Cápsula do Tempo

Há algum tempo surgiu uma ideia de escrever um e-mail ou carta para que eu mesma leia daqui a cinco ou dez anos. Muitas pessoas toparam a ideia e escreveram no mesmo dia um texto para seu eu do futuro, eu rejeitei. Não é que eu não sonhe, pelo contrário, eu sonho com tantas coisas que é difícil escolher uma delas para ser o principal e único jeito que pretendo me encontrar daqui algum tempo. Eu sonho com muitas coisas, mas nunca fico planejando detalhadamente como chegarei a elas, sonho com os fins, sem pensar nos meios. Resolvi registrar a ideia mor do meu futuro. Não sei quanto tempo demorarei para concretizá-la ou SE concretizá-la-ei, mas considero de extrema importância registrar esse meu plano específico, para que caso eu resolva cumpri-lo algum dia, lembre-me detalhadamente do que exatamente devo tentar cumprir.

A ideia consiste em viajar pelo Brasil inteiro em um trailer ou algo semelhante, passando cerca de uma semana em cada cidade, sendo duas cidades por região de cada um dos estados, buscando fazer uma visita completa mesmo. Não irei sozinha, deverei estar acompanhada por no mínimo um médico, um advogado, um professor de alguma matéria exata, algum músico ou qualquer outro tipo de artista. O objetivo da expedição será fazer um estudo antropológico do Brasil. Pesquisando as diferenças de cultura especificamente. Mas não só isso, também pretendo levar cultura, disseminá-la. Levando músicas nacionais, peças de teatro e outras coisas do tipo. Haverá um esquema de escambo, onde livros de todos os tipos serão trocados seja por outros livros ou por outras coisas que auxiliem em nosso sustento itinerante. O médico irá conosco não só para nos socorrer caso algo aconteça a nós, mas para analisar quais doenças atacam mais cada região e pensar em maneiras de melhorá-las. O advogado irá para fazer um levantamento do índice de violência e para ajudar na remediação dos danos causados por qualquer coisa. O professor de alguma matéria exata servirá para mostrar a importância das mesmas na vida das pessoas, para assim difundir nas crianças e jovens a ideia da necessidade de se ter um ensino básico, fazendo assim com que mais gente queira frequentar a escola. Eu terei o papel de antropóloga, socióloga e pesquisadora de opinião, além de ser atriz e ajudar na feitoria de peças de teatro educativas ou mesmo clássicas. Pretendo levar também um projetor, para fazer uma sessão de cinema em cada cidade.

(Daqui)

Precisaremos de um patrocínio, obivamente, e essa provavelmente será a parte mais difícil da expedição, tendo em vista que não consigo imaginar uma empresa que invista em uma trupe de loucos que pretende desbravar o Brasil e torná-lo mais unido, mas talvez haja uma empresa assim e a gente consiga dinheiro suficiente para atingir nossos objetivos. Não poderemos brigar entre nós e talvez essa seja a parte mais complicada, pois somos humanos e é difícil que humanos não briguem por motivos na maioria das vezes bobos. Não podemos ser um grupo muito grande, quinze pessoas no máximo. Isso porque espera-se que durante o trajeto mais pessoas queiram juntar-se a nós, como antigamente, quando pessoas fugiam com o circo em busca de uma vida aventureira. Teremos uma vida aventureira, mas essa viagem não será seu cerne principal. Será apenas uma viagem, uma grande pesquisa. Nossa maior pesquisa talvez, o alvo de nossos principais livros e documentários, algo bombástico, que talvez mude o curso da história do país, mas nossa vida não acabará aí. Depois da viagem publicaremos nosso livro sobre ela, assim como nosso documentário e faremos trocentos relatos sobre seu curso. Durante ela teremos um blog diário onde cada um dos envolvidos deverá escrever um pequeno texto sobre como está sendo a experiência, nem que seja uma vez por semana, para resumir como foi a experiência na última cidade. E assim viveremos, assim seguiremos nossa história. Quando voltarmos para nossa cidade talvez estejamos completamente diferentes e mudemos totalmente o curso de nossas histórias, não há como prever. Mas é esse o meu plano de vida, fazer uma expedição que rasgue o Brasil de Norte a Sul, de Leste a Oeste, experienciando de verdade cada centímetro desse lugar tão maravilhoso e repleto de história e riquezas. Eu pretendo redescobrir o Brasil, mostrando que mesmo tendo regiões distintas somos todos unidos de alguma forma, somos todos iguais, somos todos brasileiros. Esse é meu plano. Se alguém se interessar – saibam que estou realmente falando sério – em participar da mais fantástica expedição, venha falar comigo, vamos unir forças e transformar esse belíssimo sonho em realidade. Garanto que a gente consegue. Basta tentar.

