O coletor que liberta

           Há alguns anos eu, inocente, elegi o absorvente interno como uma das melhores invenções da humanidade. Mal podia imaginar que em tão pouco tempo algo ainda mais libertador, confortável e seguro surgiria em minha vida.

           Menstruar sempre foi uma coisa positiva para mim, graças à minha mãe, que me fez enxergar a situação pelo lado da saúde. Ou seja, sangrar todo mês significa que estou saudável e não estou grávida. Com o passar do tempo, pode-se dizer que comecei a gostar da coisa, a ponto de achar muito estranho quando atrasa um dia sequer. Ok, sou um tanto sortuda neste aspecto: não sofro com cólicas, enxaquecas ou outros sintomas complicados. O máximo que ocorre é ter muita vontade de comer chocolate e ficar com o psicológico desregulado, mas isso pode acontecer em qualquer outra época da vida também, logo, não associo muito ao período menstrual em si.

           Não me lembro exatamente onde tive contato com essa nova invenção sensacional pela primeira vez, mas sei que assim que o fiz, fiquei curiosa, mas não tive coragem imediata. Entrei no grupo do facebook que discutia sobre os coletores menstruais e comecei a acompanhar os depoimentos de usuárias. A maior parte das meninas ressaltava os lados positivos: liberdade, conforto, segurança e poder ficar sem calcinha, mesmo menstruando. Mas havia os comentários negativos: dificuldade para colocar ou tirar, vazamentos, aumento de dores e afins. No entanto, o grupo é muito diverso e bem informado e as moderadoras tentam manter em evidência todas as explicações possíveis sobre o produto. Assim, em todos os tópicos com comentários negativos, logo vinha alguém com dicas de resolução do problema e tempos depois a menina estava satisfeita novamente.

           Com as leituras, aprendi que a lavagem era prática. Que no decorrer do dia, quando eu esvaziasse o copinho, precisava apenas enxaguar com água corrente e recolocá-lo. Aprendi diversas maneiras de dobrar o coletor para inserir e métodos para retirar. Aprendi também que com ele eu conseguiria trabalhar a musculatura vaginal e mantê-la forte, o que é bastante importante para evitar incontinência urinária e afins. E, no grupo, aprendi sobre resolução para diversos problemas íntimos, como a candidíase e outros incômodos. É sensacional a forma como diversas mulheres desconhecidas, unidas por um produtor revolucionário, conseguem conversar sobre coisas que muitas vezes não têm liberdade para falar com pessoas que são próximas. É incrível a quantidade de coisas que podemos aprender juntas quando nos dispomos a nos ajudar. Eu realmente adoro estes grupos!

           Enfim, para quem não sabe do que estou falando, o coletor menstrual é a forma higiênica, sustentável, segura, reciclável e libertadora de lidar com a menstruação. Ele é um copinho, em formato de funil e feito com silicone hipoalergênico, testado por dermatologistas. O material é dobrável, de forma que fica do tamanho de um absorvente interno comum quando inerido no canal vaginal. Ele deve ser inserido em direção ao ânus, para ficar próximo ao colo do útero. Após a inserção, é necessário conferir se ele abriu, pois é neste momento que ele forma um vácuo que garante que o sangue não entrará mais em contato com o seu corpo. A partir daí, todo sangue que sair do colo do útero vai direto para o coletor, que deve ser trocado em, no máximo, doze horas, mas depende muito do seu fluxo sanguíneo e sua rotina.

           Para retirar, basta segurar o coletor pelo cabinho e fazer um pouco de força com os músculos vaginais, que ele é empurrado para fora, então você retira, esvazia, enxágua e recoloca. No começo, este processo pode ser um pouco demorado, mas conforme se pega prática, dura apenas alguns segundos. Ao final e início do ciclo é recomendado que ele seja fervido, em um recipiente não metálico, por cerca de cinco minutos. É suficiente para esterelizá-lo. No período entre um ciclo e outro, é recomendado que se encontre um local seco e sem contato com o Sol para guardá-lo.

