AVON, doze anos depois.

Quando eu tinha 11 anos, mãe e eu resolvemos que venderíamos AVON. A ideia era baseada no fato de que eu gostava muito de vender coisas e parecia prático. Na época, além de AVON eu fabricava e vendia minhas próprias bijuterias. E não eram coisas “mal feitas”, “de criança”. Eu fiz três níveis de curso e sabia fabricar as mais diversas formas de bijoux. Tinha clientes fixas, tanto para elas, quanto para a AVON. Na época, aprendi bastante sobre maquiagem e perfumaria, o que era muito divertido para mim. Não lembro o que motivou o término dessas produções e vendas, mas culpo o fato de eu ter mudado para uma escola mais difícil, que demandava mais tempo de estudo. A farra das vendas durou, provavelmente, pouco mais de um ano. Mas foi muito importante para eu aprender sobre lucros, organização, investimentos, planilhas e afins. Era algo que me fazia bem.

Há algumas semanas eu decidi que iria voltar a vender AVON. A ideia veio espontaneamente. Vendo os cortes do governo, comecei a ficar com medo de ter minha bolsa cortada. Como minha atual meta é ser doutora, não posso assumir compromisso de um emprego com horário fixo e, como sou bolsista, não posso ter carteira assinada. Assim, a AVON surgiu como boa forma de atender às minhas necessidades, trazendo uma coisa que me fazia falta: a leveza e a diversão.

Ocorre que, apesar de eu ser extremamente privilegiada e estar em duas pós-graduações públicas, recebendo bolsa do governo federal – algo que não é comum em nenhum outro país do mundo, o valor recebido não é suficiente para arcar com contas e, principalmente, com as demandas do próprio universo acadêmico. Neste ano, por exemplo, fui aprovada para participar em dois grandes eventos internacionais, muito importantes para a minha carreira. Porém, a inscrição de um deles custou quase R$300 e do outro R$500. Isso sem contar que não são eventos na minha cidade, então preciso arcar com transporte, estadia, comida e afins. Para piorar, grande parte dos valores não são parcelados. Ou seja: apesar de todo o suposto investimento que o governo federal faz em mim, ele não é baseado em fatos reais e, de modo algum, suficiente para que um estudante consiga arcar com custos de pesquisa e de vida pessoal. Se as agências de fomento querem exigir dedicação exclusiva dos pesquisadores, precisam proporcionar um ressarcimento monetário à altura. Como isso não ocorre, o que temos são cientistas movidos pela paixão por suas próprias pesquisas e carreiras, mas que precisam se virar nos trinta pra conseguir orçamento para sobreviver.

(in)Felizmente, não nasci e fui criada para ter uma profissão fácil e fixa, que me proporcione estabilidade financeira e uma rotina pré-determinada. Eu tenho o anseio de ser cientista, de pesquisar coisas que transformem a nossa forma de ver o mundo e que impulsionem a humanidade para fazeres melhores do que os atuais. E isso não é fácil, tanto pela estrutura governamental, quanto pela falta de apoio dos civis e pela pressão das agências de fomento, mesmo quando o fomento delas não é assim tão bom. Estamos em uma fase em que é melhor aceitar e agradecer o pouco fomento que temos do que tentar pedir por mais. Visto que até este pouco está ameaçado.

Em um mundo que valorizasse a ciência, eu obviamente não precisaria pensar em outras formas de conseguir dinheiro. Eu poderia me inscrever para todos os congressos que quisesse e realmente me dedicar exclusivamente às minhas pesquisas. Eu poderia conciliar as minhas pesquisas com a minha vida pessoal de forma equilibrada. Conseguiria manter minha sanidade mental sem precisar recorrer a diversos tipos de auxílios diferentes. Teria paz de espírito ao dormir de noite, pensando: “hoje consegui adiantar minha pesquisa, oba!”. No mundo real, preciso me justificar para família, amigos e conhecidos, pelo fato de ter 23 anos e não ter carteira assinada. Pelo fato de acreditar na ciência independente de financiamento privado e por acreditar que “cientista” é uma profissão tão fantástica quanto qualquer outra. Preciso passar por julgamentos e reafirmações constantes, visto que é mais valorizado eu dizer que vendo AVON do que dizer que faço dois mestrados. E, preciso começar a pensar em outras formas de ganhar dinheiro, porque fazer dois mestrados não é suficiente para isso. Porque ter um currículo Lattes muito melhor do que a maior parte das pessoas da minha idade, não me garante um futuro estável financeiramente. Porque, por eu não querer seguir os padrões tradicionais brasileiros, que veem “estabilidade” como sinônimo de concurso público, preciso, desde cedo, começar a me acostumar com os perrengues de ter uma vida independente, supostamente empreendedora e totalmente iludida com a crença de que posso fazer algo pelo mundo em que vivo.

