O Setembro Amarelo

Estou trabalhando em aprender a me permitir sentir coisas, sem racionalizá-las previamente. É bastante difícil este processo, porque sempre fui uma pessoa que pensa demais e faz de menos. Felizmente, uma terapeuta está me ajudando neste processo, de forma bastante eficaz. E isso me faz pensar em uma série de coisas – mesmo que a intenção seja aprender a pensar menos.

Setembro é um mês voltado para a prevenção do suicídio, algo chamado de “setembro amarelo”. A intenção é fomentar discussões sobre os problemas psicológicos e formas de contorná-los e superá-los. O plano de conscientização é promovido pelo Centro de Valorização à Vida, que possui uma linha telefônica de apoio para estes casos. Basta ligar e desabafar. E a ideia é bastante essa: que conversar pode ajudar muito.

Eu, como uma pessoa falante, concordo que conversar pode ajudar muito. Mas não é suficiente. Ter amigos não é suficiente. Ser amado não é suficiente. Problemas psicológicos e mentais são doenças e precisam ser tratados como tais. Isso significa que não é “falta de Deus”, não é “falta do que fazer” e não é “paranoia de quem pensa demais”. Não são coisas legais ou fáceis para quem passa por. Não é fácil de falar sobre, mas é menos fácil viver sentindo tudo o que nós sentimos diariamente. Porque a sociedade julga quem não se encaixa, julga quem tem qualquer tipo de problema. E julga mais ainda quando são problemas difíceis de ser explicados ou compreendidos.

Eu faço tratamento psiquiátrico e psicoterapêutico. Tomo medicamentos e faço terapia. Tento cuidar da minha saúde mental com todos os instrumentos que possuo. Tenho diagnóstico de ansiedade social, o que significa que 90% das vezes que eu recuso compromissos é simplesmente por não conseguir sair de casa para realizá-los. Mas como é difícil fazer as pessoas entenderem isso, eu acabo inventando desculpas.

É difícil conversar na minha própria casa sobre estas questões. Os medicamentos são entendidos como “algo para ficar acordado, porque ela tem muito sono” e a terapia basicamente ninguém entende porque preciso e porque me ajuda. Escuto bastante que eu deveria voltar a frequentar alguma religião. E que justamente por não sair e não me expor socialmente é que me sinto tão sozinha. Eu escuto que deveria conversar com as pessoas sobre o que eu realmente sinto, ao invés de inventar desculpas. E que não preciso me fingir de forte, em situações em que não me encontro assim.

Mas tudo isso existe apenas em teoria. Na prática, os problemas psicológicos são entendidos como besteiras e qualquer desculpa inventada faz mais sentido para terceiros do que dizer que você está em crise. E pessoas que se dispõem a ouvir você, na verdade estão apenas cumprindo alguma tabela para se sentirem bem consigo mesmas. Pouquíssimas realmente se dispõem a te ajudar. Pouquíssimas sequer se importam de verdade com as respostas para o já normal “tudo bem”. A maior parte das pessoas simplesmente não liga.

E é aí que iniciativas como o “setembro amarelo” podem ser problemáticas. A falsa empatia é uma realidade que machuca muito mais do que a solidão, para quem tem problemas psicológicos. Pessoas não preparadas e que não sabem ouvir ou responder às questões de quem está passando por situações difíceis, que colocam na cabeça que “precisam” ajudar, porque sabem que vão se sentir culpadas caso alguém próximo a elas cometa suicídio, mas que não fazem a menor ideia de como ajudar ou do que são estes problemas ou de como é viver com eles. Essas pessoas não deveriam ser motivadas a ajudar, a se dispor a conversar ou afins. Elas deviam ser motivadas a entender sobre os problemas, não a agir sobre eles. Porque elas podem piorar muito mais as coisas.