           Antes de comprar o seu coletor, que custa em torno de setenta reais, é necessário verificar algumas coisas em seu corpo. A primeira delas é a altura de seu colo do útero, pois isso influencia diretamente no tamanho de coletor a ser comprado. Para saber isso, basta inserir um dedo no seu canal vaginal e ver a distância do colo. É normal que no período menstrual o colo do útero desça um pouco. Se você mal coloca o dedo e já o sente, tem colo baixo. Se coloca quase o dedo inteiro e ainda não acha, tem colo alto. Leve isso em conta na hora de escolher o tamanho e modelo de seu coletor. Outro fator importante é a idade e a quantidade de partos que a mulher já teve. São vários os modelos e tamanhos e é praticamente impossível que a mulher não encontre algum com o qual se adapte. O valor parece um pouco alto, porém o mesmo coletor pode ser usado em média por dois anos, havendo relatos de mulheres que utilizam o mesmo há dez!

           A sensação maravilhosa de nunca mais precisar colocar um absorvente, que fica todo sujo de sangue e fazendo atrito com a sua pele até que você possa trocá-lo, é ótima. Não precisar ter contato com o tecido sintético do qual os absorventes descartáveis são confeccionados é muito bom! Até a pele da região sente a diferença. Esse, sem dúvida, é um produto que eu recomendo para todas as mulheres.

           Vou deixar o link dos sites das marcas que conheço e ouço falar melhor:

E também um vídeo que fiz já há algum tempo, sobre o tema:

Há coisas que provas não consertam.

          O resultado do ENEM foi ao ar no último final de semana e a surpresa ocorrida foi a seguinte: mulheres feministas, que passam o ano inteiro militando pela causa, tiraram notas piores na redação do que homens que criticam e xingam o movimento feminista durante o ano inteiro. Por que isso aconteceu?

          Tenho duas razões em ordem de hipótese:

          1. Fuga ao tema

          Quando a pessoa milita por determinada causa, sofre de excesso de argumentos para defendê-la. Então, o que pode ter ocorrido é que as meninas se confundiram e acabaram falando mais sobre feminismo do que sobre violência contra a mulher – que era o tema da redação em questão. Veja bem: o feminismo luta para combater diversas coisas, dentre elas a violência contra  a mulher. Mas as duas coisas não são sinônimas. Então, utilizar-se da redação para um discurso feminista que não versasse a respeito da violência contra a mulher não traria um bom resultado. Infelizmente, a alegria por se sentir representada na maior prova de acesso à universidade do Brasil, pode ter feito com que algumas pessoas perdessem o foco. Em se tratando de ENEM, isso não é novidade. Todos os anos, a maior quantidade de notas baixas nas redações ocorrem por causa de fuga ao tema.

     2. Redação é receita de bolo

          Veja bem: se a pessoa estuda em um cursinho ou escola privada, onde o terceiro ano do ensino médio já vem com cursinho embutido, se ela faz aulas particulares e afins, aprende desde o início do ano preparatório para o vestibular a seguinte coisa: redação é receita de bolo.

          O que isso significa? Que há uma série de proposições a serem seguidas e que se você construir o argumento, defender e mostrar alguma aplicabilidade para ele, vai conseguir a nota. Essas escolas de alto escalão dão um foco muito grande para o ensino do método de fazer redações nas provas de acesso à universidade e os alunos têm a oportunidade de aprender uma coisa muito simples: basta seguir aquele passo a passo, que você consegue. Não precisa de conhecimento prévio sobre o tema. A própria prova do ENEM fornece uma série de textos, gráficos e afins que inserem o estudante no tema, para o caso de ele nunca ter ouvido falar sobre o assunto. Então, se você consegue seguir aquela receita, utilizando-se simplesmente do que a própria prova te forneceu, pronto.

          Assim sendo, não é necessário ser feminista, militante do movimento, ter consciência de que violência contra a mulher é errado ou qualquer coisa semelhante. Porque, no fim das contas, aquilo ali é a redação que vai te dar acesso à universidade, não é um medidor de caráter. Se você escrever uma boa redação e for uma pessoa horrível que canta meninas na rua, acha estupro um ótimo jeito de manter o relacionamento e se a mulher não te quiser mais, considera bastante razoável matá-la, não vai importar. Pelo contrário, você vai ser o escroto que teve acesso à universidade, enquanto a garota que sofre com violência diariamente e nunca teve coragem de contar pra ninguém, ficou ali, paralisada e não conseguiu escrever duas linhas.

