BEDA #4 Sobre o fim das férias

… Mesmo que elas não tenham terminado.

Planejei escrever sobre as minhas férias hoje, como uma redação de primeiro dia de aula da quarta série. Só que acabei ganhando uma semana a mais de férias e talvez seja precipitado falar sobre o término de algo que acaba de ganhar a possibilidade de um novo fim. Apenas afirmando aquela noção básica de que o fim não existe, assim com o começo não existe e como o agora é puramente subjetivo. O que, inclusive, faz com que eu retorne a uma das mais emblemáticas questões das férias, trazidas – acreditem se quiser – por um desses testes sem graça que a gente faz no facebook. Afinal de contas o que vem antes, o ser ou o nada? Ainda não encontrei uma resposta para essa difícil indagação que me dá um arrepio na espinha ao pensar que talvez eu não exista e me faz repensar todos os conceitos que já dei por certo e transforma todas as minhas certezas em uma única, a de que odeio filosofia. (e ao mesmo tempo acho genial, necessária e orgásmica, claro)

Acredito que esse primeiro parágrafo tenha dado uma ideia geral de como foram os meus dois meses de férias. O primeiro, aquele em que estava ocorrendo a copa, resumiu-se em colocar meus seriados em dia, tragicamente terminar Doctor Who e chegar em um ponto de Fringe que está meio difícil de continuar e fugir desesperadamente do foguetório e do blablabla idêntico que advinha de todos os locais possíveis.

Sobrevivi e resolvi adentrar no universo dos livros. Havia quatro livros não terminados na minha escrivaninha e era questão de honra terminar a todos e conseguir começar novos. Consegui terminar os quatro, li um quinto e agora com a semana extra de férias que ganhei pretendo terminar o sexto. Missão cumprida.

Em meio ao mar de leituras, surgiu um problema de pele apavorante. Digo isso porque eu não costumo ter problemas de pele e o único que me recordo foi justamente o motivo para a única internação da minha vida. Problemas de pele me apavoram. E como dessa vez era no rosto, fiquei ainda mais apavorada. Foram dias de drama agudo, com uma boa dose de todos-os-médicos-possíveis até que encontrei um remédio que sarasse (aleluia) e não tivesse nenhuma mancha de recordação. Coisa importantíssima para pessoas que odeiam maquiagem no dia a dia.

Com a leitura, a “doença apavorante” e o clima sabático que as férias de inverno trazem, restou voltar o olhar para dentro de mim mais uma vez. E foi mais intenso que o normal. Não sei se porque coloquei na cabeça que não posso continuar sendo tão monga quanto sempre, porque tenho 20 anos e tenho que parar de agir/achar/pensar que tenho 12, o que acontece em vários momentos. Não sei se porque os livros que li mexeram mais comigo. Não sei se porque pude ficar mais tempo sozinha. Não sei se porque dw acabou. E sei menos ainda se porque não consigo saber se o ser vem antes do nada. É clichê adotar o “só sei que nada sei”aqui, mas é exatamente isso. Por algum motivo, mergulhei dentro de mim em diversos momentos e comecei a perceber atitudes que odeio em outras pessoas  e sempre faço. Comecei a me irritar com a minha passividade. Com a minha morosidade, minha preguiça, minha falta de ação. Comecei a me irritar comigo mesma em tantos níveis que alguns dias eu só queria ficar embaixo das cobertas no escuro, sem comer e esperando que ninguém lembrasse da minha existência. E dois segundos depois eu percebia que era exatamente esse tipo de atitude que eu odiava e tentava fazer alguma coisa. Foi difícil. É difícil.

Já falei nesse lugar milhares de vezes que estava farta da minha passividade e que ia tentar tomar jeito na vida. E dois dias depois eu desistia. E nessas férias tudo isso começou a me angustiar em níveis extremos. Parei de ir no psicólogo porque não queria falar sobre e não sabia direito o que falar ou sobre o que falar. E é muito raro eu não querer falar sobre o que me aflinge. Só que pela primeira vez eu consegui ver quais são, pontualmente, essas coisas. E percebi que é possível eu melhorar a elas e, com isso, melhorar a mim. Alguma coisa aconteceu que eu comecei a ter esperanças. E decidi que elas não se tornariam realidade se eu não fizesse nada. E mesmo tendo feito algumas coisas, ainda acho que fiz pouco e que tenho muito a melhorar e ainda tenho uma visão negativa abrupta sobre mim mesma e penso coisas horríveis sobre o efeito da minha existência na vida alheia quase todos os dias. Tenho, no entanto, visto uma melhora significativa na minha coragem e na minha vontade. Eu consegui voltar a ter vontade. Até de comer. Até de experimentar. Até de sair um pouco da minha bolha. E a coragem pra tudo isso está vindo, eu comecei a acreditar.

Ganhei mais uma semana de férias porque todos os meus professores foram para um congresso, ganhei tempo de terminar de ler Oblómov (que eu culpo como uma das causas para a tremenda vontade de valorizar a vontade própria desde que não fira a alheia – sempre a ser levada em conta), para finalmente fazer os mandamentos da minha vida, pra conseguir voltar pra terapia, pra dar oi de novo pra yoga e pra aproveitar calmamente o limbo bom que resolveu surgir desde que ganhei um quarto branco e uma cama confortável. Continuo sem saber se o ser vem antes do nada ou o contrário e talvez eu nunca consiga entender isso (ou porque ideologia não é uma ideologia – e se for, porque nunca problematizaram isso), mas estou começando a acreditar que o fim não é mais importante que o meio. Mesmo que nem o fim, nem o começo, nem o meio, nem o agora existam.

A polpa das experiências está no processo e o entendimento delas só se dá quando em relação com o todo. A experiência e o todo são indissociáveis, o entendimento de uma, depende do da outra. Se eu nunca vou conseguir extrair a polpa da vida, deveria me preocupar menos e aproveitar mais. Desoblómovizar o complexo existencial e largar um pouco essa carga emotiva que me dá nos nervos. Talvez um dia eu consiga ser uma pessoa sábia e madura que demande algum tipo de respeito por parte de alguém.

Não é o fim, nem das férias, nem das reflexões, nem das falhas, nem da humanização tremenda e constante e muito menos de mim.

3 thoughts on “BEDA #4 Sobre o fim das férias

    1. Fringe tá com a olivia no universo errado, deu preguiça.

      Hesse e Oblomov me fizeram bem, tanto que fiquei chateada algum tempo por não fazer ideia de um presente tão bom. E nem terminei de ler!

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