Se pessoas que fazem tratamento psiquiátrico e psicológico seguem tendo crises e dificuldades de se manter estável, pessoas que não tiveram o privilégio de um tratamento adequado são ainda mais vulneráveis a recaídas e a cometer suicídios. Se mesmo pessoas medicadas e em tratamento correm risco de vida, as que ainda não foram diagnosticadas, correm ainda mais. Quando a gente se dispõe a falar sobre saúde mental e a ajudar terceiros, estamos lidando com um fator de responsabilidade máxima: a vida de outra pessoa. E a gente não tem preparo para isso. Não somos médicos ou profissionais de saúde. No meu caso, sou alguém com uma vivência dolorosa nestas entranhas. Mas, mesmo assim, não sou indicada para falar sobre os problemas dos outros. Eu posso compartilhar minhas vivências e me dispor a ouvir, mas não posso fazer mais do que isso. Sempre estarei em posição de indicar tratamento especializado. E sempre estarei à espera de estes tratamentos sejam ofertados ao máximo de pessoas possíveis, com qualidade devida.

O Setembro Amarelo me incomoda mais do que me traz esperanças. Me incomoda isso de achar que uma conversa profunda cura uma depressão ou crise de pânico. Me incomoda achar que as doenças psicológica são apenas de causa social. Eu sou cientista social, estudei Durkheim horrores, mas ainda assim acho que nem tudo que acontece com a gente tem causa social. Problemas cognitivos existem. Problemas hormonais existem. Psicossomatismo existe. E tudo isso deve ser tratado com os profissionais adequados. Não com essa falácia de que “é culpa da sociedade, mas se você estiver rodeado de boas pessoas e com laços sociais fortalecidos, tudo ficará bem”. Nem sempre fica. As vezes a nossa cabeça simplesmente não funciona de forma benéfica para nós mesmos. E acreditar que é algo que se cura com conversa pode fazer com que a gente se sinta ainda mais deslocado e maluco, ao perceber que mesmo rodeado de gente bacana os problemas persistem. Então, bom, não seja essa pessoa que diminui a dor dos outros. E, principalmente, não seja essa pessoa que diminui a sua própria dor. Sua dor é válida. E, se ela existe, precisa ser ouvida, diagnosticada, tratada e levada a sério. Porque ela é séria.

Viver nem sempre é a melhor solução. As pessoas que optam pelo suicídio não são covardes. Não fizeram isso para provar algo para você. Tentar descobrir “porque fulano se matou” é uma tremenda burrice. Motivos não importam. O que importa é o ato. Se a pessoa teve a coragem absurda que um ato deste necessita, é porque ela estava sofrendo tanto que não conseguiu ver outra saída. As vezes, mesmo tendo tentado por anos. Mesmo tendo se tratado, mesmo tendo tido apoio e ajuda. As vezes a pessoa simplesmente não consegue lidar com ela mesma. E ela precisa ser respeitada nisso. A dor dos suicidas precisa ser respeitada. Nós, vivos, não temos o direito de falar por eles. De julgá-los. De tentar entender a dor deles. A gente não entende. Nunca vamos entender. Exceto se um dia decidamos fazer o mesmo. E toda a luta pela saúde mental não pode ser pautada em um “medo de se tornar suicida” ou de “ser próximo a um suicida”. Porque cometer suicídio não é causa, é a única solução que parece existir para aqueles que o fazem. O que precisamos é tentar continuar acreditando que existem outras soluções e cada um tem seu tempo para que esta ilusão acabe. A vida de todos nós perde o sentido as vezes e a forma como isso nos afeta é imprevisível. Se é imprevisível para nós, quem somos nós para tentar prever como os outros lidam com isso?

O Setembro Amarelo não deveria ser para estimular que pessoas despreparadas tratem de um assunto tão sério. Ele deveria ser para que as pessoas que já têm liberdade com suas próprias dores se sintam à vontade de falar sobre elas. Alto o suficiente para que a sociedade passe a entender que estamos aqui, seguimos vivendo e precisamos de atenção dos órgãos de saúde do país, mais do que de pessoas curiosas com “como um depressivo se sente”.

AVON, doze anos depois.

