Um rosto sorridente, mil e um status toscos que representam felicidade ou referências ou uma vida repleta de boas companhias e bons momentos. Noites de angústia. Solidão. Vontade de estar cada vez mais perto de todos aqueles com os quais temos contato apenas virtualmente. Vontade de tato. De afeto. De atenção verdadeira e não apenas curtidas em cada um dos seus status, ou tweets favoritados, ou comentários em textos. Atenção de conversa, de olho no olho, de encontros e desencontros, de desabafos, de angústias compartilhadas, de não ter vergonha da podridão contida em cada um de nós.

Foi-se.

Somos de carne e osso, mas nos mostramos como um rol de aura brilhante e purpurinada que sorri e saltita durante as vinte e quatro horas do dia. Enquanto nossos sonhos se esvaem devido à cada vez mais difícil possibilidade de realização. Enquanto nossas fronhas se molham a cada dia um pouco mais antes que a gente pegue no sono e se digne a sonhar novamente. Enquanto lemos ou assistimos qualquer coisa a fim de entrar em contato com uma realidade melhor que a nossa. Enquanto sofremos de uma insatisfação imensa, mas olhamos uns nos olhos dos outros e sorrimos. Sorrimos, fugimos, tentamos parecer que está tudo bem, vamos embora, voltamos e continuamos a ser fotos em redes sociais alheias. Continuamos a ser palavras ditas e não ditas, vontades realizadas e não realizadas, solidão completa e incompleta. Gente que mais parece de catálogo.

Jogados todos os dias a um mar de imagens perfeitas, feitas por gente que acredita que devemos ser perfeitos e estar sempre satisfeitos com tudo, acabamos por engolir todas as referências e tentar, fracassadamente, reproduzi-las. Sem saber lidar com as frustrações, os erros, as angústias e os dias ruins, qualquer coisa vira o fim do mundo. A gota d’água que faltava para o maremoto acontecer. Deprimimo-nos e temos vontade de morrer porque não conseguimos enxergar resoluções. Não temos a quem recorrer para novas perspectivas sobre as tais resoluções. Sofremos calados. Sofremos. O tempo todo. Por qualquer coisa.

E sorrimos nas fotos do Instagram. E fazemos parecer que a vida é cor-de-rosa, mesmo em momentos cinzas.

Porque insatisfação é chato. Porque gente assim é chata. Porque se já não é fácil conviver, imagine se você não tiver o sorriso de catálogo. A aparência que todos esperam. Os sonhos comuns. Os desejos comuns. Imagine como seria se você só quisesse saber de dormir e de reclamar do fato de não conseguir fazer nada além dormir, sonhar, acordar, escrever e reclamar para qualquer um. Porque se sair dos padrões já irrita, reclamar irrita ainda mais e reclamar do fato de reclamar tanto é o mesmo que pedir para ser eternamente sozinho. Porque enquanto você esperneia sobre sua unha quebrada, ou sobre seu câncer terminal, vai ter outra pessoa mais interessante e bonita, sorrindo e dizendo que a vida é linda. E é claro que ela vai ser mais interessante e fácil de lidar. E em um mundo catalogado ninguém escolhe o que é difícil.

Em um mundo catalogado, qualquer sinal de defeito já é motivo para mandar devolver o produto. Sempre haverá algo mais atrativo e barato no catálogo do lado, mesmo que tudo pareça igual, vai ter aquele detalhe diferente e talvez seja justo esse detalhe que faça a coisa funcionar. Ninguém está interessado em comprar peças para reparar os produtos estragados, afinal, os novos são mais arrojados e é mais garantido que funcione. A gente não precisa de coisas eternas, precisa de coisas funcionais. Não precisamos construir nada, já está tudo ali. É só pegar. Só entrar no jogo. Só fingir junto. Só ir.

Ninguém precisa saber que o travesseiro vai estar manchado de lágrimas ou que você gastou uma fortuna em remédios para conseguir lidar com a vida – que nem deve ser difícil, mas está fora do planejado, vira encruzilhada, você não sabe lidar e não vendem vidas novas nos catálogos ainda. Ninguém precisa saber que você vai se olhar no espelho e se achar horrível. Ou que você vai dormir com pelúcias ou que vai ler realidades paralelas para alimentar a vontade de ter uma vida mais lidável em algum momento. Ninguém precisa saber das dificuldades da sua encruzilhada.

É muito mais interessante se você estiver sorrindo e escrevendo sobre como a vida é, ou pode vir a ser, bela.

E quando um corajoso demonstra que está triste, que não sabe mais o que fazer e que gostaria de morar em outro planeta. Quando alguém coloca uma foto chorando ou em alguma situação de vulnerabilidade ou escreve um texto sem medo de reclamar do que estiver afim, causa um estranhamento terrível. E isso causa interação também, porque as pessoas gostam da sensação de que não estão sozinhas no mundo, mesmo se sentindo assim o tempo inteiro. Elas gostam de ver que não são as únicas a sofrer por besteiras e acabam por super-valorizar histórias e pessoas baseando-se nisso. Só que, enquanto a alegria pode permanecer por meses e meses sem nenhum descrédito, a tristeza e o sofrimento têm data de validade. E quando elas vencem, viram produtos abandonados nos tais catálogos, aqueles que ninguém compra ou dá atenção, então caem em desuso e a pessoa se sente coagida a voltar a sorrir e a postar fotos e textos de seu mundo colorido. Cada vez mais catálogo. Cada vez mais comum. Cada vez mais produto de um meio em que pouco se produz, porque tudo é reproduzível. Apenas mais um num álbum de produtos. Eu e você.

Comentários: