BEDA #13 Puff… It’s gone

Saí da sala da minha casa ontem a noite no momento em que a televisão transmitia o Jornal Nacional. Voltei hoje, na hora do almoço, no momento em que transmitia o Jornal Hoje. As pessoas aqui gostam de ver notícias e a similaridade é que em ambas as ocasiões as notícias eram extremamente adversas, porém sobre a mesma pessoa. Na ocasião de ontem, Eduardo Campos dava uma entrevista sobre sua campanha e planos para o Governo. Hoje ele estava presente em um acidente de avião e faleceu. Assim como nesta mesma semana aconteceu com o “Captain, my captain” Robim Willians e há algumas semanas com Ariano Suassuna e Rubem Alves. E com inúmeras pessoas lá na faixa de Gaza, e mesmo em todas as outras cidades do mundo. “Para morrer, basta estar vivo”, no fim das contas.

Mortes sempre são complicadas, mas acredito que haja fatores mais complicantes e outros atenuantes. Digo isso por experiência própria. Quando minha avó, internada há semanas e pedindo para voltar para casa para morrer em sua cama, lá morreu, não houve choque. Tristeza, saudades, sentimentalismo, mas não choque. Era muito difícil que ela sobrevivesse e a situação era esperada. O mesmo com alguns outros parentes falecidos. No entanto, quando, por exemplo, uma tia sentiu uma dor no braço e pouco tempo depois faleceu, o choque foi absurdo. Ela era nova, não havia problema prévio, ela simplesmente se foi. Nessa situação sim, um choque absurdo, desentendimento, não aceitação, sofrimento aumentado, a meu ver.

O mesmo ocorre, creio eu, em casos de suicídio, como Heath Ledger, por exemplo. Ou uma menina da sua própria escola, como aconteceu comigo. Saber que um dia antes ela conversava normal com as amigas, passava emails, fazia planos e no outro dia tirou a própria vida. Imagino que a tortura mental que suicidas enfrentam deve mesmo ser enlouquecedora e que não teriam coragem de consumar o fato caso houvesse alguma outra possibilidade/perspectiva visível no momento. Esse, pra mim, é um modo de morrer ainda mais triste do que o de sopetão. Morrer de sopetão é tranquilo para a pessoa. É inesperado, interrompe a vida na metade, acaba com vários planos e pode ter muitas consequências positivas ou negativas para seus conhecidos, mas a pessoa tem um sofrimento rápido e as vezes nem dá tempo de percebê-lo. Ela só se vai. No suicídio não. Primeiro porque as pessoas próximas acabam sofrendo em dobro, pela perda e também pela culpa de não ter percebido ou podido ajudar quem se foi. Segundo porque, novamente, a confusão mental que os suicidas vivenciam deve ser insuportável, absurda e horrível. Logo, é uma morte dolorosa e sofrida, mesmo que a realização em si seja dada por um modo rápido.

O caso de Suassuna ou do Garcia Marques, por outro lado, é desses compreensíveis. É triste, fará falta, mas é impossível não ponderar um pouco. Ambos eram idosos, haviam feito muitas coisas sensacionais durante sua vida, estavam com doenças causadas pela idade e com isso sofrendo. Claro que a morte ainda é sofrida e difícil, principalmente para as pessoas próximas a eles, mas é plausível. É esperado. Ninguém ainda aprendeu como é que se vive pra sempre.

Nossa relação com a morte já rendeu vários trabalhos literários e antropológicos, além de músicas, filmes, teorias e provavelmente é o que mais impulsa os avanços da medicina. Temos dificuldade em aceitar fins. E no momento que as coisas acabam todas as poesias se esvaem, por mais que a gente saiba que é plausível, que acontece, que só basta estar vivo para morrer, o fim é trágico demais. É doloroso demais. E não importa o quão egoísta ou auto centrado a gente seja, ainda vai continuar sendo. Não adianta Vinícius de Moraes dizer que as coisas devem ser infinitas enquanto durarem. Não é todo dia que acordamos com a vivacidade necessária para viver o infinito. Estamos todos sujeitos a deixar de ser e ir para o nada em apenas dois segundos. E, bem, caros amigos,  um dos pressupostos para se aproveitar as coisas com voracidade é ter a ciência de que um dia elas acabam. Até a vida. Até a gente.

2 thoughts on “BEDA #13 Puff… It’s gone

  1. May,

    Antes de tudo quero dizer que tô amando sua ideia de fazer #BEDA e tô acompanhando todos os seus posts quando posso (e quando não posso, volto pra ler) e quero pedir desculpas por não comentar porque eu sei o quão legal é saber que estamos sendo lidas por amigas.

    Eu sou muito medrosa quando se trata do assunto morte. Mesmo sabendo que não dá pra controlar isso e que mesmo em casa você pode vir a falecer por, sei lá, cair da escada e quebrar o pescoço (fatalista), eu não consigo aceitar que qualquer hora pode ser minha hora e que a vida é só um sopro. Me assusto, nóio, choro com possibilidades e mesmo assim isso não pode mudar nada! É angustiante, cê não acha?

    2014, portanto, está sendo o ano mais BIZARRO da minha vida. É muita gente morrendo. São esses boings, essa guerra, esse jato e o ebola que me fazem ficar acordada horas à fio pedindo a Deus que ele tenha piedade das pessoas (e de mim também) justamente pelo que você falou: elas não sabem que vão morrer e em um segundo a vida deixa de existir. Imagine como está minha cabeça sabendo que quarta-feira, dia 20, vou passar 8 horas sobrevoando o oceano? Tô pirada demais, mas né, dizem que a hora da morte chega na hora que tem que ser, então só tenho que ter um pouco mais fé na vida, orar e acreditar que as coisas vão dar certo.

    Alguém tuitou que esse ano veio pra ensinar a gente a tratar as pessoas como se fosse o último dia delas e acho que, talvez, seja esse o grande ensinamento de 2014.

    Agora é só torcer pra que essa avalanche de mortes e coisas ruins acabe e a paz se reinstale no planeta.

    Beijos <3

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