Sabe-se que tenho origens católicas muito bem estabelecidas. Recordo-me de participar de missas desde que me entendo por gente e de saber orações de agradecimento e de pedido e de perdão a Deus. Nunca parei para pensar, porém nos motivos que me levaram a crer em Deus, tendo em vista que nasci já dentro desse meio.

Fui batizada com um mês de vida. Aos seis anos mudei-me para Cachoeira Paulista, uma cidade com 22 mil habitantes (pelo menos na época) no Vale do Paraíba (interior de SP). Tal cidade era movida por uma comunidade católica, denominada “Canção Nova” e minha família teve papel importante no desenvolvimento de tal comunidade, sendo minha madrinha parte dela. Eu estudava na escola da comunidade e participava de tudo fervorosamente, tanto das missas, orações, grupos de estudos bíblicos da escola e meu momento preferido da semana era a aula de catequese. Isso sem contar a televisão da comunidade, em que eu trabalhava. Fazia parte do programa infantil e gravava praticamente todos os dias, rezava os terços que apareciam na televisão e até fiz uma novela que contava a história dos três pastorinhos. Eu amava muito tudo aquilo. Era a minha vida.

As missas de domingo eram minhas preferidas! Eu fazia sempre alguma leitura e participava do coral que cantava, isso sem contar os teatrinhos que aconteciam na homilia e o jeito maravilhoso que o padre tinha de contar as histórias, fazendo com que todos mantivessem-se completamente interessados. Eu rezava um rosário por dia, fazia estudo bíblico e rezava quase tanto quanto a minha avó. Tanto que quando ninguém queria ir à missa com ela, eu ia, de livre e espontânea vontade. Gostava daquilo. Mesmo.

Então eu me mudei para Curitiba e as pessoas daqui não se importavam muito com religião, muitas delas me achavam estranha por gostar tanto dessas coisas católicas e eu continuava frequentando as missas e os grupos de oração, frequentava os retiros e não deixava de decorar novas músicas ou de ouvir minhas bandas católicas preferidas, ia a shows católicos e tentava ao máximo não me importar com o que os outros pensavam, mas chegou um momento em que eu simplesmente não consegui mais.

Passei a ter vergonha das minhas crenças. A ponto de jamais revelar a alguém que as tive algum dia. Atualmente convivo com várias pessoas que desconhecem minhas habilidades religiosas, pessoas que não sabem que basta eu rezar que as dores de cabeça da minha mãe passam e que eu consigo conversar com Deus em diversos momentos e realmente sentir que ele me escuta. Convivo com pessoas que acham que eu não tenho crença alguma e que abomino quem crê em algo, mas isso não é verdade, apenas cansei de ser rechaçada pelas minhas crenças e decidi mantê-las somente para mim.

Com o passar do tempo, porém, as coisas mudaram um pouco. Eu aprendi a história da Idade Média e achei um completo absurdo todas as coisas que a Igreja fez, comecei a estudar sobre a instituição e descobri que discordo de várias coisas. Senti-me profundamente enganada pela Igreja em diversos momentos e fiquei até com raiva por ter acreditado em tanta coisa por tanto tempo. Comecei a perceber que não acreditava mais em grande parte do que era pregado ali. Continuava frequentando as missas, mas já não tinha vontade de rezar. Algum tempo depois eu comecei a conseguir dormir sem rezar e desde então só rezo nos dias em que almoço com a minha família.

Não é que eu não acredite em Deus. Eu acredito Nele. Acredito piamente que ele existe e cuida de nós. Acredito que ele é onisciente e sabe exatamente tudo que faremos, por isso todas as coisas que fazemos nos levam a resultados positivos. Deus não permitiria que algo muito ruim acontecesse conosco. Mas não consigo acreditar em Jesus ou nas coisas que a Igreja prega. Eles são hipócritas e incoerentes demais, isso sem contar que a instituição não age de acordo com praticamente nada do que foi pregado na bíblia e isso me irrita profundamente. A Igreja acha que ainda manda no mundo, fica tentando interferir em decisões que não dizem respeito a ela, acha que todos são errados por não seguirem sua doutrina e eu simplesmente não considero isso correto. Já não acredito mais em Céu e Inferno. Acredito que somos feitos de microorganismos e assim que nosso coração deixa de bater e nosso pulmão e cérebro param de funcionar nós simplesmente nos decompomos e voltamos a ser pó. Acredito que sejamos ótimos adubos e só isso. Não consigo acreditar que depois que morrermos teremos uma outra vida, se isso fosse verdade, qual seria o sentido da vida que temos agora?

Então eu fui nesse tal acampamento no final de semana e consegui colocar minha cabeça no lugar no que diz respeito à religião.

Sinto falta da época em que minha vida girava em torno dela e que meu livro favorito era a bíblia (a qual já foi lida por mim mais de duas vezes,enquanto crianças normais liam Harry Potter) e que minhas histórias favoritas eram as dos santos. Sinto falta da época em que eu rezava e isso me completava, me era suficiente e eu não precisava mais de nada, mas agora não consigo mais me ver dessa maneira.