É aí que a AVON surge como diversão e possibilidade de relaxamento, frente aos milhares de estresses que a vida acadêmica me provoca. Enquanto apresento maquiagens, perfumes, cremes e produtos capilares, dou vasão para aquela parte de mim que é suprimida enquanto ajo como cientista. Posso falar sobre coisas consideradas “banais” para o mundo acadêmico e, mesmo que por razões monetárias, consigo criar tempo para manter laços sociais, até então enfraquecidos. Então, vender AVON não é uma coisa “ruim”, de alguém que está “desistindo do que acredita”, pelo contrário. É uma forma alternativa de conseguir me mantendo no meu foco de vida. Porque com isso, consigo conciliar minha vida de cientista e uma nova forma de adquirir dinheiro e relações. Ambas as coisas que, atualmente, a vida acadêmica e de cientista tem dificuldade em proporcionar.

Para além das razões pessoais, a AVON me atrai pela história da empresa. Surgida em uma época onde a divisão de gênero da sociedade era muito forte e estabelecia que o homem era o provedor da casa, que trabalhava fora, enquanto a mulher deveria ser mãe e cuidadora, a marca foi um dos pontapés iniciais para o êxodo doméstico das mulheres, inicialmente nos Estados Unidos. As mulheres passavam a se reunir para vender e comprar produtos cosméticos, podendo aproveitar o tempo em que seus filhos estavam na escola e podendo, pela primeira vez, ter seu próprio dinheiro, que poderia ser gasto com aquilo que elas quisessem. Mesmo sem a consciência de conceitos como “feminismo” ou “empoderamento”, a marca foi essencial para iniciar essa transformação empírica na vida das mulheres, que atualmente são, em grande maioria, no Brasil, as principais provedoras da casa.

Além disso, a marca foi uma das primeiras a extinguir os testes em animais, tendo-os substituído pelos testes in vitro e em voluntários humanos desde 1989. Nos produtos fabricados e vendidos no Brasil atualmente, portanto, não há a utilização de animais. Entretanto, a AVON permanece em todas as listas que falam sobre as marcas que testam em animais. A razão foi a expansão da marca para o mercado chinês, que exige que todos os produtos cosméticos vendidos no país passem por testes em animais. Dessa forma, todas as marcas que vendem na China precisam realizar estes testes. Entretanto, grande parte delas afirma que os testes são realizados apenas pela obrigatoriedade legal e que afetam menos de 1% do total de sua produção. É claro que a marca poderia ter escolhido não pertencer ao mercado chinês, mas considerando que estamos em um mundo capitalista e que a marca é estados-unidense e, com isso, intrinsecamente imperialista, seria bastante inocente acreditar que a consciência ambiental pesaria mais do que o aumento de capital. Acredito, porém, que isso não é uma culpa que deva contar negativamente para a marca, mas sim para o sistema em que vivemos – que afeta muitas outras marcas e, com isso, prejudica diversos animais inocentes.

Apesar destes testes, entendidos como “obrigatórios”, a empresa possui grande responsabilidade social. O Instituto AVON atua contra o câncer de mama, destinando parte da renda da empresa para a causa, que também proporciona diversas campanhas conscientizadoras, disseminadas nos catálogos da empresa. A questão ambiental também aparece nos papéis utilizados, que passam por um processo de reciclagem. É claro que há muito a melhorar, visto que a área de cosméticos é ainda uma das maiores produtoras de poluentes. Entretanto, saber que a empresa se importa minimamente com isso já é um bom passo.

Outro fator positivo é o fato de a marca, mesmo sendo internacional, realizar campanhas exclusivas com celebridades brasileiras, inclusive aquelas que estão em crescimento de popularidade. A marca visa atingir a maior quantidade possível de mulheres, sendo esse o seu público alvo principal. Mas há também uma crescente linha de produtos de beleza masculinos. Além dos cosméticos, a AVON oferece produtos para casa, além de acessórios, roupas e calçados, de marcas reconhecidas – como Havaianas, Moleca e Olimpikus. As compras realizadas no catálogo seguem os direitos do consumidor brasileiro, podendo ser trocadas e retornadas. Além disso, todos os produtos são validados pela ANVISA e possuem data de validade, fabricação e lote incluídos em todas as suas embalagens. Além de tudo isso, a marca consegue manter preços mais baixos do que o de suas concorrentes, com qualidade paralela a elas. A parceria com a marca grega Korres têm trazido produtos de qualidade internacional, com preços em real. O mesmo tem ocorrido com os investimentos na renovação da linha de perfumaria.

Ou seja: estar de volta à AVON é benéfico para a minha vida pessoal por N razões. Além do fator monetário, a empresa me desperta coisas positivas e o anseio de fazer algo para além do universo extremamente racional e estressante da academia, me é relaxante.

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