[TW]

          Agora eu preciso falar para vocês sobre Trigger Warning (aviso de gatilho). Eu participo de muitos grupos no facebook de acesso exclusivo para garotas, onde discutimos coisas que, se fossem feitas em meio a homens, nos ridicularizariam em dois segundos. Nestes grupos, é necessário que antes de publicar uma postagem você deixe algumas palavras entre chaves, para explicar do que ele se trata. As mais populares são [OT], que significa Off Topic e demarca um assunto que não seja correspondente ao tema principal do grupo, e [TW], que demarca quando a publicação pode trazer lembranças de traumas relacionados ao machismo.

          Por exemplo: o grupo é sobre cultura nerd, mas saiu um texto muito legal que discute a gordofobia e a ditadura da beleza. Esse texto tem que receber as duas marcações, por quê? Bom, porque o texto é direcionado para um nicho específico de discussão – que envolve beleza e pessoas gordas – e isso é um assunto que agrega milhares de traumas, construídos durante toda uma vida. Se a pessoa é gorda e não se sente confortável com discutir isso em um grupo do facebook, ela simplesmente não lê a publicação. O aviso de gatilho serve para mostrar exatamente que a discussão a seguir vai versar sobre assuntos que podem te fazer reviver seus maiores traumas. E, bom, pelo menos nos grupos que participo, esse aviso é levado muito a sério.

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          Voltando ao assunto do ENEM:

          Temos todo esse cuidado para abordar temas delicados e que envolvem o psicológico das pessoas em grupos do facebook. Mas o ENEM pede para que todos os alunos do Brasil escrevam articuladamente sobre como a violência contra a mulher cresceu e é fatal. Se eu sofro na pele de formas catastróficas essa violência todos os dias da minha vida, você realmente espera que seja tranquilo realizar essa atividade? Não passa pela sua cabeça que ao pensar em argumentos eu vou me lembrar de fatos e de situações tenebrosas e só vou conseguir pensar em chorar, fugir ou fazer o que muitas garotas fizeram e utilizar a prova como denúncia? “Ah, mas isso é ótimo, uma oportunidade de sair do silenciamento“, bom, eu concordo. Porém das cerca de 55 pessoas que o Ministro da Educação afirmou terem utilizado a redação para fazer denúncias, quantas atingiram nota suficiente para ingressar em algum curso superior? Não foram elas também alvo da alegação “fuga ao tema”? Essas informações eles não nos passam.

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          Então, imaginem a cena comigo: você quer muito entrar na faculdade e passa o ano inteiro fazendo o que pode para se dedicar aos estudos. Não consegue ter a mesma dedicação que o colega que estuda em escola privada a vida inteira, porque você sempre teve que estudar na escola pública e ao voltar para casa realizar uma série de afazeres domésticos que te impediam de estudar da forma que gostaria. Mas, como é ano de vestibular, você se esforça ainda mais. Dorme menos para conseguir utilizar melhor o tempo e faz todos os sacrifícios que consegue.

          Só que nos outros âmbitos da sua vida, tudo continua igual, ou seja: seu pai bate em você e na sua mãe toda vez que chega bêbado em casa. Seu namorado diz que quer transar e nem espera você dizer se está ou não afim para começar os trabalhos. Seu irmão nunca lava a própria louça ou roupa, sobrando para você. E quando você sai sozinha para comprar pão tem que lidar com quatro ou cinco carinhas dizendo que você é “linda” e “gostosa“. Então você se agarra com todas as forças à ideia de entrar na universidade, ninguém da sua família conseguiu isso ainda. Se você ingressar na universidade pública, que é gratuita, vai poder ter um emprego decente em breve e sair de casa, dar um jeito de ajudar a sua mãe e construir a sua vida longe daquele ambiente que te maltrata.

          Só que você chega pra fazer a prova que te dará essa oportunidade e tem que escrever justamente sobre o maior trauma da sua vida, de forma técnica e coesa, sem fugir do que é pedido – e apresentar alguma proposta de resolução do problema. A sua forma de resolver seria entrar na universidade, mas agora precisa escrever uma coisa global e generalista na prova e nada vem à sua mente.

