BEDA #6 Where the wild things are

Dizem que embaixo de nossas camas há milhares de monstros e que devemos ter cuidado com eles. Não lembro de ter acreditado isso em algum momento e muito menos de ter precisado inventar monstros embaixo da minha cama para me sentir perturbada com algo.

Foi com o filme adaptado do livro de Maurice Sendak, que em português chama “Onde Vivem os Monstros”, porém, que entendi os motivos para que eles não estivessem embaixo da minha cama. Os piores monstros são aqueles que a gente mesmo cria, isso porque ainda não houve uma invasão alienígena por aqui, claro. Porque lá em Doctor Who, quando crianças têm medo de monstros é porque realmente há monstros.

Num mundo sem TARDIS, como, infelizmente, parece ser o meu, tais monstros se encontram em planos subjetivos. E provavelmente foram desmistificados por Jung, já que ele estudou basicamente todas as coisas que existiam no universo enquanto ele estava vivo. E, claro, previu outras mais. Só que eu ainda não tive oportunidade/tempo/motivação para descobrir exatamente o que sobre a minha mente os psicanalistas e fodões sabem, então digno a conjecturar.

Quando assisti ao filme pela terceira ou quarta vez, após ter lido críticas que me explicavam que os monstros eram parte da mente do Max e representavam nada além que partes dele mesmo, tentei identificar que partes seriam essas. Depois, passei alguns dias tentando descobrir quais seriam os meus monstros. Eu pensava não no nome ou na forma física, mas na simbologia. Como todos os geniais devaneios pré boas noites de sono, perderam-se no limbo de uma memória que não acredito ser possível acessar em algum momento. Mas garanto que tive boas percepções.

Eu gosto de pensar em mim como se eu não estivesse dentro de mim. Como se eu pudesse ser uma narradora observadora da minha própria vida. Mas, confesso que só gosto disso bem de vez em quando. Na maior parte do tempo eu adoro os dramas de narradora personagem. Quando, porém, o devir narradora observadora aparece, digno-me a pensar em quais características herdei da minha mãe, quais herdei do meu pai e quais aprendi com o meu irmão. Influenciável como só eu, as vezes passo horas a tentar pensar em algo original e depois concluo que o original não existe e se existe, não é em mim. Aprendi com Geertz (que aprendeu com T.S. Elliot) que poetas ruins emprestam e poetas bons roubam. Sou uma ladra de primeira.

E meus monstros continuam a existir. E eu continuo a tentar percebê-los, mesmo sabendo que não são só meus e que vai ser muito difícil vencê-los estando diretamente em contato com os artifícios e as situações que os despertam. O objetivo é justamente perceber o que os desperta e impedir que isso aconteça e tornar isso um mecanismo consciente requer um auto-conhecimento e uma percepção fria de si mesmo que me falta na maior parte do tempo. Porque na maior parte do tempo estou muito absorta em minha posição de narradora personagem e esqueço de observar.

Recebo informações novas e entro em contato com reafirmações de antigas informações todos os dias, o tempo todo e o processamento de dados é feito cada vez mais rápido. O tempo para olhar para mim e pensar no que estou fazendo e como estou fazendo, diminui cada vez mais. E quando percebo já fiz tudo errado de novo. Já passou mais um dia e eu deixei o monstro vencer mais uma vez. Já estou há uma hora chorando desesperadamente, contorcida e sem conseguir respirar e muito menos explicar pra qualquer pessoa os motivos para aquilo ter acontecido.

As vezes é melhor refletir e interiorizar do que sair falando como dona da verdade. A verdade está sempre escapando. A batalha interna está sempre existindo, a roubalheira está à solta. Os pedaços de almas alheias cada vez incorporam-se mais a mim e a dificuldade em estabelecer relações entre o que é novo e o que já está aqui é constante. O medo e a falta de jeito não largam mão. Os monstros, quando vencidos, abrem espaço para o surgimento de novos. E parece que mesmo se a paz no Oriente Médio vier a existir em algum momento, aqui dentro continuará tudo em guerra. Sinceramente, preferia que a cama estivesse submersa em um mar de monstros do que ter esse oceano sem fim no meio do meu caminho.

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