Quando eu tinha 11 anos, mãe e eu resolvemos que venderíamos AVON. A ideia era baseada no fato de que eu gostava muito de vender coisas e parecia prático. Na época, além de AVON eu fabricava e vendia minhas próprias bijuterias. E não eram coisas “mal feitas”, “de criança”. Eu fiz três níveis de curso e sabia fabricar as mais diversas formas de bijoux. Tinha clientes fixas, tanto para elas, quanto para a AVON. Na época, aprendi bastante sobre maquiagem e perfumaria, o que era muito divertido para mim. Não lembro o que motivou o término dessas produções e vendas, mas culpo o fato de eu ter mudado para uma escola mais difícil, que demandava mais tempo de estudo. A farra das vendas durou, provavelmente, pouco mais de um ano. Mas foi muito importante para eu aprender sobre lucros, organização, investimentos, planilhas e afins. Era algo que me fazia bem.

Há algumas semanas eu decidi que iria voltar a vender AVON. A ideia veio espontaneamente. Vendo os cortes do governo, comecei a ficar com medo de ter minha bolsa cortada. Como minha atual meta é ser doutora, não posso assumir compromisso de um emprego com horário fixo e, como sou bolsista, não posso ter carteira assinada. Assim, a AVON surgiu como boa forma de atender às minhas necessidades, trazendo uma coisa que me fazia falta: a leveza e a diversão.

Ocorre que, apesar de eu ser extremamente privilegiada e estar em duas pós-graduações públicas, recebendo bolsa do governo federal – algo que não é comum em nenhum outro país do mundo, o valor recebido não é suficiente para arcar com contas e, principalmente, com as demandas do próprio universo acadêmico. Neste ano, por exemplo, fui aprovada para participar em dois grandes eventos internacionais, muito importantes para a minha carreira. Porém, a inscrição de um deles custou quase R$300 e do outro R$500. Isso sem contar que não são eventos na minha cidade, então preciso arcar com transporte, estadia, comida e afins. Para piorar, grande parte dos valores não são parcelados. Ou seja: apesar de todo o suposto investimento que o governo federal faz em mim, ele não é baseado em fatos reais e, de modo algum, suficiente para que um estudante consiga arcar com custos de pesquisa e de vida pessoal. Se as agências de fomento querem exigir dedicação exclusiva dos pesquisadores, precisam proporcionar um ressarcimento monetário à altura. Como isso não ocorre, o que temos são cientistas movidos pela paixão por suas próprias pesquisas e carreiras, mas que precisam se virar nos trinta pra conseguir orçamento para sobreviver.

(in)Felizmente, não nasci e fui criada para ter uma profissão fácil e fixa, que me proporcione estabilidade financeira e uma rotina pré-determinada. Eu tenho o anseio de ser cientista, de pesquisar coisas que transformem a nossa forma de ver o mundo e que impulsionem a humanidade para fazeres melhores do que os atuais. E isso não é fácil, tanto pela estrutura governamental, quanto pela falta de apoio dos civis e pela pressão das agências de fomento, mesmo quando o fomento delas não é assim tão bom. Estamos em uma fase em que é melhor aceitar e agradecer o pouco fomento que temos do que tentar pedir por mais. Visto que até este pouco está ameaçado.

Em um mundo que valorizasse a ciência, eu obviamente não precisaria pensar em outras formas de conseguir dinheiro. Eu poderia me inscrever para todos os congressos que quisesse e realmente me dedicar exclusivamente às minhas pesquisas. Eu poderia conciliar as minhas pesquisas com a minha vida pessoal de forma equilibrada. Conseguiria manter minha sanidade mental sem precisar recorrer a diversos tipos de auxílios diferentes. Teria paz de espírito ao dormir de noite, pensando: “hoje consegui adiantar minha pesquisa, oba!”. No mundo real, preciso me justificar para família, amigos e conhecidos, pelo fato de ter 23 anos e não ter carteira assinada. Pelo fato de acreditar na ciência independente de financiamento privado e por acreditar que “cientista” é uma profissão tão fantástica quanto qualquer outra. Preciso passar por julgamentos e reafirmações constantes, visto que é mais valorizado eu dizer que vendo AVON do que dizer que faço dois mestrados. E, preciso começar a pensar em outras formas de ganhar dinheiro, porque fazer dois mestrados não é suficiente para isso. Porque ter um currículo Lattes muito melhor do que a maior parte das pessoas da minha idade, não me garante um futuro estável financeiramente. Porque, por eu não querer seguir os padrões tradicionais brasileiros, que veem “estabilidade” como sinônimo de concurso público, preciso, desde cedo, começar a me acostumar com os perrengues de ter uma vida independente, supostamente empreendedora e totalmente iludida com a crença de que posso fazer algo pelo mundo em que vivo.

É aí que a AVON surge como diversão e possibilidade de relaxamento, frente aos milhares de estresses que a vida acadêmica me provoca. Enquanto apresento maquiagens, perfumes, cremes e produtos capilares, dou vasão para aquela parte de mim que é suprimida enquanto ajo como cientista. Posso falar sobre coisas consideradas “banais” para o mundo acadêmico e, mesmo que por razões monetárias, consigo criar tempo para manter laços sociais, até então enfraquecidos. Então, vender AVON não é uma coisa “ruim”, de alguém que está “desistindo do que acredita”, pelo contrário. É uma forma alternativa de conseguir me mantendo no meu foco de vida. Porque com isso, consigo conciliar minha vida de cientista e uma nova forma de adquirir dinheiro e relações. Ambas as coisas que, atualmente, a vida acadêmica e de cientista tem dificuldade em proporcionar.

Para além das razões pessoais, a AVON me atrai pela história da empresa. Surgida em uma época onde a divisão de gênero da sociedade era muito forte e estabelecia que o homem era o provedor da casa, que trabalhava fora, enquanto a mulher deveria ser mãe e cuidadora, a marca foi um dos pontapés iniciais para o êxodo doméstico das mulheres, inicialmente nos Estados Unidos. As mulheres passavam a se reunir para vender e comprar produtos cosméticos, podendo aproveitar o tempo em que seus filhos estavam na escola e podendo, pela primeira vez, ter seu próprio dinheiro, que poderia ser gasto com aquilo que elas quisessem. Mesmo sem a consciência de conceitos como “feminismo” ou “empoderamento”, a marca foi essencial para iniciar essa transformação empírica na vida das mulheres, que atualmente são, em grande maioria, no Brasil, as principais provedoras da casa.

Além disso, a marca foi uma das primeiras a extinguir os testes em animais, tendo-os substituído pelos testes in vitro e em voluntários humanos desde 1989. Nos produtos fabricados e vendidos no Brasil atualmente, portanto, não há a utilização de animais. Entretanto, a AVON permanece em todas as listas que falam sobre as marcas que testam em animais. A razão foi a expansão da marca para o mercado chinês, que exige que todos os produtos cosméticos vendidos no país passem por testes em animais. Dessa forma, todas as marcas que vendem na China precisam realizar estes testes. Entretanto, grande parte delas afirma que os testes são realizados apenas pela obrigatoriedade legal e que afetam menos de 1% do total de sua produção. É claro que a marca poderia ter escolhido não pertencer ao mercado chinês, mas considerando que estamos em um mundo capitalista e que a marca é estados-unidense e, com isso, intrinsecamente imperialista, seria bastante inocente acreditar que a consciência ambiental pesaria mais do que o aumento de capital. Acredito, porém, que isso não é uma culpa que deva contar negativamente para a marca, mas sim para o sistema em que vivemos – que afeta muitas outras marcas e, com isso, prejudica diversos animais inocentes.

Apesar destes testes, entendidos como “obrigatórios”, a empresa possui grande responsabilidade social. O Instituto AVON atua contra o câncer de mama, destinando parte da renda da empresa para a causa, que também proporciona diversas campanhas conscientizadoras, disseminadas nos catálogos da empresa. A questão ambiental também aparece nos papéis utilizados, que passam por um processo de reciclagem. É claro que há muito a melhorar, visto que a área de cosméticos é ainda uma das maiores produtoras de poluentes. Entretanto, saber que a empresa se importa minimamente com isso já é um bom passo.

