BEDA #15 Diário de Classe

Relatei aqui, assim que comecei a faculdade e me deparei com uma greve imensa, sobre qual era o meu ideal universitário e como ele se diferia da realidade em que me encontrava. Com o passar do tempo e uma bagagem ainda maior de referenciais universitários norte-americanos, a apreciação pelo sistema daqui diminuiu ainda mais. Não tanto pelo método de entrada na universidade (embora não acredite ser o ideal), nem pelo fato de que o ambiente ainda é extremamente elitizado e dificultoso para pessoas de baixa renda e menor qualidade de educação básica. Porque agora não olho mais de fora, como uma estudante que tenta adentrar nesse meio. Olho como alguém de dentro. E, cá entre nós, me sinto mega sortuda por ter conseguido a chance de olhar de dentro. Se tem uma coisa que acredito desde sempre e que não me vejo desacreditando é no ideal iluminista de que a educação é a origem do progresso e por isso a verdadeira salvação do homem. Sou do time que acha que um país com boa educação é o ideal. E sei que o problema no nosso país é generalizado e atinge todos os âmbitos do sistema educacional, sendo por vezes desesperançoso. Mas hoje não fim falar sobre as minhas opiniões, reclamações e sugestões à respeito da educação. Vim falar sobre como é ser aluna.

Uma amiga começou medicina na faculdade particular no começo deste mês. A dinâmica de ser calouro, intensa como todos sabem, soma-se a uma imensa lista de coisas a serem compradas e todas as cosias sendo caríssimas. Como toda boa caloura, comprar tudo, não perder aulas e morrer estudando em casa para memorizar e aprender é a prioridade do momento. Creio ser assim com quase todos. Até que um momento de limbo se instaure, o que, no meu caso, ocorreu no ano passado. Por uma série de questões pessoais e psicológicas, tudo era mais interessante do que ir às aulas ou sentar para ler qualquer um dos textos. Sem lê-los, ir para as aulas era inútil e irrelevante. Tentei convencer minha mãe a trancar um semestre e não consegui e acabei passando em quase todas as matérias, mesmo que hoje não saiba quase nada sobre elas. E eu não acho isso legal. Mesmo porque, neste semestre tudo aquilo que eu não aprendi ou não soube lidar com, acaba aparecendo de algum modo e me falta a base. Eu me prejudiquei e ainda assim passei. O que, para mim, significa falha no sistema avaliacional pré-histórico chamado de “prova”.

Este ano, com a vida em outro contexto e uma consciência maior do quanto a experiência universitária poderia me agregar e do quanto era importante que eu me dedicasse a ela, resolvi abrir mão das minhas frescuras, manias e preconceitos. Comecei a acordar cedo e chegar no horário em todas as aulas, faltar o menos possível e ler o máximo que consegui. Foi rentável, tirei meu primeiro dez em uma disciplina que eu realmente aprendi algumas coisas, treinei bastante a minha escrita e leitura e consegui passar sem esforço, mas dessa vez com a convicção de que algo eu sabia. No semestre atual, decidi pegar a maior quantidade de matérias possível. O objetivo principal é me formar mais rápido, o secundário é melhorar minha disciplina e capacidade de compreensão e aprendizado, o que exige uma melhora na minha concentração. Estudar, portanto, além de exigir muito tempo, esforço e boa vontade, exige também uma melhoria (mesmo que involuntária) do seu eu interior. Ajuda a crescer, amadurecer e ter maior noção das responsabilidades que lhe são apresentadas. Mas o sistema continua a atrapalhar.

Com o tempo aprendi que é muito mais importante estudar em casa do que ir para a aula e que nada adianta acordar cedo e ouvir o professor falar se eu não fizer ideia de sobre o que ele está falando. Por outro lado, aprendi também que alguns professores não estão muito interessados nas nossas leituras sobre os textos e tão pouco no nosso entendimento a respeito deles, ou das conexões mentais que nos suscitaram. Mesmo que, tecnicamente, a universidade sirva para ensinar a gente a pensar, ampliar os nossos horizontes e formas de pensar e agregar informações novas ao nosso cotidiano, ela acaba por nos restringir e adestrar – tanto quanto a escola básica fez antes.

