BEDA #28 Solidariedade Indireta Mútua

Reclamar da vida é fácil. É aquela velha história de que sempre a grama do vizinho é mais verde e de que todas as dores sempre são menores que as nossas. Convenhamos que é um saco estar narrando a dor da sua vida e a pessoa responder com um “te entendo, também tenho dor aí”. É muito difícil a gente acreditar que a pessoa realmente nos entende, porque, claramente, se ela tivesse a mesma dor que eu não conseguiria falar sobre isso de modo tão banal.

Eu descobri que tinha artrite reumatóide com cinco anos e não me lembro de um dia sequer que eu tenha conseguido andar, esticar os braços, subir e descer escadas e semelhantes, sem sentir algum tipo de incômodo. Porém, agradeço sempre que possível à minha mãe, por ter sido atenciosa e perceber que eu tinha dificuldades para andar, quando eu tinha dois anos e pouco de idade. E também por, depois disso, nunca ter me abandonado, sempre me levando em médicos, provendo os remédios e apoio emocional nos momentos em que eu era zoada na escola ou ficava chateada por não poder fazer educação física e ter que ficar explicando pra todo mundo.

Com o passar do tempo, superei essa coisa de ter artrite. É claro que as vezes ainda reclamo. Dói, as vezes é muito difícil existir pisando no chão e semelhantes, mas é a minha vida. E, bem, tem gente pior.

Há um pouco mais de um ano, comecei a tomar um remédio intravenoso, aplicado em uma clínica. O remédio é fornecido pelo SUS e a aplicação também. São atendidas pessoas de 2 a 21 anos, todo o tipo de gente e cada uma delas com sua história, um tanto parecida com a minha, mas com suas particularidades. É uma experiência interessante ir tomar esse remédio, porque não tive, durante a infância, a oportunidade de conhecer outras pessoas que tinham a mesma coisa que eu. Isso fez com que eu me achasse um monstro e culpasse os genes familiares por terem me feito nascer assim. Ali, tendo a chance de conversar com todas aquelas crianças, adolescentes, semi-adultos, pais, avós e outros acompanhantes, aprendo com eles enquanto eles aprendem um pouco comigo.

O tempo passa mais rápido. Não é necessário ligar a televisão. A gente conversa, conta a vida inteira e se sente entendida. Porque ali as gramas dos vizinhos têm tons muito semelhantes. E não há sensação melhor do que conversar sobre como era ruim tomar corticóide e ficar inchada. Existem coisas na vida que só quem compartilha as mesmas doenças que a gente é capaz de entender. E é incrível, porque perto destas pessoas, não importa o quão ruim elas estejam, todo mundo sorri. Tomar o remédio, que é super chato porque temos veias difíceis e somos obrigados a perder um tempão do nosso dia, passa a ser uma experiência interessante. E cada vez que eu vou, conheço uma pessoa mais diferente e mais disposta a conversar. E a gente esquece que está ali tomando remédio porque somos todos ferrados e sem os remédios teríamos uma vida péssima. O tempo passa rápido e ainda torcemos para que no próximo mês o nosso horário coincida com o de alguma outra pessoa bacana.

Eu entendo as velhinhas que só sabem conversar sobre doenças e remédios. É um jeito maravilhoso de nos lembrar que a vida não é perfeita, mas ela ainda é vida. E que se o outro está conseguindo encarar, a gente também consegue. Chamo isso de solidariedade indireta e mútua. Porque a gente faz sem querer, mas faz tão bem pro outro quanto faz para nós.

2 thoughts on “BEDA #28 Solidariedade Indireta Mútua

  1. Me fez recordar quando acompanhei um amigo vizinho de São Paulo no procedimento de Hemodiálise. Realmente é impossível compreender sem estar na “pele” da outra pessoa. Não conhecia esses seus pormenores. Pudera, pois só conheço o que é dito nos Posts. De qualquer maneira, mostra que você é “menos alien”. Abraços, sucesso e grato por sempre escrever. Eu leio todos.

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