Continuo acreditando em Deus, mas acho que rezei em 10 anos o suficiente para pelo menos 30 e que manter-me um pouco afastada dele não fará com que ele se esqueça da minha existência, nem com que eu me esqueça da dele. Então continuaremos assim, amigos distantes que não se comunicam com frequência, mas mantém o mesmo apreço um pelo outro. Talvez algum dia eu volte a crer em alguma religião, volte a ser assídua e volte a ser uma menina realmente de Deus, talvez, quem sabe. Não posso dizer nada em relação ao futuro.

Só queria dizer que uma das coisas que mais me frustrou em relação à tal religião foi o fato de ela não reger a vida das pessoas como regia a minha. Eu tinha onze anos e sabia mais biografias de santos, passagens bíblicas, dogmas, milagres e orações do que vários adultos com os quais convivia e isso me entristecia muito. Entrei na catequese de crisma com 15 anos e me falaram que eu não precisava ir nas aulas, porque já sabia tudo. Deveria ficar em casa e comparecer somente na cerimônia. Isso me machucou, porque doía saber que mesmo eu sabendo tão pouco à respeito da minha religião, sabia mais do que a maioria das outras pessoas. Afastei-me dessa vida porque ao invés de me passar bons momentos e leveza espiritual, me deixava cada vez um pouco mais triste.

Eu era acostumada com missas que duravam três horas, em que os padres exploravam os mínimos detalhes dos evangelhos e leituras e cada uma das coisas acontecidas ali era realmente transformadora. Missas em que as músicas mexiam com a gente, tanto que sei todas as músicas até hoje e cada uma significa algo muito importante para mim. Então eu vim para cá e as Igrejas eram frequentadas somente por pessoas maiores de 50 anos que ficavam discutindo para ver quem leria ou cantaria, sendo que ninguém sabia ler ou cantar direito, isso sem contar os padres que eram velhinhos e nem sabiam o que estavam falando, então acabavam por falar grandes bobeiras. Tive que ouvir várias homilias preconceituosas, dizendo aos cristãos para manterem-se longe dos homossexuais, por exemplo e eu acho isso um completo absurdo. Não acho que seja o que uma Igreja deva passar para a população. Não acho que se Jesus existisse diria algo semelhante a isso. Não consigo ouvir essas coisas e ficar calada, então eu brigo com a minha mãe todas as vezes que voltamos da Igreja, porque todas as vezes ouço atrocidades que me transtornam profundamente e eu não acho certo brigar com ela, porque ela acredita em tudo que falam ali e eu não gosto de estragar crenças alheias!

Então é isso. Eu acredito em Deus, independente de qualquer religião. Quanto à bíblia, creio ser um livro de histórias muito bem escrito, mas não real. Acho que a bíblia faz parte do Mundo Ideal de Platão, é um conjunto de textos perfeitos e maravilhosos, mas que dificilmente teriam acontecido no mundo real. As pessoas não são tão boas quanto aquele livro conta, a expectativa de vida não era tão alta e é humanamente impossível que tais histórias sejam realidade em um mundo em que não existe mágica. Eu acredito em milagres, mas em milagres como um paralítico voltar a andar, não em pão caindo do céu como se fosse chuva. Então acho que se aquelas histórias forem compreendidas metaforicamente não há problema, mas acreditar que as coisas realmente aconteceram daquela maneira é algo que eu não consigo mais engolir.

Se hoje eu pareço uma pessoa descrente é porque tenho os meus motivos, que não são poucos. No entanto, procuro respeitar as crenças alheias, desde que respeitem as minhas e para mim Deus é amor, todo o amor do mundo, e sentir a presença dele é amar, porque é ele o responsável pelo friozinho na barriga que sentimos as vezes. Ele está presente em todos os nossos momentos, mesmo os ruins, é graças a Ele que nos reerguemos e seguimos em frente. E se você acha que é fraqueza, burrice ou covardia crer em algo superior, eu lhe digo que não. Acho burrice crer que o ser humano é o melhor animal existente e está superior a todos os outros e que é graças a ele que o mundo é mundo. Deus está aqui para nos fazer perceber que os humanos são apenas grãos de areia numa praia, para nos colocar em nossos devidos lugares e nos fazer ter consciência de que devemos melhorar nosso círculo de convivência e o mundo em que vivemos, porque não somos melhores que nenhuma espécie de árvore ou de animal, todos somos essenciais para a manutenção da vida do planeta. Deus está aqui para aflorar nossa consciência de sociedade. Para nos impulsionar a ser melhores do que acreditamos ser possível.

Se ele for apenas mais uma invenção humana, não importa. É graças a essa invenção que eu possuo uma consciência decente de mundo e para mim isso é suficiente.

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