Isso pode ser percebido por dois exemplos um tanto bobos. O primeiro diz respeito a um trabalho que meu irmão fez, para uma matéria de filosofia (curso dele na faculdade), à respeito de etnologia indígena, o que diz respeito à área de antropologia. Ao ler o trabalho, tive a impressão de ser completamente desconexo daquilo que entendo por uma análise de textos antropológicos e imaginei que a nota dele seria muito baixa, porque, para mim, aquela abordagem e apresentação da discussão estava errada. Só que ele tirou nove. Porque a leitura que a filosofia faz da antropologia é diferente daquela que a antropologia faz dela mesma. Ou seja, meu modo de pensar um texto e escrevê-lo tornou-se estritamente limitado aos modos presentes nos textos que estou sempre em contato com. Mesmo que eu tentasse inovar, não conseguiria fazer do mesmo modo que meu irmão o fez. E creio que se fosse o contrário, ou seja, eu escrevendo sobre filosofia, ele teria impressões semelhantes.

O segundo exemplo diz respeito à uma aula recente que participei, na qual era proposta a discussão de determinado texto, porém quando um aluno resolveu associar aquele texto com teorias de outras áreas, que ele havia tido contato anteriormente, seu pensamento foi, mesmo que a professora não tenha percebido, interrompido e olhado com certa pejoratividade. O menino, a quem passei a nutrir admiração, disse que achava que discussões se davam quando argumentos novos eram trazidos, pois discutir um texto por ele mesmo pouco acrescenta ao aluno. Por mais que a professora tenha demonstrado concordar, experiências prévias tanto com ela quanto com todos os outros professores da universidade, me provam que o garoto está absolutamente certo. Ao adentrar em seu objeto de estudo o professor fica tão delimitado que se esquece que há todo um universo logo a seu lado, pronto para lhe ajudar a construir argumentos ainda melhores. Por não conhecer esse universo, acaba barrando a exposição de alunos que tentam agregar com pensamentos mirabolantemente incríveis. Porque universidade e discussão de textos deveria servir para aumentar e reforçar novas conexões mentais e não ideias comuns e já discutidas e rediscutidas interminavelmente. O maior problema que esse silenciamento inicial causa é justamente o silenciamento contínuo. Grande parte desses alunos que tentam agregar e são barrados acabam desistindo e aula volta a ser desestimulante e apenas mais do mesmo. É a coerção do social, visando a garantia de maior coesão, agindo novamente sobre indivíduos que tentam escapar um pouco dos padrões de normalidade. E isso me irrita.

Relevo aqui duas professoras que estou tendo durante este semestre. Elas estimulam a participação dos alunos, a interdisciplinaridade e a formulação de novas conexões mentais, evitando reafirmar ideias que já fazem sentido para a gente e nos ajudando a entender novas e, quem sabe, criar algumas. Para mim, é exatamente esta a função de um professor universitário, principalmente na área de ciências humanas. Sempre questionam os índices de evasão e desperiodização, mas é impossível diminuir esses números sem que os alunos sejam de fato estimulados a agir pelas próprias pernas. Porque essa é uma corrente contrária àquela que lhes foi passada a vida inteira e, sem esse estímulo, ele simplesmente não vai. É muito fácil o aluno xerocar os textos, ter poucas avaliações realmente avaliativas, fazer uma prova que não prova nada, conseguir a nota e os créditos da matéria.

Mas, poxa, a universidade forma profissionais, que tipo de profissionais serão esses? Que tipo de alunos somos nós? Cumprimos nosso papel na transformação educacional necessária de existir? Ou simplesmente pensamos “já que sempre foi assim, que continue” e enchemos linguiça durante todo o tempo de universidade? Estamos, como Gandhi disse, sendo a mudança que queremos ver no mundo? Ou seremos nós mesmos apenas mais do mesmo? Se é isso que você quer ser, conscientemente, ok, vá em frente. Mas se não é, bom, sempre é tempo de mudar. Eu estou tentando. Gostaria de saber que mais pessoas também o fazem.

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