          Desculpem-me, mas me parece cruel. O assunto já não é abordado em todas as escolas. O Brasil já não tem as melhores escolas públicas que existem. Colocar esse tipo de questão, sem ressalvas, para alunos de escolas que têm mensalidade de R$3000 e alunos que tem renda familiar mensal de um salário mínimo, em um país onde não há igualdade nenhuma de ensino, pois a diretriz escolar é ampla o suficiente para que cada escola lecione o que bem entender, é provar que não se conhece o país onde se mora. É dizer que está promovendo a igualdade e ampliando as oportunidades com provas que apenas minam elas ainda mais. Vivemos em uma sociedade hipócrita e mesquinha, que até hoje não entendeu a razão para a existência de cotas, que considera a pessoa que não vai para a universidade “vagabunda”, que denigre e oprime mulheres dia após dia em todas as situações possíveis. Se nós temos como melhorar? Claro que sim! Mas precisamos fazer isso provendo educação de qualidade desde o maternal até o pós-doutorado. Para todos e não apenas para quem pode pagar. Enquanto a gente não conseguir oferecer oportunidades iguais e formações equivalentes, será absurdo colocar em provas de ingresso ao ensino superior temas que afetam tão subjetivamente algumas pessoas. É desrespeitá-las e desconsiderar seu sofrimento. Ou achavam o que? Que quem faz ENEM não sofre violência?

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          É inocente pensar que trazer um tema desse porte em uma prova de ingresso à universidade vá trazer alguma mudança efetiva para a vida das mulheres. A discussão é válida e louvável, mas deve ocorrer em outras situações e ao longo de um grande período. Deve gerar reflexividade, é um tema muito sério! Não é algo para cumprir uma receita de bolo aprendida no cursinho e passar na universidade. É uma questão que precisa ser refletida a ponto de fazer as pessoas mudarem a si mesmas e não se faz isso ignorando o problema o tempo inteiro e trazendo a tona em uma situação dessas. Porque ao invés de promover igualdade, isso reforça as diferenças e inibe que vítimas de agressão consigam pensar tão claramente sobre o assunto quanto não vítimas.

         E o que mais me incomoda em toda essa situação é que a alegria de se sentir representada e ter suas questões abordadas em caráter nacional foi tão grande para os movimentos feministas, que a tão pregada sororidade foi esquecida. Sororidade é um termo que prevê empatia, ou seja, o sofrimento do outro é respeitado, mesmo que seja diferente do seu, e por ser mulher e ter um objetivo comum com aquela pessoa, você se junta a ela contra o que a oprime – mesmo que não te oprima. Enquanto muitas feministas escreviam que “machistas não passarão no ENEM”, poucas pensaram nas vítimas que também não passariam. E considero isso um problema gigante do movimento e um reflexo enorme do fato de ser um movimento encabeçado por brancas, acadêmicas e de classe média/alta.

Das Ende

Há quatro anos eu fiz um vestibular para ciências sociais e saí chorando da prova de redação, porque a minha sobre a Amy Winehouse não tinha nada a ver com a de todo o resto das pessoas. Porque eu não sabia nada de sociologia. Porque eu certamente tinha zerado tudo. Fui olhar o resultado pessoalmente, no dia do banho de lama, acompanhada por meus pais e já avisando que não queria ser retaliada caso não passasse, afinal, fazia parte da vida. Acabou que eu passei, me sujei de várias coisas e comecei a vida universitária.

Passei por duas greves, uma que durou quatro meses, logo no meu ano de entrada, e outra de um mês, no meu ano de saída. Reprovei em duas disciplinas sem nem ter ido para a final. Consegui não reprovar em arqueologia (um mérito que carregarei para toda a vida). Consegui bolsas para quase todo o período de graduação, além de ter sido monitora e ter me envolvido com eventos das pós-graduações relacionadas ao meu curso. Fiz dos professores meus grandes amigos e fiz alguns amigos alunos também. Encontrei o namorado mais daorinha da vida logo em minha primeira pesquisa etnográfica – e não larguei dele até hoje.

Foi na universidade que tomei minha primeira cerveja e fiz outras várias “primeiras” incursões, inclusive no momento em que decidi comparecer a uma das festas ofertadas pelo meu curso – e só não me arrependi porque era funk. É impossível se arrepender quando a festa só toca funk.

Eu não passei na seleção do mestrado (e o vídeo dessa semana é sobre a superação disso!), mas continuei firme na minha empreitada de concluir o curso em quatro anos. A previsão é essa, mas é provável que eu seja a única do meu ano, dentre os que escolheram antropologia, que vai conseguir se formar no prazo certo. Os outros escolheram por prorrogar a monografia, se desperiodizaram no meio do caminho, trancaram o curso etc etc. Eu reprovei, mas consegui me manter dentro da periodicidade adequada e batalhei o ano inteiro para chegar no dia de hoje: a banca da monografia.

