Canudos Coloridos

Eu tinha cinco anos, estava no Jardim 3 e a minha escola estava falindo. O nome dela era “arco-íris” e tinha apenas cinco pessoas na minha turma. Acho que foi aí que comecei a gostar tanto do número cinco.

Nunca usei chupeta, mamãe não deixava, achava feio e desnecessário. Ao invés disso eu mamava na mamadeira, o tempo inteiro, porque nada no mundo era mais gostoso do que um bom mamá, na minha mamadeira. Ela tinha um gosto super especial, eu adoro gostos de tampas de mamadeiras. Aliás, gosto de cafés do Starbucks porque acho a tampa deles com muito gosto de mamadeira, até compensa a fortuna gasta com algo tão simples quanto um pouco de café. Mamadeiras dão um gosto super especial ao leite com Nescau, fica muito mais gostoso. Sempre fui fã delas.

Além das mamadeiras eu também tinha um pano, que chamava de “cheirinho” e vivia com ele na minha boca nos momentos em que não mamava. É que se eu roesse as unhas meu pai colocava pimenta nos meus dedos e eu odiava o gosto da tal pimenta, então nunca colocava o dedo na boca (só escondida, quando ia dormir e ele não percebia). Para os momentos comuns, eu tinha meu pano. E viviam me perguntando que gosto ele tinha e a cada momento tinha um gosto diferente, na verdade não tinha gosto nenhum, mas eu sempre gostei de inventar.

Com cinco anos inventar era tudo que eu fazia. O tempo inteiro. Inclusive sobre cada um dos remédios que tive que começar a tomar e que me engordaram de um tanto que nunca chegaria sem eles. Eu inventava os motivos para precisar deles, inventava gostos e ainda assim chorava e fazia um estardalhaço a cada vez que precisava tomar. Porque eles eram ruins. E ainda que eu pudesse tomá-los na minha mamadeira eles seriam ruins.

Um dia a professora da escola resolveu nos dizer que mamadeira era coisa de neném e que a gente já era grande, cinco anos já era idade o suficiente para tomar as coisas em canecas. Então ela nos convenceu de que as canecas eram lindas e de que a gente devia chegar em casa e se desfazer da mamadeira, nossos pais ficariam felizes, a gente ganharia presentes e comidas que gostássemos e ainda poderíamos escolher uma caneca muito legal. Só que eu tinha muito medo de coisas novas, eu sempre tive e é a coisa que mais tento combater em mim mesma. E naquela época, passar da minha adorada mamadeira para uma caneca, por mais bonita que ela fosse, me parecia impossível.

Eis que a professora, no meio de sua fala, menciona que para aliviar a transição, a gente poderia pedir por canudos. Eles nos ajudariam, dariam uma cara mais adulta e trariam todas as vantagens da caneca, com o acréscimo de: eles eram coloridos.

Lá fui eu, na cara e na coragem, pegar a minha mamadeira, pedir meu último leite e depois falar para minha mãe que me desfaria dela, mas precisaria de uma caneca bonita e de canudos coloridos para me ajudar na transição. Eu não lembro como foi a minha caneca, mas lembro do pacote enorme de canudos e de todo meu ritual diário para escolher a cor do dia, que deveria combinar com alguma coisa de algum lugar. E eu me sentia tão grande e independente porque conseguia tomar leite na caneca, que encarava melhor até o que eu mais detestava, os tais remédios. Conseguia encarar melhor todas as minhas dificuldades e todas as coisas ruins, porque tudo era parte do meu crescimento, porque eu estava me desenvolvendo, porque eu já não precisava mais da mamadeira. Porque existiam os canudos.

Só tive coragem de me desfazer dos canudos com dez anos. Eu tomava água no copo e quando não estava em casa tomava leite no recipiente que tivesse, mas na minha casa eu ainda tinha meu ritual dos canudos. Eu ainda acordava todo dia pra escolher qual eu queria. E eu ensinei todos os meus primos a fazerem o mesmo, então eles iam na minha casa, a gente pedia leite só pra poder escolher os canudos e se divertia e se sentia grande e feliz. Só que com dez anos o canudo começou a ficar ultrapassado, eu tinha vergonha de dizer que ainda usava e aos poucos fui comprando canecas mais legais e deixando ele para lá. Um dia eu finalmente consegui tomar leite com Nescau feito pela mamãe, na minha caneca preferida, sem auxílio de canudo algum. E eu não me sujei. E aí sim eu me senti grande e realizada. E nenhum remédio me assustava mais.

Sinto saudades dos canudos coloridos na minha vida. Era boa a sensação de empoderamento que eles proporcionavam.

0 thoughts on “Canudos Coloridos

  1. Mayra! Ontem mesmo tava passando no ACDUA pra visitar meu blogroll (já que fiquei meses sem visitar ninguém e afastada da blogosfera) e vi que seu blog tinha acabado. Bateu uma tristeza… aí você me enviou um convite pra curtir a página desse blog e eu fiquei tão contente que você não parou de escrever! E outra: muitas blogueiras têm feito isso (eu mesma sendo uma delas): terminar o antigo, começar com um novo. Será mudança de ciclos? Acho que sim. Acho bom, acho digno.

    Mas enfim: quando a gente é criança tem uma visão linda das coisas, né? I mean, de crescimento, no caso do texto. Qualquer pequeno detalhe – que hoje nos parece pequeno – vira algo incrível, do qual podemos nos orgulhar. É lindo de ver isso numa criança (sim, eu gosto muito de crianças e fico boba com relatos infantis, haha).
    Eu larguei bico, mamadeira, tudo muito cedo. Porque os meus estragaram e, enjoada como sou, não queria outros. Muito fiel, eu, hahaha. Mas criança tem um tipo de fixação oral mesmo, né? Vejo isso não apenas por minha infância ou seu relato, mas meus sobrinhos, todos, todos assim. Agora estamos tentando tirar o bico do mais velho (pra que não tenha de usar aparelho, não sei ao certo se confere a informação, MAS…). Uma luta. Duvido que consigamos tão cedo.
    Essa técnica do canudo colorido é boa. Quem sabe eu não a sugira pra minha cunhada…? 🙂

    Beijos, guria! ;*

  2. Amiga, tomei mamadeira até os 7, me julgue! HAHAHA, eu amava muito a mamadeira, gente <3, sdds.
    Mas também passei pela fase do canudinho, mas os meus não eram coloridos. Mamãe comprava pacotes daqueles dobráveis, que são brancos listrados de vermelhos. E eu acho eles lindos <3
    Beijos!

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