Outro fator positivo é o fato de a marca, mesmo sendo internacional, realizar campanhas exclusivas com celebridades brasileiras, inclusive aquelas que estão em crescimento de popularidade. A marca visa atingir a maior quantidade possível de mulheres, sendo esse o seu público alvo principal. Mas há também uma crescente linha de produtos de beleza masculinos. Além dos cosméticos, a AVON oferece produtos para casa, além de acessórios, roupas e calçados, de marcas reconhecidas – como Havaianas, Moleca e Olimpikus. As compras realizadas no catálogo seguem os direitos do consumidor brasileiro, podendo ser trocadas e retornadas. Além disso, todos os produtos são validados pela ANVISA e possuem data de validade, fabricação e lote incluídos em todas as suas embalagens. Além de tudo isso, a marca consegue manter preços mais baixos do que o de suas concorrentes, com qualidade paralela a elas. A parceria com a marca grega Korres têm trazido produtos de qualidade internacional, com preços em real. O mesmo tem ocorrido com os investimentos na renovação da linha de perfumaria.

Ou seja: estar de volta à AVON é benéfico para a minha vida pessoal por N razões. Além do fator monetário, a empresa me desperta coisas positivas e o anseio de fazer algo para além do universo extremamente racional e estressante da academia, me é relaxante.

Self Image 2016

          Eu já me senti um alien. Isso foi no ensino médio, onde eu era a personificação da chata “diferentona“. Acontece que o meio em que eu estava inserida era, de fato, bastante diferente de mim e isso fazia com que eu me sentisse uma pessoa de outro planeta. Tanto que em uma época, esse foi o nome do meu blog. Na faculdade eu percebi que não era tão diferente assim e comecei a criar raízes com alguns lugares e pessoas, o que foi bastante diferente para o modus operandi de até então. Então mudei o nome do blog para Ancoragem, porque era essa a sensação do momento. Percebi, porém, que o processo de ancorar-se à vida não é tão instantâneo e que eu vou ficar nessa por anos a fio ainda.

          De lá para cá não só meu espaço de escrita mudou de nome e foco, como eu também. E tudo isso foi incrível.

          Em 2016 me encontro recém formada, após ter conseguido terminar a faculdade em quatro anos – o que não é lá tão comum entre as pessoas do meu curso. Prestes a iniciar minha primeira pós graduação, em uma universidade que finalmente terá árvores para que eu fique sentada embaixo lendo. Passei pelo meu primeiro processo seletivo para um emprego incrível, mas tive que recusar por causa do meu tornozelo. Tive minha primeira cirurgia marcada para o próximo mês e consegui engrenar em uma ótima rotina literária.

          Já não consigo andar com a destreza que fazia há algum tempo. Usar salto ou dançar é praticamente impossível. Enquanto há alguns anos meu sonho de vida era ter um motorhome para conhecer o Brasil, a verdade é que agora com quatro horas de carro eu já estou mais enjoada do que o batman em um navio desgrenhado. Enquanto o sonho anterior era trabalhar em um lugar ao ar livre e dinâmico, embora eu continue odiando cubículos, preciso começar a me contentar de que não vou conseguir passar muito tempo da vida em pé e que o melhor é ficar sentada por uns tempos mesmo.

Mas não canso de tentar descobrir.

          Tenho tido dificuldades em expor minha vida particular para o grande público – algo que se reflete neste espaço. Enquanto há alguns anos esse era o palco principal de desabafos, agora eu desabafo apenas em pensamentos ou em conversas com amigos incríveis – que não vão embora com o passar dos anos, ainda bem. Continuo extremamente tagarela e com vontade de descobrir coisas novas, mas ainda tenho muitos pés atrás no universo gastronômico. Embora eu adore explorar coisas novas, preciso ter certeza de onde elas vieram e se estão bem limpinhas.

          Aprendi que sou uma pessoa canina e virei melhor amiga de uma labra-lata incrível. Tenho três tatuagens programadas para fazer assim que tiver dinheiro disponível. Continuo a gastar quase tudo que tenho em livros. Sou viciada em séries, mas já não tenho paciência de fazer download delas. Tenho baixa resistência para com vida social e me canso muito rápido do contato com pessoas.

