melhores, encantam o público e o evento acaba se tornando mais popular pelas apresentações do que pelos prêmios propriamente ditos.

      Isso não significa que os prêmios são menos importantes, pelo contrário. Ganhar troféus no VMA traz bastante prestígio para os artistas. Madonna, considerada a rainha do  pop, havia ganhado a maior quantidade de prêmios, totalizando vinte estatuetas. A cantora ainda é mundialmente conhecida, mesmo tendo 58 anos de idade, segue encantando gerações com sua música e capacidade performática. Ela revolucionou a indústria musical de sua época e inaugurou o pop da forma como conhecemos hoje. 

     Porém, os anos 2000 trouxeram uma nova rainha para o gênero musical. De 1998 a 2001 estimava-se que quem viria a ocupar o mesmo espaço que Madonna, no futuro, seria Britney Spears, que foi, então, apelidada como princesa do pop. No entanto, a cantora acabou passando por momentos turbulentos em sua vida pessoal, que a fizeram se afastar da música por um longo período. Entre vais e vems, Britney Spears acabou perdendo a capacidade de se reinventar, ou simplesmente o “andar da carruagem”, como diria o dito popular.

       Em 2016 ela lançou seu nono álbum, chamado Glory. As músicas e os videoclipes, assim como as apresentações ao vivo, seguem o mesmo padrão das que ela apresentava no auge de sua carreira, quando tinha cerca de dezessete anos. Para o público é maravilhoso ver que a Britney está de volta na indústria da música, que está se sentindo bem e segura de si e disposta a retomar a carreira, no entanto, acostumados com grandes performances, à lá Lady Gaga, Katy Perry, Rihanna e Beyoncé, o público acaba achando um tanto estranho ver que Britney ainda se arrasta no chão semi-nua, exatamente como no clipe de Toxic. Nosso coração segue junto com ela, torcendo para que ela fique bem e continue produzindo músicas dançantes, mas já não é possível compará-la com as outras grandes artistas do pop atual. Infelizmente.

       Quem não cansa de se sobressair, é Beyoncé. Essa sim, chegando ao nível de Madonna. Em 2016, Beyoncé lançou seu primeiro vídeo-álbum, chamado Lemonade. Intenso, magistral e muito bem performado, o vídeo conta a história da traição sofrida por Beyoncé, por parte de seu marido, também músico, Jay-Z. O ditado popular diz para que a gente faça uma limonada dos limões que a vida nos dá, Beyoncé foi lá e fez.

        Ela transformou um momento pessoal possivelmente tenebroso, tortuoso e depressivo em uma obra de arte fenomenal, reinventando o gênero pop e tirando aquela imagem de que música pop é fútil. Beyoncé fez um álbum sobre empoderamento feminino. Depois de já ter emplacado músicas incríveis sobre o assunto, como Flawless, e de ter iniciado sua apresentação no VMA de 2014 recitando um discurso da Chimamanda Ngozi Adichie, sobre como todos deveríamos ser feministas, ela foi lá e mostrou para o mundo inteiro que é possível sentir um baque na vida pessoal e transformar em arte.

       As performances de Lemonade não são incríveis apenas no vídeo álbum oficial, Beyoncé não tem decepcionado nas apresentações ao vivo que faz com as músicas do álbum. Uma prova disso foi sua apresentação de 15 minutos no VMA, que ocorreu ontem. De forma excepcionalmente densa, tanto na coreografia, quanto na qualidade vocal e de performance, Beyoncé mostrou para o mundo que uma traição não necessariamente derruba você. Ela mostrou, principalmente, para o Jay-Z, que ele não tem poder para parar ou acabar com ela, pelo contrário. Ela transformou um momento tenebroso na vida dela em arte libertadora. E ela foi lindamente recompensada por isso, ultrapassando Madonna na quantidade de estatuetas que levou para casa. Agora, Beyoncé já tem 24. 

          Toda vez que vejo alguma performance relacionada a Lemonade, imagino como é que ela se sente. Como é ver o mundo inteiro cantando e ovacionando um álbum que provavelmente foi o mais difícil da carreira dela. Como é ver que todo mundo sabe que ela é a rainha da música pop e que ninguém consegue entender como é que Jay-Z pôde traí-la. Eu queria saber como é para ela reviver cada uma daquelas músicas, embebidas com os sentimentos angustiantes, de revolta e de nascente paz. Queria saber como é que ela consegue cantar tudo aquilo e depois voltar para casa com o marido e levar a vida normalmente. 

           Por outro lado, queria saber como é para o Jay-Z ver que ter traído a esposa não virou apenas manchete em revista de fofoca, não se voltou favorável a ele, mas, pelo contrário, alavancou a carreira dela e gerou o álbum mais bonito já feito. Queria saber como ele se sente, vendo tudo que ela pensou e sentiu por ele, estampado naquelas músicas que agora todo mundo sabe cantar. Como é para ele, dormir com ela depois de uma performance em que é nítido que todo mundo está bravo por ele tê-la traído e, ao mesmo tempo, feliz, pelo fruto que gerou? 

          E a Blue Ivy? Como será que ela processará tudo isso quando for um pouco maior? “Meu pai traiu a minha mãe e ao invés de ela se separar, fez um álbum fenomenal, revolucionou a indústria da música, inspirou milhões de mulheres pelo mundo e mostrou que não necessariamente elas precisam ser oprimidas, e continuou com o meu pai, depois de colocá-lo no devido lugar“? Sério, essa família pós Lemonade deve estar passando por momentos bizarros, tendo que se redescobrir o tempo todo e com os sentimentos postos à prova direto.

          Beyoncé mais uma vez arrasou em uma premiação. Saiu não apenas com estatuetas, mas com a melhor performance da noite e com milhões de fãs no mundo inteiro se sentindo representados. Ela foi lá e fez uma limonada com todos os limões que as mulheres tiveram que engolir. Ela esfregou na cara da sociedade norte-americana o racismo que ela sofreu, mostrou que uma negra pode sim chegar no topo do mundo, pode sim reverter o padrão de opressão estabelecido, pode sim reinar sozinha. Beyoncé honra o termo que ela criou, quando diz “I slay“, porque, sim, colega. Sim. Quando você fala, quando você reina, quando você brilha, a gente só sabe ficar parado e aplaudir. Muito obrigada.

Beyoncé no VMA, acompanhada por mães de jovens negros que foram brutalizados pela polícia dos EUA.
Beyoncé no VMA, acompanhada por mães de jovens negros que foram brutalizados pela polícia dos EUA.