Escolhi estudar os usos do véu islâmico em Curitiba, após meu retorno do Paquistão e o interesse recém despertado. Foi um processo difícil e intenso, principalmente na parte da escrita e milhares de reescritas. Mas, graças à minha boa orientação e ao meu fiel leitor Willian, tudo deu certo no final. Hoje apresentei a monografia e concluí mais essa etapa! Fui aprovada com nota nove! Agora só preciso escrever dois trabalhos finais para as últimas disciplinas que frequentei e esperar pelo dia da colação de grau. Aparentemente, estou prestes a ser uma cientista social!

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#pegaessabrézzziiilll

Qual o meu adjetivo?

Família é uma coisa engraçada. Quando a gente vê e convive todo dia e o tempo todo fica cansado e querendo um tempo. Quando a gente fica sozinho, porém, tem aquela vontade de compartilhar as coisas com eles, como se eles ainda estivessem por perto. Ainda bem que com a internet isso é possível. Por mais que eu ame cartas, não sei se daria conta de sobreviver naquela época.

Quando alguém da família daqui viaja e encontra com outros familiares, que eu não vejo há tempos, adoro ficar por perto ouvindo as histórias. Saber como as pessoas cresceram, mudaram seus pensamentos, o que elas andam comendo e como se divertem. Tudo isso faz com que eu me sinta um pouquinho mais perto delas, coisas que não são facilitadas pela internet, porque nunca fui próxima a essas pessoas. Mas sempre gostei muito de ouvir as histórias.

Se tem uma coisa que é legal em ter família grande onde todo mundo se conhece e alguém se comunica regularmente com outros alguéns e a informação se espalha é poder saber alguns detalhes, histórias e fofocas de pessoas que se você visse pessoalmente jamais lembraria quem é. É legal ver como os outros lidaram com os problemas das vidas deles e também como muitas vezes esses problemas se tornam o esteriótipo da pessoa. No sentido de que, ao invés de falar do “João” a família fala do “coitado que se divorciou, mas ainda ama a mulher” e toda a sua probabilidade de imaginar um “João” comum vai por água abaixo, porque você começa a imaginar uma pessoa amargurada, frustrada, saudosa etc. Talvez, se você conhecer o João, vai perceber que ele superou a esposa há tempos, mas não aconteceu outra coisa relevante o suficiente para mudar os esteriótipos.

E foi curioso quando minha tia disse que estava conversando com alguns sobrinhos netos e depois ouviu da mãe deles que ela seria lembrada como “a tia que fuma muito, mas faz um quibe delicioso” e com isso percebi que não faço ideia de qual é o esteriótipo que têm de mim. Porque é tão comum essa coisa da gente ter um esteriótipo pra falar do outro quando estamos nas histórias de família, que acredito que todas as pessoas o tenham. Lembro de ouvir de primos meus que eram emo, pagodeiros, rockeiros, rebeldes, apaixonados, frustrados amorosamente, realizados profissionalmente e fiquei pensando… qual será o meu adjetivo, o meu esteriótipo? O que é usado para lembrarem quem eu sou?

Sei que para as minhas sobrinhas por muito tempo foi “ela tem cabelo colorido”, agora já não faço ideia do que elas usam pra me descrever. Quanto às minhas tias, primos, amigos, não faço a menor ideia. E como quando a gente cresce descobre que família não é só sangue, certamente estou em algumas das histórias contadas por pessoas não-consanguíneas. Como será que falam de mim? Não faço a menor ideia. Mas eu espero realmente que não seja como “ah, a Mayra, filha de x e y, irmã de w e z” ou afins. Não quero ser alguém que é definido pelos relacionamentos, mas sim por alguma característica marcante. Porque mesmo quando o esteriótipo é péssimo, como “a que é gorda” (algo muito muito muito comum nas histórias de família), pelo menos estão te definindo por você. De maneira preconceituosa e por vezes cruel, mas ainda assim, por você. Enfim, não sei. E essa é uma das grandes questões do momento.

