Blue as a Valentine

You always hurt the one you love,
The one you shouldn’t hurt at all.
You always take the sweetest rose
And crush it until the petals fall.
You always break the kindest heart
With a hasty word you can’t recall.
So if i broke your heart last night
It’s because i love you most of all

Ringo Starr – You Always Hurt  The One You Love

O Dia dos Namorados foi na última semana e com isso mil textos sobre amor brotaram. Eu não gosto de ser clichê e depois de um específico que eu li nem tive coragem de escrever.

Resolvi que precisava ver um filme hoje, há tempos não via algo novo e que me fizesse refletir. Estava vivendo do velho e não gosto disso. Os cestões das Americanas são sempre boa pedida e assim sendo comprei um exemplar de “Namorados para Sempre” que tem por original o nome de “Blue Valentine”. Vi imagens desse filme em vários blogs ao longo da vida e sempre tive curiosidade em assisti-lo, essa pareceu a oportunidade correta. Confesso que esperava algo completamente diferente, mas fiquei extremamente satisfeita com o que recebi. Exatamente o que eu precisava: uma boa dose de reflexão. Assim surge esse texto, que se trata de amor. Não do verbo ou do objeto em si, nem do ato, nem das belíssimas coisas citadas por tantos outros autores maravilhosos em tantos outros textos.

Vim falar sobre o fato de o amor ser deveras engraçado. Explico: Nascemos e uma das primeiras coisas que aprendemos sobre é isso, eu pelo menos, tive que insistir freneticamente para que meu pai parasse de dizer que me amava a cada vez em que me olhava. Não gosto de ouvir essa frase freneticamente e descobri isso com cerca de cinco anos. Mas é importante ouvi-las as vezes, para relembrar, para ter certeza, para acalmar ou simplesmente para saber que alguém se importa com a sua pessoa.

Sempre reclamei do fato de nunca ter ouvido essa frase em alto e bom tom de alguém que não pertencesse à minha família, até que um dia percebi que nunca falei essa frase em alto e bom tom para nenhuma pessoa. Não que ela tenha algo demais, não que ela não possa ser dita, não que eu não tenha coragem, a questão é que eu nunca tive certeza de amar alguém além da minha família. Nada me incomodou mais do que isso em toda a minha vida, absolutamente.

Com cerca de catorze anos senti algo parecido com isso e talvez até tenha sido isso, mas só escrevi para a pessoa sobre, nunca falei. Não quero falar sem ter a absoluta certeza, mas a questão é:  e se eu nunca tiver certeza? Posso viver oitenta anos sem agir conforme acho que deveria simplesmente com receio de não estar fazendo a coisa certa. Coisa certa para quem? Existe algo certo?  Existe alguém que sabe o que é certo? Existe alguém que não erre? E, principalmente, por que raios a opinião dos outros importa tanto? Eu posso até dizer que não importa. Posso até não me importar em diversas situações, mas em determinadas coisas é impossível não importar. Se você ama alguém e fala isso para a pessoa, obviamente importa saber se a coisa será retribuída ou não. Claro que importa. O outro importa muito mais do que a gente pode pensar. A questão é que por eu não ter essa certeza, sei que acabei por magoar muita gente uqe não deveria. Muita gente que provavelmente me amou. Muita gente que provavelmente eu tenha amado. Muita gente.

Mas essa coisa é engraçada, o tal do amor. Porque um dia você passa todos os milésimos de segundo pensando na pessoa, querendo conversar com ela, saber notícias, estar perto e todas as outras coisas que derivam do fato, então você dorme e quando acorda tudo simplesmente evaporou. Sumiu. Então você se esforça abundantemente para voltar a sentir o que sentia, para voltar a fazer o que fazia, para voltar a ver o outro como via, mas simplesmente não dá. Simplesmente não consegue e a simples atitude de tentar é capaz de machucar-te mais do que simplesmente não tentar. Você acorda e tudo perde o sentido e você se arrepende pelo que fez e pelo que não fez, se sente um lixo e pergunta-se onde estava com a cabeça quando se dignou a tentar amar a dita pessoa. Como se tudo fosse efêmero. E sim, talvez o que eu tenha narrado não seja amor, talvez o amor de fato nunca morra, talvez isso seja apenas uma paixonite marota que acabou do nada, porque os ultrarromânticos dizem que de fato o amor não acaba. Eu muitas vezes cri no mesmo. Mas será que não acaba? Será que ele de fato existe? Será que temos a capacidade de percebê-lo quando existe? Será que sabemos lidar com ele? Ou será que é como Morpheu diz para Neo em Matrix? Que o amor é uma coisa simples que o homem complica que é só uma palavra e o que importa é a conexão que se atrela a ela? E o mais engraçado ainda é que logo em seguida de você acordar sem saber porque raios veio a sentir aquilo por aquela pessoa, surge a irritante necessidade de sentir a mesma coisa por outro alguém. Como se só quando sentíssemos algo semelhante ao amor fôssemos plenamente felizes. Como se precisassemos estar apaixonados em todos os momentos de nossas vidas para que elas fizessem algum sentido. Como se sem um sentido fosse terrível e talvez impossível sobreviver.

