Hipnose

Bentinho convenceu-me aos meus onze anos que o amor se demonstraria pelos olhos. Ele, provedor da paixão mais intensa que conheci no universo literário, ultrapassando – ao meu ver – o jovem Romeu e tantos outros, olhava para Capitu, a moça com o nome mais feio possível, e se perdia em seus olhos. De ressaca, oblíquos e dissimulados.

Fui à praia depois de quatro anos e lembrei de como aquilo era o amor da minha vida. Percebi que a água, as ondas e toda aquela insensatez e falta de continuidade me encantavam. Passei horas sentada olhando. Só olhando. Olhando e deixando o meu coração transbordar. Olhando e sendo absurdamente seduzida por algo que gritava “mergulha em mim” e “deixa eu te envolver” e eu fui e minha cabeça ressonava “quero ficar assim pra sempre” e vinha mais uma onda, uma quase morte, uma criança em busca de segurança, uma correnteza assustadora, eu voltava a mim e retornava à areia. Pouco depois o ciclo se repetia.

Você é assim.

Olhando para o mar, enquanto ele me seduzia fortemente para em seguida me fazer correr, eu via o seu rosto. Olhava para toda aquela imensidão, plenitude, beleza e os seus olhos oblíquos, de ressaca e dissimulados apareciam ocupando todo o espaço. Era como duas fotos contrapostas, como se você fosse o mar me olhando. Como se você estivesse lá dizendo “mergulha em mim” e “deixa eu te envolver”. E foi aí que eu percebi que eu realmente iria. Mesmo sabendo que poderia levar um capote, morrer afogada, levar uma pranchada na cara ou nunca mais conseguir encontrar minha barraca, eu iria.

Lá, hipnotizada, seduzida, absurdamente feliz eu só pensava em mergulhar em você.

2 thoughts on “Hipnose

  1. Acredita que já li e reli Dom Casmurro e não tinha apreendido que Bentinho nos ensina o amor pelos olhos? E por causa do livro, acho o nome Capitu lindo, tinha até vontade de colocar o nome de uma filha assim, mas tenho dó do peso que ela teria que carregar durante toda a vida por causa do nome.
    Amei como você comparou com o mar.
    Ótimo texto!

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