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Not Alone

Tenho acesso à internet desde muito nova, embora nos primeiros três anos ela tenha se resumido a jogar no site da Barbie (que acabei de visitar e descobrir ser bem diferente hoje em dia). Nesta época, a conexão era discada e o acesso complicado, pois usar a internet fazia com que o telefone da casa saísse do ar – e a minha família adora telefonar. Quem se dava bem era meu irmão, que já tinha seu próprio computador e aproveitava para ficar logado de madrugada, quando além de não incomodar o pessoal do telefone, conseguia uma conexão mais rápida.

Foi quando eu tinha onze anos e me mudei para Curitiba que tive meu primeiro acesso à internet banda larga. Na época, wi-fi era impensável, pois não havia dispositivos que pudessem se conectar à internet (além do computador). Como tinha me mudado e abandonado amigos, pude acessar redes sociais pela primeira vez. Tive e-mail, MSN e Orkut, além de visitar ocasionalmente os chats online, como da UOL e outros servidores (sim, para acessar a internet era necessário ter um servidor pago e que te provia um endereço de e-mail grátis, ou algo assim). Comecei então a conversar com muitas pessoas conhecidas e, através das comunidades do Orkut e destes chats, com pessoas desconhecidas também. Nenhum contato duradouro a ponto de eu me lembrar do nome de alguém.

Com catorze anos eu descobri o Neopets, que mudou minha vida online. Nele fiz diversas amizades (como já contei inúmeras vezes neste espaço) que se tornaram reais na vida para além internet. Nessa época também fiz minha conta no Facebook e comecei a escrever em meu primeiro blog. Tudo era muito novo e legal e eu vivia descobrindo novas pessoas que também escreviam sobre as coisas que eu gostava e que passavam pelas mesmas coisas que eu. É  claro que tinha boas e fieis amigas na escola e nos outros locais que habitava, mas a internet começou a se tornar o local onde eu era compreendida. A coisa ficou ainda mais intensa quando eu conheci o Tumblr e isso eu não lembro exatamente a data. É a única rede social que até hoje eu tento não divulgar, porque é onde me sinto à vontade para liberar meu “lado negro”, ou seja, falar sobre coisas e situações que eu não falaria costumeiramente com as pessoas. E compartilhar imagens sensacionais que não seriam compreendidas em qualquer lugar que não ali.

Twitter, blog, youtube, snapchat, instagram, facebook, tumblr… São muitas as redes sociais. São muitos os sites para os quais elas me redirecionam. São muitas as pessoas, vidas e histórias com as quais entro em contato diariamente e: amo muito tudo isso. Não troco as minhas amizades e pessoas queridas do universo não-digital, mas tão pouco consigo me imaginar existindo sem compartilhar as minhas coisas e ter acesso a tudo que as outras pessoas fazem. Existem blogueiras que até hoje eu nunca falei um oi, mas acompanho fielmente e, mesmo sem comentar nos textos, me sinto compreendida. Tem grupos onde eu posso conversar sobre coisas que ninguém mais estaria interessado. Tem sites onde eu descubro sobre coisas que não descobriria em bibliotecas ou conversando com as pessoas que conheço na vida real. E tem pessoas. Pessoas lindas e brilhantes, cada uma com seu universo particular repleto de histórias sensacionais, vitórias pessoais e derrotas frustrantes. E a internet é uma oportunidade de viver tudo isso com todo mundo e compartilhar tudo. Sabe aquela coisa de que a felicidade só é real quando compartilhada? É isso!

Ouvir uma pessoa super feliz e empolgada no snapchat narrando a vitória do seu dia. Poder comentar sobre aquele episódio de seriado ou o filme que você acabou de ver e acha que ninguém gostou e descobrir que existem pessoas que também gostam deles. Falar sobre coisas que te irritam e descobrir que outras pessoas também se irritam com elas. Ficar triste e achar que a vida está acabando e poder conversar com outras pessoas com a mesma sensação, aliviando sua barra. Descobrir que todas as coisas que te disseram que você não podia por ser mulher, por ser pequena, por ter doenças , por quaisquer motivos que sejam, na verdade você pode fazer. E entrar em contato com pessoas que fizeram. A internet é um lugar maravilhoso, porque não importa o momento que se esteja passando, vai ter alguém ali que te entende. E mesmo que a pessoa não acredite em um ser transcendental que tudo guia, não vai se sentir sozinha.

Porque a internet é feita em rede, é uma união de diversos pontinhos interconectados (nós, nossas palavras, gestos, textos, imagens etc). E ela nos faz acreditar que juntos somos mais fortes.