Eu sinceramente não sei. Não sei de nada. Estou igual a Sócrates aqui, sabendo que nada sei. Talvez eu nunca venha a descobrir algo sobre coisa alguma. Talvez eu nunca venha a saber que estou amando a ninguém. Talvez eu nunca seja amada por ninguém além da minha família. Talvez eu viva me enganando por toda a eternidade. Talvez eu morra achando o dia dos namorados a maior babaquice da face da terra, talvez eu entenda-o algum dia, talvez, talvez. A vida é feita de talvezes intermináveis e estou cansada de eles não terminarem nunca. Mas o que posso dizer? Como alguém seria capaz de amar uma pessoa semelhante a mim ou especificamente a mim? Nem eu me aguento, como posso pensar em exigir que alguém o faça? Entendo perfeitamente as atitudes do mundo inteiro. Só não me sinto capaz de aceitá-las. Infelizmente.

O fato é que hoje encontrei mais um momento musical marcante em minha vida.

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  1. Oi, meu nome é Marie e a minha primeira surpresa nesse texto foi ver o link do meu post. E gata, please, você matou a pau com o seu. Me identifiquei MUITO, Gê. Muito mesmo. Essa parte: “A questão é que por eu não ter essa certeza, sei que acabei por magoar muita gente uqe não deveria. Muita gente que provavelmente me amou. Muita gente que provavelmente eu tenha amado. Muita gente.” me levou pra outro tempo, pra outro lugar. Relembrei de tudo o que eu luto todos os dias para me perdoar. Enfim, não tenho o que dizer. Sapatilhou, sem mais <3

  2. Ah, Mayra, acho que é como Tati Bernardi escreveu certa feita: depois que descobri que posso amar qualquer coisa (ou algo assim, não lembro exatamente da frase) fui muito mais feliz. Posso amar o café da minha mãe, minha cama e muitas outras coisas. Amor é amor, seja como for.

    Eu acho que o amor tem sido subestimado hoje em dia. Sei lá, todo mundo parece estar em uma corrida frenética na busca de um amor de verdade. Mas todo amor é amor. E ele acaba, sim. Um dia – como você disse – acordamos e ele simplesmente não está lá. Mas não quer dizer que não tenha sido amor de verdade. Foi, mas passou. C’est la vie.

    Mas vale a pena tentar entender. Não que um dia realmente alguém conseguirá, porém a tentativa é válida. O ser humano parece ter uma necessidade de ser amado e amar, compartilhar. Aliás, acho que o que define melhor o amor é isso: compartilhar um ao outro e um para com o outro. Só pra ver se o mundo fica menos cinza.

    E o dia dos namorados é uma babaquice no final das contas. haha Mas é uma babaquice legal.

    Beijo!

  3. May, que texto mais lindo.
    Primeiro: Blue Valentine é um dos filmes de amor mais lindo de todos os tempos, amo, amo, amo, amo infinitamente!
    Segundo: eu acho que a gente nunca sabe quando ama, de verdade. Eu não acredito em nada que seja cego. Acho que a gente sempre vai se questionar, sabe? E como já disse Milena, em um texto que virou referência pra minha vida: “o amor é, antes de tudo, esforço de amar.”
    Terceiro: eu odeio o dia dos namorados. Acho que é a data comemorativa mais besta que existe!

    Beijos, May!

  4. É que amar é muito bom, May. E ser amado também. Por isso que faz tanta falta e deixa a gente assim quando a gente ‘desama’. Mas não se preocupa, não, que um dia você vai experimentar também.

    Beijos!

  5. Eu tenho uma teoria (lá vem ela de novo) entre amor e paixão. Infelizmente, sou muito severa quando o assunto é o amor, e prefiro acreditar que a paixão está mais presente entre nós do que ele de fato. As pessoas vivem se apaixonando, mas é raro se amarem. Sabe, a paixão? Aquele fogo de palha que, como você disse, um belo dia acordamos e não está mais lá, queimando. Enquanto o amor é algo duradouro, sem prazo de validade e muito mais doloroso. Acredito que no amor nos doamos, e na paixão nos compartilhamos. Com certeza você irá se apaixonar muitas vezes nessa vida! Com um pouco de sorte e predisposição, amará também.

  6. Acho que foi assim: alguém um dia sentiu uma coisa por outra pessoa. E decidiu chamar de amor. E de repente todo mundo começou a dizer que amor era uma coisa palpável e criaram etiquetas de ”Sim, isso é amor” e ”Não, não é”. Mas como é que eles sabem se fica dentro da gente?
    Vai ver ninguém nunca sentiu a mesma coisa que o primeiro cara sentiu. A gente nunca vai saber. Mas ainda podemos sentir algo bom. E você pode.
    Mas entendo suas dúvidas, tenho as mesmas. Quem é o louco que vai resolver me amar?

    E UAUUUU! Essa cena tira meu fôlego. Se eu fosse fazer o meme, com certeza ela entraria. Como resistir ao Ryan Gosling ”singing goofy”? Amo essa música! E esse filme!

    Beijo, May may! <3

  7. Mayrinha, eu amo muito esse filme. Ele mostra que até os grandes amores podem se destruir. A personagem da Michelle Williams é insuportável – como são, aliás, todas as personagens dela. Sim, não sou fã da moça. Mas o do Ryan Reynolds é um amor e não merecia o jeito que ela o tratou, mas enfim. Sabe o que eu acho? Que quando o amor de verdade chega, a gente sempre sabe. Porque é muito mais forte do que a tal da dúvida.

    Beijos!

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