BEDA #18 Medo do Escuro

Não consigo resgatar na memória uma temporalidade para o início destes fatos e tão pouco a razão para que sejam do jeito que foram. Parafraseando o saudoso João Grilo, direi que “num sei, só sei que foi assim”. Tendo isso em mente, vamos ao fato: tenho medo de andar sozinha pela rua depois que escurece. Pra falar bem a verdade, o medo não vai embora quando ando em comboio. Andar. A noite. Na rua. Bom, é apavorante.

Isso é engraçado quando colocado em comparação com os outros locais em que estive. Por exemplo, como Barcelona escurecia muito cedo, andar de noite era plenamente normal e todo mundo fazia. Dava sensação de segurança e era refrescante. Mas, ainda assim, eu evitava o máximo que podia. O mesmo no Paquistão, onde as lojas só fecham depois das 22h e até lá tem gente e mais gente em todos os lugares que você olha – inclusive naquele trânsito com lógica particular.

Aqui no Brasil, independente de ter gente na rua, de ser cidade de interior, capital, escurecer cedo, tarde, tanto faz. Passou das 20h eu abomino andar sozinha. Sabendo disso, meus pais (que talvez sejam mais causa do que resultado do problema), sempre entram em contato quando não estou em casa até essa hora para, no mínimo, me encontrarem no meio do caminho caso ninguém possa me acompanhar até a porta de casa. Já fiz tias se deslocarem das casas delas até a universidade só porque tinha ficado escuro, não tinha ninguém em casa e eu não tinha coragem de andar sozinha.

Corroborando com a minha questão individual, temos o fato de que minha casa fica estrategicamente localizada em uma esquina do Centro da cidade. Uma das ruas é repleta de bares, casas de swing e semelhantes e a outra só passa carro, a ponto de a falta de pedestres ser agoniante. Perigoso passar perto de um monte de gente bêbada mais nóias em geral (odeio falar das pessoas desse jeito, mas preciso usar essa categoria generalizante no momento, porque, enquanto estou na rua e vejo um ser mal apessoado simplesmente ando mais rápido e mando o relativismo pro beleléu).  Perigoso, por outro lado, andar em uma rua sem pedestres (vai que alguém desce de um carro e me rapta? Vai que surge um pedestre do nada e faz algo de malvado? Vai que eu sou atropelada? Vai que eu tropeço, bato a cabeça não tem ninguém na rua pra me socorrer?). Ou seja, muito arriscada essa vida de solidão. Não é pra mim. Preciso de um cão guia, mas ok, isso fica pra outra conversa. A tensão que se instala no momento de voltar para casa de noite é absurda. Tanto que desisti de vez de fazer aula de teatro justamente porque não teria mais alguém para me buscar e sem condições voltar sozinha, a pé, às 22h.

Até que em meados de Junho (suponho) do ano passado, após um dia universitário eufórico, cansativo, gigantesco e que finalmente tinha acabado, o estresse e a ansiedade pela cama se transformaram na minha vontade preferida, a de andar. E de repente eu estava na metade do caminho para a minha casa. Sem me agarrar na bolsa. Sem estar rezando o pai nosso. Sem ter avisado a minha mãe. Simplesmente com meu casaco branco, andando rapidinho enquanto cantarolava alguma diva pop e, perto de casa já, me deparo com minha mãe na calçada “indo ao meu encontro” sem eu ter pedido. Só então percebo que tinha ido até ali sozinha e sem nada do meu medo ridículo. O que só podia significar que, sim: eu posso.

Desde esse dia, andar pela rua sozinha depois que escurece ainda me dá um friozinho na espinha. Ainda tento evitar o máximo que posso e ainda imploro por caronas, companhias ou remanejamentos de horários em compromissos, mas não deixo de fazer as coisas por causa disso. Tenho treinado minhas habilidades no dia da Yoga, que volto lá pelas 21h e até hoje tudo deu certo. Eu olho pra Lua e sorrio. Ando com a chave na mão, apressada e hiper atenta, ou pelo menos o máximo que consigo. E até agora tá tudo bem. No fim, aproximo-me mais da crença de que os medos existem para serem vencidos e tento percebê-los justamente para transformar em novas metas de libertação própria. Um dia, quiçá. estarei livre dos meus grandes monstros e, talvez, passe a ser uma pessoa mais normal, no sentido estrito do termo.

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