Coisas em que eu acreditava – e agora não mais.

          No quesito pessoas, inclusive, acho que melhorei bastante. Aprendi a lidar melhor com a minha família, embora ainda ocorram pequenos choques. Em geral, nos damos bem. No quesito amizade, não posso reclamar, afinal sempre que preciso de companhia, sei exatamente a quem recorrer. E raramente elas me decepcionam. Além de tudo, tenho um namorado – algo que eu considerava impossível até uns dois anos. E a gente se supera e cresce a cada dia que passa juntos e eu aprendi a ficar tão feliz pelas conquistas de outra pessoa quanto fico com as minhas próprias. E isso é demais.

          Se antes eu tinha dúvidas sobre Deus, agora eu tenho certezas. Descobri que meu problema era de fato com o Deus cristão e com toda a vivência cristã, que não condiz com a sua teoria e isso realmente me incomoda. Encontrei na Umbanda uma resolução para a maior parte dos meus pés atrás, mas encontrei também vários outros e pude passar um bom tempo estudando e vivenciando esse universo completamente diferente daquele em que eu cresci. E achei sensacional.

          Por essas e outras, acredito estar fazendo um bom trabalho nessa coisa chamada “vida” e espero poder continuar com a oportunidade de seguir em frente neste processo por muitos outros anos. Afinal, o mundo continua grande e cheio de oportunidades. E elas continuam a me fascinar.

Recado para o universo

          A ideia inicial desse post é do Eric, no Youtube. Soube dela através da Milena e decidi que vou fazer isso anualmente.

          Pensando em dar mais vasão a outra das coisas que amo: escrever, decidi criar uma Newsletter. A intenção é tratar de coisas um pouco mais íntimas do que as que aparecem aqui, tudo narrado pela Amy e com uma mistura entre ficção e não-ficção. Será um exercício bacana para mim e os e-mails serão enviados quinzenalmente. É claro que todo mundo pode se inscrever e responder aos textos quando desejarem.

Por que o “He for She” me representa

          Sou recém formada em ciências sociais pela UFPR. Pouco antes da metade do meu curso, tive que escolher entre fazer licenciatura ou bacharelado. Uma vez tendo escolhido o bacharelado, tive que escolher entre as linhas de sociologia, antropologia ou ciência política. Escolhi antropologia, pois se existisse uma graduação inteira só disso aqui em Curitiba, era nisso que gostaria de ser formada.

         Dentre as várias responsabilidades do trabalho do antropólogo, a que sempre mais me chamou a atenção foi a de mediador. Vejo o antropólogo como aquele que é capaz de trazer para o universo acadêmico, burocrático e midiático os problemas vividos por minorias marginalizadas e esquecidas, que ninguém reconhece a existência. Uma vez que o trabalho antropológico se consolida indo ao encontro destas pessoas e modos de vida e comprando várias de suas brigas, vejo como de sua responsabilidade trazer visibilidade para os problemas sociais e propor soluções para eles.

          Mas é claro que o antropólogo não pode fazer nada disso sem reconhecer o seu local de fala. Isto é, fica mais fácil falar sobre as dificuldades de ser um aborígene australiano hoje em dia quando se está em um Congresso bem renomado na Europa. Porém, há diferenças entre pesquisar os aborígenes australianos e militar por eles, auxiliando-os na resolução de seus problemas sociais. Muitos antropólogos acreditam que a militância atrapalha a objetividade etnográfica e torna o trabalho obsoleto, eu, por outro lado, acho completamente sem sentido se aprofundar em questões alheias se você não está disposto a fazer nada por elas. É claro que há uma enorme diferença entre eu, pesquisador, falando sobre os aborígenes australianos e um próprio aborígene falando sobre si. Porém, o meu discurso pode atingir locais que o dele não atingiria. E cabe a mim ampliar a potencialidade da fala dele, mostrando a importância de dar voz a quem não tem.

