Caraminholas

Rotina é aquela coisa chata com a qual somos acostumados a lidar desde que nos entendemos por gente. A primeira coisa que nos faz seguir uma rotina é a escola, porque é um compromisso fixo ao qual nossa vida gira em torno de. E a escola acaba por durar – no meu caso – de um ano de idade até vinte e dois, se eu resolver não fazer mestrado, doutorado e afins. Então, a vida pode ser repleta de incertezas, mas nós sempre teremos uma rotina a seguir.

E daí inventam as férias. Aquele período mágico em que o espaço tempo dá uma trégua e o universo diz “você pode ser livre!” e você acredita nisso, mas não consegue e acaba criando sua própria rotina de férias. A minha consiste em ficar acordada a noite inteira assistindo seriados, filme sou lendo algum livro, acordar no meio da tarde para comer alguma coisa, ficar no computador até a hora que cansar e resolver assistir os seriados, filme sou livro. E fazer isso por um mês seguido. Ou dois, ou quatro, no caso da greve do ano passado.

Querendo ou não, sempre acabamos por nos prender a alguma coisa, porque mesmo que meu elemento seja a água, eu gosto de certa estabilidade e acho que todos gostam. Acho que não existe uma pessoa sequer que consiga lidar bem de verdade com a fluidez da vida, ou seja, com “deixar acontecer naturalmente”. A gente tenta, a gente se esforça, a gente testa a tese estruturada pelo Exaltassamba em todos os âmbitos possíveis da vida e a gente vê ela falhar na maioria das vezes. Porque a gente busca pelo controle e nem é só pelo da televisão.

Nossa cabeça sempre acaba repleta de caraminholas e mesmo quando pensamos que não vamos mais planejar o futuro, antes de dormir estamos fazendo uma lista mental das tarefas que deveremos cumprir no dia seguinte e nós não cumprimos as tarefas no dia seguinte, ainda mais quando estamos de férias. Mas isso não nos impede de planejá-las. Saber que algo não vai dar certo, que não é assim, que é inatingível, que é errado e que a gente simplesmente deveria desencanar e viver sem caraminholas na cabeça por pelo menos um dia na vida, porque: “por favor, pensar cansa!”, não nos faz simplesmente desistir de pensar. A gente não consegue.

E  se uma vez meu professor de literatura disse que para escrever um poema surreal a gente precisava esvaziar a mente, segurar um lápis sobre o papel e depois ver o que tinha saído e que na maioria das vezes seriam rabiscos ou nós simplesmente dormiríamos, eu digo que, mesmo tendo conseguido rabiscos sem sentido uma vez, eu não nasci pro surrealismo. Dali e seu bigode que me perdoem, mas as caraminholas regem minha existência. E a rotina. E a rotina de férias que eu tento aplicar mesmo nos dias letivos e só me ferro.

0 thoughts on “Caraminholas

  1. Nossa, também sou consumida por esse tipo de caraminhola. Odeio chegar no meio das férias e perceber que caí na rotina de novo. Aliás, rotina das férias me angustia mais do que a rotina do dia-a-dia, porque pra última não tem jeito, mas nas férias não, poxa. Depois que eu entrei na faculdade e a greve acabou com a minha vida ficou pior, porque todos os meus amigos da faculdade vão embora da cidade nas férias, porque eles não são daqui, e eu sobro sozinha enquanto meus outros amigos de particulares e estaduais seguem com suas rotinas. E quando são eles que estão de férias e acham de bom tom me chamar pro bar quarta-feira 23h, sou eu que não posso porque quinta eu acordo cedo.
    Que grande droga essa vida.
    Também não nasci pra ser Dali.
    beijos!

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