Sexta-feira fui ao cinema. Pela primeira vez na minha vida fui ao cinema acompanhada dos meus pais. É de praxe ir ao meu lugar favorito do mundo inteiro acompanhada pela minha mãe, mas meu pai não gosta muito de todo aquele universo e por isso nunca tinha ido comigo. Convenci-o pois assistiríamos a “Xingu”. Meu pai é tão interessado por essas expedições de descoberta e redescoberta de novos lugares e culturas quanto eu e assim fomos felizes e saltitantes. Foi a melhor ida de cinema da minha vida. Desculpem-me todos os outros que porventura me acompanharam em algum momento, mas vocês não eram o meu pai, nem a minha mãe, nem os dois juntos. Xingu trata da história dos fabulosos irmãos Villas-Bôas, citados aqui no último texto.

(Daqui)

Conta a história de como eles ingressarem pelo universo indígena em um tempo que eles eram realmente selvagens e não haviam sido contatados por branco em nenhum momento. Eles adentraram no universo, se envolveram com aquilo e se dispuseram a mudar e até melhorar a vida daqueles cidadãos que eram completamente desprezados pelo poder público, que os utilizavam ainda naquela época, como escravos. Escravos que recebiam salário, sim, mas escravos, porque o salário mal dava para sustentá-los. Então Cláudio, Orlando e Leonardo adentram naquele universo e o mudam completamente. Eles conseguem um pedaço de terra do tamanho da Bélgica para ser exclusivamente indígena, livre de toda a exploração seringueira e da ganância dos fazendeiros latifundiários exploradores de uma figa. É certo que há tribos rivais que tiveram que ser unidas no mesmo pedaço de terra e que ainda hoje elas brigam, mas é melhor que as tribos dividam terra com os inimigos do que que elas percam suas terras e com isso sua liberdade como etnia e cultura. Graças aos irmãos Villas-Bôas ainda hoje existe o Parque Nacional do Xingu, estritamente preservado. O filme mostra toda essa história de uma maneira tão fantástica e maravilhosa que reforça a minha opinião amadurecida de que o cinema brasileiro muito se desenvolveu nos últimos tempos e de que filmes brasileiros sobre sua história são maravilhosos e surpreendentes. Assim foi com a Olga e muitos outros.

(Daqui)

Citei os Villas-Bôas novamente porque sinto mais ou menos a mesma vontade desbravadora que eles, a mesma necessidade de conhecer o meu país que eles sentiram. A necessidade de proteger e defender os que infelizmente não são capazes, por não terem acesso às mesmas informações que nós. Eles lutaram pelos índios, eu não pretendo lutar somente pelos índios, mas também pelos brancos, pardos, amarelos e todas as outras cores e classes sociais existentes, em busca de um país no mínimo justo, em que todos os cidadãos tenham acesso aos direitos a eles previstos pela constituição. Um país em que todos nós sejamos realmente gente, não importando nada. Talvez eu morra ou me perca no meio do caminho e é por isso que resolvi registrar a sementinha dessa ideia em um local que jamais será esquecido, para que sempre que for possível eu me lembre da ideia inicial da coisa. Da minha vontade inicial. Parece utópico e grandioso demais, eu sei. Mas de que adianta sonhar se for sonhar em passar em um concurso público e viver uma vidinha normal até morrer? Isso não é sonho, é constatação de uma realidade sem graça. Minha vida não será sem graça. Sei disso.

You may say
I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day
You’ll join us
And the world will be as one

Imagine – John Lennon

0 thoughts on “Cápsula do Tempo

  1. Nossa, May, achei a ideia fantástica! De verdade. E eu vou ficar muito feliz se um dia se realizar. Se ainda estiver precisando de uma candidata a advogada e aceitar uma candidata do Rio, eu me voluntario. Sério mesmo (mesmo achando que meus pais terão um troço). Eu também tenho essa vontade louca de ser parte de algo grande e relevante uma vez na vida.

    Beijos.

  2. Ca-ram-ba, Mayrinha, que coisa mais lindaaaaa!! Com todo esse planejamento e essa vontade, tenho certeza que, pelo menos uma partezinha, você vai realizar! Estarei torcendo. Isso se, como disse a Anninha, você não aceitar algumas jornalistas junto com a trupe…

    Beijos! <3

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