          Uma pensadora que trata muito bem do assunto é Gayatri Spivak. Como teórica crítica indiana que trabalha na Columbia University (Estados Unidos), ela publicou um livro chamado “Pode o subalterno falar?” (que é bem curtinho e tem tradução para o português), onde discute sobre a possibilidade de fala de subalternos – não apenas na academia. Ela ressalta muito (a falta do) o caráter militante dos pensadores e se coloca em comparação com eles. Como mulher e indiana, sua voz demorou muito mais para ser ouvida do que a de muitos homens europeus que vieram antes dela e apesar de agora ela conseguir ser ouvida, há ainda uma série de assuntos sobre os quais gostaria de tratar e que são silenciados e uma série de pessoas que gostaria de ajudar e não tem a oportunidade. Spivak ressalta muito a necessidade e as virtudes de um mediador, mas também aponta os perigos de uma mediação que silencia a voz do nativo (que é o terror de todo o antropólogo) e nos deixa a eterna dúvida sobre a real possibilidade de o subalterno ser ouvido.

Quando só o mediador fala, será que o subalterno é realmente escutado?

          A meu ver, a proposta da ONU Mulher denominada “He for She” e que tem como embaixadora a atriz Emma Watson corresponde muito com esta discussão. A proposta é que os homens entendam a necessidade do feminismo e percebam o quanto suas próprias vidas são negativamente afetadas pelo fato de viverem em uma sociedade patriarcal e machista. Com esse entendimento e a devida reflexão sobre como se as coisas são ruins para eles, para as mulheres são muito piores, a ideia é que estes homens se tornem agentes de mudança, através da mediação. Vulgo, que eles sejam pró-feminismo de fato.

          Não acredito que homens possam ser feministas justamente por a questão do “mal mediador“, que eu falei que a Spivak discute. Se o movimento que busca pela igualdade de um gênero que está sempre sendo visto como o “segundo” (como bem aponta Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo“) não for encabeçado por ele, não faz sentido. Porém, o fato de as mulheres estarem dirigindo a luta pela igualdade não impede que os homens as acompanhem na carona do carro. E, a meu ver, é essa a proposta do “He for She“. Como a própria Emma Watson ressalta em seu discurso, não é possível lutar pela igualdade se apenas metade do mundo está disposta a construí-la. O risco de um feminismo que exclui os homens é de virar tão autoritário e excludente quanto o próprio machismo e não é isso que a gente quer.

          A ideia apresentada pela ONU é justamente de tornar os homens bons mediadores do processo. Ou seja, se um homem é pró-feminismo e escuta uma piada machista vinda de seus amigos, ao invés de rir vai explicar porque está errado. Ele não vai ser escroto com outras mulheres e não vai, por conta própria, propagar a opressão e o silenciamento – hoje generalizados. Ele vai se esforçar para que em suas atitudes as mulheres sejam respeitadas e para propagar, com bom senso, a mensagem de que independente do gênero, raça, religião ou orientação sexual, as pessoas devem ser tratadas socialmente igual. Ele vai indicar a amiga bem sucedida para ocupar o cargo de sua empresa que acabou de ficar disponível. Vai ler livros de autoras femininas e procurar filmes dirigidos e protagonizados por elas. Ele vai aprender a valorizar as mulheres tanto quanto valoriza os homens, indo muito além de aparências físicas ou outras mesquinharias.

          O feminismo que eu acredito é assim mesmo: repleto de mediadores. Nos locais em que há mulheres que querem falar, elas podem e devem. Nos locais em que elas não estão presentes, mas há homens pró-feminismo, eles precisam falar também. Nos locais onde há mulheres negras falando sobre sua situação, as brancas devem ouvir e aprender. E quando não houverem negras por perto, elas têm que mediar a luta delas. O mesmo quando se tratar de mulheres gordas, lésbicas, transexuais, deficientes físicas ou mentais e ainda as de diferentes religiões. O feminismo não existe para excluir ou seccionar mulheres, pelo contrário, a ideia é agregar todas elas – e não apenas elas. Sabem a música em que o John Lennon pede pra gente imaginar um mundo igualitário e gostoso de se viver? É por esse mundo que o feminismo luta.

