Tenho esquecido de escrever para o desafio, no entanto, não consigo deixar de postar alguma coisa aleatória. Sinto meu pedantismo subir exponencialmente e recuso-me a crer que há alguém ainda acompanhando/lendo isso diariamente. Mas acho que faz parte. A vida ainda não está 100% organizada, a exaustão continua a mil por hora, junto com a falta de foco e a imensa quantidade de coisas a serem feitas em um curto espaço de tempo. Como a professora de yoga sempre fala, cada dia que passa estamos mais atarefados, tanto que precisamos marcar um horário na nossa agenda para simplesmente ouvirmos o silêncio.

Pensar nisso me angustia, pra falar bem a verdade. Pensar que passo minha vida correndo, como se fosse um hamster numa gaiola e que não chego a lugar nenhum, nada produzo, nada acontece, ao mesmo tempo que acontecem tantas coisas. Voltando pra yoga, isso se dá pela ansiedade que faz com que eu viva sempre o momento próximo e esqueça o presente, ou seja, deixe de ouvir o meu próprio silêncio, porque a mente nunca para, mesmo quando o corpo parado está. Só que, é tão difícil ficar em silêncio. É tão difícil ouvir o nada ou, sei lá, ouvir os pássaros embalarem o meu pensamento no nada. Ou ouvir um universo e não me envolver com ele devido ao meu grande grau de concentração.

Aí eu lembro do Paquistão. Do dia que a gente tava empilhado numa vã, completamente desconfortável e quase querendo pedir aborto da vida, até que passamos por um campo enorme, lavoura de alguma fazenda, e lá no meio estava um velhinho. No meio do nada, sentado na posição de yoga (que não sei escrever o nome, ainda), com um turbante enorme na cabeça e visivelmente concentrado. Ele estava perto da estrada, ou seja, de carros e afins e também perto da fazenda, onde provavelmente haviam outros barulhos. E nada parecia incomodá-lo. Nunca senti tanta inveja de uma pessoa quanto senti daquele velhinho naquele momento. Ele parecia estar em paz, sabe? Uma paz enormemente boa.

E é aí que entramos na minha experiência com o Islamismo. Lá as pessoas são calmas. Infinitamente calmas. Elas deixam a ansiedade com Allah e vivem a vida do jeito que a vida acontecer. E se não acontecer, foi simplesmente porque Allah não quis. A posição de prece deles, por exemplo, é uma das que a gente faz na Yoga justamente pra relaxar. Agora imagino, se eles fazem no mínimo 5 vezes por dia, claro que isso colabora pra eles serem tão plácidos. Eles te levam em lugares absurdamente lindos e enquanto todos os turistas tiram fotos e fazem turistagem, eles sentam e ficam em silêncio. E sim, eu sei que yoga é hindu e que não tem nada a ver com Islã. Só que, como o Paquistão era parte da Índia, o Islam deles é um tanto “indianisado” e, com isso, eles sabem o que é yoga, muitos realmente praticam e a maioria deles acredita em meditação piamente. E isso me parece sensacional. Pensar que aquelas pessoas vivem naquele trânsito insano e lidam com aquele imenso aglomerado de pessoas circulando pra lá e pra cá e não se estressam com isso. Não ficam pensando que precisam estar em casa pra dar leite pras crianças. Agora faz todo sentido eles não fazerem planos. A lógica de tempo deles é diferente, o tempo não é um regulador da vida, ele tá ali, mas a vida flui do jeito que tiver que e independe dele.

Queria poder ser assim algum dia.

3 thoughts on “BEDA #21 A pacífica atemporalidade

  1. Estou sempre acompanhando. Sabes que sou fã de suas artes de escrita. Não tanto pelo conteúdo, mas principalmente pela maneira que expressa, palavras e continuidade.
    Geralmente sou difícil de gostar de leitura, mas suas “crônicas” são rápidas, concisas, inteligentes (mesmo quando hilárias).
    Parabéns, continue.
    És uma bela coletânea.

  2. Seu post me lembrou uma aula de História da Filosofia Antiga. O professor estava lá, explicando o quanto Heidegger leu bem os gregos e etc. Lá pelas tantas, aparece a discussão sobre o “jogo”. Em grego, o termo seria “agon”, e está ligado com a ideia de conflito. No português, o resultado são termos como “antagonismo” e “protagonismo”. Nesse sentido, o jogo grego é extremamente sério. Se joga com a intenção de se tornar melhor e ganhar. Já o termo latino, “iocus” fica mais evidente no inglês, através de “joke” e “mock”. O aspecto da diversão, de realizar algo que não tem uma finalidade ou deve ser levado a sério está mais presente no termo latino do que no termo grego.

    No contexto do seu post, parece que o sintoma contemporâneo é o excesso de “agon” onde deveria haver “iocus”, e “iocus” onde deveria existir “agon”. Inverteu-se as posições, em nome do tempo (ou do capital). Só é possível perder tempo quando se está fixado na competição, no “agon”. Mas, no caso da meditação, não faz sentido algum que a mesma seja “agon”. Mas sim “iocus”. Sem finalidade, desconsiderando a temporalidade.Todavia, duvido que seja possível separar uma coisa da outra. Há uma necessidade, extremamente moderada, de “iocus” dentro de “agon”, e vice-versa.

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