          Ninguém tem que roubar o protagonismo ou a voz de ninguém, mas todo mundo tem que ter empatia e sororidade, comprar a briga da colega e falar por ela em toda discussão que levantam algo contra ela. Não temos que ser mulheres fortes apenas no que diz respeito às nossas dores e sofrimentos. Pelo contrário, temos que nos levantar e lutar juntas pelo bem de todas nós. Para que um dia a gente deixe de ser o “segundo sexo” e vire um sexo tão bom, completo e auto-suficiente quanto o masculino. Porque na prática a gente sempre foi tão importante quanto, só nunca tivemos esse reconhecimento. E é por isso que lutamos.

          Um dos frutos muito legais de um feminismo bem refletido, pensado e trabalhado é poder observar entrevistas como a que segue, onde Emma Watson conversa com Malala Yousafzai e as duas se respeitam e constroem. É poder observar as palestras da Chimamanda Ngozi Adichie. É poder ler os textos das incríveis mulheres brasileiras. É poder observar negras ganhando prêmios e sendo protagonistas. É ver crescimento de discussão, reflexão e repertório. E tudo isso depende única e exclusivamente de cada uma de nós.

Diário Reumático

           Sou portadora de artrite reumatóide juvenil (ou artrite idiopática juvenil) e faço tratamento contínuo para controle da doença desde que eu tinha cinco anos, agora, com vinte e um, somo dezesseis anos de tratamento. Já passei por diversos medicamentos por via oral, entre anti-inflamatórios, corticoides, modificadores de doença e vitaminas em geral. Atualmente, utilizo um medicamento mensal endovenoso, que tem um agente biológico específico para ajudar a não progressão da doença.

    Atualmente há diversos tipos de tratamento disponíveis e além dos cientificamente comprovados, há vários métodos alternativos para controle da artrite. O principal diz respeito à imunidade. Considerando que a doença é auto-imune, métodos que mantenham a imunidade alta tendem a diminuir os picos de dor e inflamação. Porém, isso é bastante difícil de se fazer.

     Como é uma doença subjetiva, indicar tratamentos à esmo não é adequado, sendo absolutamente necessário o acompanhamento contínuo com um reumatologista de confiança. Porém, é importante deixar claro que apenas o tratamento medicamentoso, sem o auxílio de exercícios adequados e uma dieta com alimentos que auxiliem o sistema imunológico a se manter bem, não é suficiente. Remédios, exercícios e alimentação são aliados para um bem estar adequado mesmo com a doença em atividade. Porém, tanto os exercícios quanto a alimentação precisam de acompanhamento médico adequado, pois correm o risco de piorarem a situação, ao invés de ajudar.

        É bastante possível realizar as atividades do dia-a-dia e seguir normalmente com a vida mesmo tendo artrite. Porém, em alguns casos a forma de realizar essas atividades precisa ser adaptada.

       Visando compartilhar um pouco da minha experiência com a doença, a fim de mostrar que ela é bem mais comum em pessoas não-idosas do que parece (só a minha médica tem três mil pacientes – e ela é pediatra!!!) e tranquilizar tanto outros portadores quanto pais, mostrando que é sim possível lidar com todo o tratamento e as visitas médicas e ainda assim cumprir atividades normais, resolvi criar uma TAG em meu canal do Youtube intitulada “Diários Reumáticos“.

         A ideia é fazer pelo menos um vídeo mensal falando um pouco sobre a experiência de conviver com a artrite, os altos e baixos, os tratamentos que já passei e como reagi com eles e afins. Conforme a receptividade dos vídeos, pretendo chamar outras pessoas que conheço e que também convivem com a doença e também médicos especialistas no assunto para conversarem um pouco com a gente. A ideia é trazer para o dia-a-dia um assunto que é difícil e doloroso para os portadores, que muitas vezes sofrem preconceitos e fazem de tudo para esconder sua condição. Acredito que esta seja uma forma de mostrar para todas as pessoas que sofrem com a doença que não somos menores ou menos capazes que o resto do mundo, apenas um pouco diferentes. Espero poder ajudar outras pessoas, mas caso não seja possível, tenho certeza que neste processo estarei ajudando a mim mesma.

           Segue o primeiro vídeo da TAG: