O Setembro Amarelo

Estou trabalhando em aprender a me permitir sentir coisas, sem racionalizá-las previamente. É bastante difícil este processo, porque sempre fui uma pessoa que pensa demais e faz de menos. Felizmente, uma terapeuta está me ajudando neste processo, de forma bastante eficaz. E isso me faz pensar em uma série de coisas – mesmo que a intenção seja aprender a pensar menos.

Setembro é um mês voltado para a prevenção do suicídio, algo chamado de “setembro amarelo”. A intenção é fomentar discussões sobre os problemas psicológicos e formas de contorná-los e superá-los. O plano de conscientização é promovido pelo Centro de Valorização à Vida, que possui uma linha telefônica de apoio para estes casos. Basta ligar e desabafar. E a ideia é bastante essa: que conversar pode ajudar muito.

Eu, como uma pessoa falante, concordo que conversar pode ajudar muito. Mas não é suficiente. Ter amigos não é suficiente. Ser amado não é suficiente. Problemas psicológicos e mentais são doenças e precisam ser tratados como tais. Isso significa que não é “falta de Deus”, não é “falta do que fazer” e não é “paranoia de quem pensa demais”. Não são coisas legais ou fáceis para quem passa por. Não é fácil de falar sobre, mas é menos fácil viver sentindo tudo o que nós sentimos diariamente. Porque a sociedade julga quem não se encaixa, julga quem tem qualquer tipo de problema. E julga mais ainda quando são problemas difíceis de ser explicados ou compreendidos.

Eu faço tratamento psiquiátrico e psicoterapêutico. Tomo medicamentos e faço terapia. Tento cuidar da minha saúde mental com todos os instrumentos que possuo. Tenho diagnóstico de ansiedade social, o que significa que 90% das vezes que eu recuso compromissos é simplesmente por não conseguir sair de casa para realizá-los. Mas como é difícil fazer as pessoas entenderem isso, eu acabo inventando desculpas.

É difícil conversar na minha própria casa sobre estas questões. Os medicamentos são entendidos como “algo para ficar acordado, porque ela tem muito sono” e a terapia basicamente ninguém entende porque preciso e porque me ajuda. Escuto bastante que eu deveria voltar a frequentar alguma religião. E que justamente por não sair e não me expor socialmente é que me sinto tão sozinha. Eu escuto que deveria conversar com as pessoas sobre o que eu realmente sinto, ao invés de inventar desculpas. E que não preciso me fingir de forte, em situações em que não me encontro assim.

Mas tudo isso existe apenas em teoria. Na prática, os problemas psicológicos são entendidos como besteiras e qualquer desculpa inventada faz mais sentido para terceiros do que dizer que você está em crise. E pessoas que se dispõem a ouvir você, na verdade estão apenas cumprindo alguma tabela para se sentirem bem consigo mesmas. Pouquíssimas realmente se dispõem a te ajudar. Pouquíssimas sequer se importam de verdade com as respostas para o já normal “tudo bem”. A maior parte das pessoas simplesmente não liga.

E é aí que iniciativas como o “setembro amarelo” podem ser problemáticas. A falsa empatia é uma realidade que machuca muito mais do que a solidão, para quem tem problemas psicológicos. Pessoas não preparadas e que não sabem ouvir ou responder às questões de quem está passando por situações difíceis, que colocam na cabeça que “precisam” ajudar, porque sabem que vão se sentir culpadas caso alguém próximo a elas cometa suicídio, mas que não fazem a menor ideia de como ajudar ou do que são estes problemas ou de como é viver com eles. Essas pessoas não deveriam ser motivadas a ajudar, a se dispor a conversar ou afins. Elas deviam ser motivadas a entender sobre os problemas, não a agir sobre eles. Porque elas podem piorar muito mais as coisas.

Se pessoas que fazem tratamento psiquiátrico e psicológico seguem tendo crises e dificuldades de se manter estável, pessoas que não tiveram o privilégio de um tratamento adequado são ainda mais vulneráveis a recaídas e a cometer suicídios. Se mesmo pessoas medicadas e em tratamento correm risco de vida, as que ainda não foram diagnosticadas, correm ainda mais. Quando a gente se dispõe a falar sobre saúde mental e a ajudar terceiros, estamos lidando com um fator de responsabilidade máxima: a vida de outra pessoa. E a gente não tem preparo para isso. Não somos médicos ou profissionais de saúde. No meu caso, sou alguém com uma vivência dolorosa nestas entranhas. Mas, mesmo assim, não sou indicada para falar sobre os problemas dos outros. Eu posso compartilhar minhas vivências e me dispor a ouvir, mas não posso fazer mais do que isso. Sempre estarei em posição de indicar tratamento especializado. E sempre estarei à espera de estes tratamentos sejam ofertados ao máximo de pessoas possíveis, com qualidade devida.

O Setembro Amarelo me incomoda mais do que me traz esperanças. Me incomoda isso de achar que uma conversa profunda cura uma depressão ou crise de pânico. Me incomoda achar que as doenças psicológica são apenas de causa social. Eu sou cientista social, estudei Durkheim horrores, mas ainda assim acho que nem tudo que acontece com a gente tem causa social. Problemas cognitivos existem. Problemas hormonais existem. Psicossomatismo existe. E tudo isso deve ser tratado com os profissionais adequados. Não com essa falácia de que “é culpa da sociedade, mas se você estiver rodeado de boas pessoas e com laços sociais fortalecidos, tudo ficará bem”. Nem sempre fica. As vezes a nossa cabeça simplesmente não funciona de forma benéfica para nós mesmos. E acreditar que é algo que se cura com conversa pode fazer com que a gente se sinta ainda mais deslocado e maluco, ao perceber que mesmo rodeado de gente bacana os problemas persistem. Então, bom, não seja essa pessoa que diminui a dor dos outros. E, principalmente, não seja essa pessoa que diminui a sua própria dor. Sua dor é válida. E, se ela existe, precisa ser ouvida, diagnosticada, tratada e levada a sério. Porque ela é séria.

Viver nem sempre é a melhor solução. As pessoas que optam pelo suicídio não são covardes. Não fizeram isso para provar algo para você. Tentar descobrir “porque fulano se matou” é uma tremenda burrice. Motivos não importam. O que importa é o ato. Se a pessoa teve a coragem absurda que um ato deste necessita, é porque ela estava sofrendo tanto que não conseguiu ver outra saída. As vezes, mesmo tendo tentado por anos. Mesmo tendo se tratado, mesmo tendo tido apoio e ajuda. As vezes a pessoa simplesmente não consegue lidar com ela mesma. E ela precisa ser respeitada nisso. A dor dos suicidas precisa ser respeitada. Nós, vivos, não temos o direito de falar por eles. De julgá-los. De tentar entender a dor deles. A gente não entende. Nunca vamos entender. Exceto se um dia decidamos fazer o mesmo. E toda a luta pela saúde mental não pode ser pautada em um “medo de se tornar suicida” ou de “ser próximo a um suicida”. Porque cometer suicídio não é causa, é a única solução que parece existir para aqueles que o fazem. O que precisamos é tentar continuar acreditando que existem outras soluções e cada um tem seu tempo para que esta ilusão acabe. A vida de todos nós perde o sentido as vezes e a forma como isso nos afeta é imprevisível. Se é imprevisível para nós, quem somos nós para tentar prever como os outros lidam com isso?

O Setembro Amarelo não deveria ser para estimular que pessoas despreparadas tratem de um assunto tão sério. Ele deveria ser para que as pessoas que já têm liberdade com suas próprias dores se sintam à vontade de falar sobre elas. Alto o suficiente para que a sociedade passe a entender que estamos aqui, seguimos vivendo e precisamos de atenção dos órgãos de saúde do país, mais do que de pessoas curiosas com “como um depressivo se sente”.

Animal Kingdom (2016) | Série

Animal Kingdom, poster da série

Quem faz a série?

         Jonathan Lisco é o criador da série, que tem como base o filme australiano homônimo, lançado em 2010. David Michôd e  Liz Watts, que produziram o filme, também compõem a equipe da série. Lançada em junho de 2016, pelo canal TNT, a primeira temporada teve dez episódios, com uma média de 50 minutos de duração cada um.

        O elenco principal é composto por Ellen Barkin (Smurf), Scott Speedman (Baz), Shawn Hatosy (Pope), Ben Robson (Craig), Jake Weary (Deran), Finn Cole (J), Daniella Alonso (Catherine) e Molly Gordon (Nicky). 

Animal Kingdom - pôster da série
Animal Kingdom – pôster da série

Sobre o que se trata?

      O enredo principal gira em torno de J, que é o protagonista da temporada. Logo no episódio piloto, vemos que a mãe dele faleceu de overdose e ele foi levado a morar com sua avó, Smurf. Por sua vez, Smurf lidera uma organização criminosa, semelhante a uma máfia familiar, tendo seus quatro filhos como funcionários. Todos eles têm suas próprias casas, mas passam a maior parte do tempo na casa da mãe, que desenvolve uma relação de chefe e mãe ao mesmo tempo, colocando em questão vários estigmas da maternidade compulsória.

       J cai de paraquedas nesta casa que se sustenta a partir de ilegalidades e tudo que ele sabe é que sua mãe não gostava da forma como a família vivia. Ele e a namorada, Nicky, acabam no meio de confusões e precisam se decidir entre qual moralidade seguir e qual a melhor conduta para determinadas situações. Catherine, esposa de Baz, também é fundamental, trazendo para a série discussões sobre o passado da família de Smurf e sua consolidação no lado “obscuro” da sociedade.

O que eu achei dela?

      A série é bastante direta, o que é um ponto positivo. Para quem gostou de Skins (2007-2013) e True Blood (2008-2014), tendo interesse por ilegalidades, drogas, sexo e demais ações desafiadoras do status quo da sociedade, com bastante drama familiar e criminalidade, Animal Kingdom é a melhor pedida possível!

      A série consegue ser intrigante, surpreendente e manter o espectador curioso para o que há por vir. Os personagens não são explorados o suficiente para criar uma identificação com quem está assistindo, mas ainda assim é possível torcer por alguns deles. Smurf é absurdamente sensacional, quebrando todos os estigmas e paradigmas de uma mulher de meia idade e mãe de quatro filhos. A série é importante por mostrar todo o desvio passível de ocorrer na sociedade atual, apresentando novos paradigmas. A temática é bem abordada, a produção é bem realizada e o espectador fica com vontade de acompanhar a próxima temporada. Ponto para os produtores!

A Arte de Pedir – Amanda Palmer | Resenha

Quem escreveu o livro?

      Amanda Palmer é uma artista estados-unidense, que foi estátua viva por muito tempo, mas também pianista e vocalista da banda The Dresden Dolls e cantora em sua própria banda. A Arte de Pedir foi seu primeiro, e até agora único, livro, mas a autora escreve no próprio blog. Além disso, ela é bastante ativa no twitter. Tornou-se famosa por ter sido a primeira musicista a atingir 1 milhão de dólares através do financiamento coletivo crowdfounding e atualmente mantem-se através de doações no patreon

O que é interessante saber antes de ler?

  1. O livro é uma auto-biografia, que foca bastante nas questões de vulnerabilidade e síndrome do impostor, podendo ser considerado auto-ajuda, dependendo de quem lê.
  2. A narrativa surgiu a partir do discurso de Amanda ao TED Talk – que eu recomendo a todos.
  3. O prefácio do livro foi escrito por Brene Brown, que também fez um TED Talk, que eu também recomendo.
  4. No meio do livro, você descobre como Amanda Palmer conheceu e se apaixonou por Neil Gaiman e quase explode com a fofura dos dois. Isso significa que: se você tem vergonha de demonstrar emoções em público, prefira ler esse livro em lugares privativos. 
Amanda Palmer
Amanda Palmer

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

    A Arte de Pedir conta a história da vida de Amanda Palmer. O livro é dividido em alguns capítulos, todos eles iniciados por uma de suas músicas. As letras combinam com o texto que está por vir. O livro mescla a história pessoal com a carreira da cantora, fazendo com que o público sinta toda a intensidade dela.

      Amanda tem uma filosofia de vida de que quando você dá amor ao outro, não precisa dar mais nada e as coisas boas simplesmente voltam a você. O livro aborda muito a questão da vulnerabilidade, explorando situações onde para ela é muito fácil pedir e demonstrar sentimentos e outras, onde as coisas são um tanto complicadas.

      Por ser uma artista e muito intensa, Amanda acaba sendo incompreendida por muita gente e o livro percorre o período de críticas à sua carreira, atitudes e decisões e mostra que tudo que ela faz e pensa é sempre moldado a partir da forma como ela espera que os outros a vejam. Apenas após o relacionamento com Neil Gaiman isso começa a mudar. 

       A carreira dela é consolidada pela relação com os fãs, então eles têm um enorme espaço no livro. Assim como seu melhor amigo, Anthony. Há espaço para algumas histórias de família, ex-namorados e Amanda não tem vergonha de revelar coisas realmente íntimas dela e de seus relacionamentos na narrativa, o que chega a ser um tanto surpreendente. 

    A partir da história dela e das possíveis identificações para com as nossas, o livro se torna absolutamente necessário. Considerando que a sociedade está cada vez mais egoísta e egocêntrica, alguém que nos mostra que está tudo bem ser vulnerável e que todas as pessoas precisam de ajuda, as vezes elas só não sabem ou não se sentem confortáveis para pedir, merece um troféu só por espalhar a mensagem. 

a arte de pedir trecho 1

          A Arte de Pedir tem 304 páginas, foi publicado no Brasil pela Editora Intrínseca e você pode adquirir clicando aqui, para ajudar o Ancoragem.

E o que você achou do livro?

      É um livro bastante difícil de falar sobre. Difícil de assimilar. Comecei a leitura em fevereiro, quando estava no hospital, após a maior cirurgia que já fiz. Tive que dar um tempo, porque achei ter aprendido o suficiente para o momento – a me deixar ser ajudada. Tenho essa coisa de achar que posso fazer tudo sozinha e dificilmente crio coragem para pedir ajuda, não gosto de mostrar que não sei ou não posso. Mas, quando você precisa passar por quatro meses andando com muletas e precisando de ajuda até para tomar banho, essas coisas acabam melhorando um pouco. 

      Voltei ao livro na semana passada e terminei-o rapidamente. Parece que da metade para o final, tudo que você consegue fazer é mergulhar no universo narrativo. A intensidade da Amanda é invejável, tanto na forma como ela vive a vida dela, quanto na forma que ela escreve. Cada linha e parágrafo que eu terminava, era uma linha e parágrafo para memorizar e guardar no coração. E, se tem uma coisa que ficou quentinha com o final do livro, foi ele.

A Arte de Pedir - Trecho do livro
A Arte de Pedir – Trecho do livro

       Eu me senti abraçada pela história da Amanda Palmer, senti como se fôssemos melhores amigas e como se finalmente eu tivesse provas de que não sou a única maluca da face da Terra. Mesmo porque, a Amanda consegue ser mais maluca que eu em alguns aspectos. Eu fiquei feliz após ler o livro, mesmo com os olhos cheios de lágrimas. E isso é incrível e sensacional. É como se Amanda provasse que não é sensível e artística apenas nas músicas e pinturas que se propõe a fazer, ela é intensa em tudo. E isso é esplêndido.

      É claro que após a leitura eu fucei o site dela, ouvi várias das músicas e fiquei bastante feliz em ver como a vida dela está atualmente. O sentimento apaziguador segue comigo, não sei até quando ele vai ficar. E já não sei se gostei tanto do livro ou da pessoa que o escreveu, porque cada dia que passa penso mais que: os dois são a mesma coisa. E, bom, não creio que algo possa ser mais emblemático do que essa simbiose.

VMA 2016 – A Consagração de Beyoncé

      VMA é a sigla de Video Music Awards, evento anual realizado pela emissora de televisão estados-unidense MTV. O intuito da premiação é celebrar, principalmente, a música pop dos EUA. O palco do evento é alvo de performances incríveis ano após ano, que insistem em se reinventar. Os artistas, cada vez melhores, encantam o público e o evento acaba se tornando mais popular pelas apresentações do que pelos prêmios propriamente ditos.

      Isso não significa que os prêmios são menos importantes, pelo contrário. Ganhar troféus no VMA traz bastante prestígio para os artistas. Madonna, considerada a rainha do  pop, havia ganhado a maior quantidade de prêmios, totalizando vinte estatuetas. A cantora ainda é mundialmente conhecida, mesmo tendo 58 anos de idade, segue encantando gerações com sua música e capacidade performática. Ela revolucionou a indústria musical de sua época e inaugurou o pop da forma como conhecemos hoje. 

     Porém, os anos 2000 trouxeram uma nova rainha para o gênero musical. De 1998 a 2001 estimava-se que quem viria a ocupar o mesmo espaço que Madonna, no futuro, seria Britney Spears, que foi, então, apelidada como princesa do pop. No entanto, a cantora acabou passando por momentos turbulentos em sua vida pessoal, que a fizeram se afastar da música por um longo período. Entre vais e vems, Britney Spears acabou perdendo a capacidade de se reinventar, ou simplesmente o “andar da carruagem”, como diria o dito popular.

       Em 2016 ela lançou seu nono álbum, chamado Glory. As músicas e os videoclipes, assim como as apresentações ao vivo, seguem o mesmo padrão das que ela apresentava no auge de sua carreira, quando tinha cerca de dezessete anos. Para o público é maravilhoso ver que a Britney está de volta na indústria da música, que está se sentindo bem e segura de si e disposta a retomar a carreira, no entanto, acostumados com grandes performances, à lá Lady Gaga, Katy Perry, Rihanna e Beyoncé, o público acaba achando um tanto estranho ver que Britney ainda se arrasta no chão semi-nua, exatamente como no clipe de Toxic. Nosso coração segue junto com ela, torcendo para que ela fique bem e continue produzindo músicas dançantes, mas já não é possível compará-la com as outras grandes artistas do pop atual. Infelizmente.

       Quem não cansa de se sobressair, é Beyoncé. Essa sim, chegando ao nível de Madonna. Em 2016, Beyoncé lançou seu primeiro vídeo-álbum, chamado Lemonade. Intenso, magistral e muito bem performado, o vídeo conta a história da traição sofrida por Beyoncé, por parte de seu marido, também músico, Jay-Z. O ditado popular diz para que a gente faça uma limonada dos limões que a vida nos dá, Beyoncé foi lá e fez.

        Ela transformou um momento pessoal possivelmente tenebroso, tortuoso e depressivo em uma obra de arte fenomenal, reinventando o gênero pop e tirando aquela imagem de que música pop é fútil. Beyoncé fez um álbum sobre empoderamento feminino. Depois de já ter emplacado músicas incríveis sobre o assunto, como Flawless, e de ter iniciado sua apresentação no VMA de 2014 recitando um discurso da Chimamanda Ngozi Adichie, sobre como todos deveríamos ser feministas, ela foi lá e mostrou para o mundo inteiro que é possível sentir um baque na vida pessoal e transformar em arte.

       As performances de Lemonade não são incríveis apenas no vídeo álbum oficial, Beyoncé não tem decepcionado nas apresentações ao vivo que faz com as músicas do álbum. Uma prova disso foi sua apresentação de 15 minutos no VMA, que ocorreu ontem. De forma excepcionalmente densa, tanto na coreografia, quanto na qualidade vocal e de performance, Beyoncé mostrou para o mundo que uma traição não necessariamente derruba você. Ela mostrou, principalmente, para o Jay-Z, que ele não tem poder para parar ou acabar com ela, pelo contrário. Ela transformou um momento tenebroso na vida dela em arte libertadora. E ela foi lindamente recompensada por isso, ultrapassando Madonna na quantidade de estatuetas que levou para casa. Agora, Beyoncé já tem 24. 

          Toda vez que vejo alguma performance relacionada a Lemonade, imagino como é que ela se sente. Como é ver o mundo inteiro cantando e ovacionando um álbum que provavelmente foi o mais difícil da carreira dela. Como é ver que todo mundo sabe que ela é a rainha da música pop e que ninguém consegue entender como é que Jay-Z pôde traí-la. Eu queria saber como é para ela reviver cada uma daquelas músicas, embebidas com os sentimentos angustiantes, de revolta e de nascente paz. Queria saber como é que ela consegue cantar tudo aquilo e depois voltar para casa com o marido e levar a vida normalmente. 

           Por outro lado, queria saber como é para o Jay-Z ver que ter traído a esposa não virou apenas manchete em revista de fofoca, não se voltou favorável a ele, mas, pelo contrário, alavancou a carreira dela e gerou o álbum mais bonito já feito. Queria saber como ele se sente, vendo tudo que ela pensou e sentiu por ele, estampado naquelas músicas que agora todo mundo sabe cantar. Como é para ele, dormir com ela depois de uma performance em que é nítido que todo mundo está bravo por ele tê-la traído e, ao mesmo tempo, feliz, pelo fruto que gerou? 

          E a Blue Ivy? Como será que ela processará tudo isso quando for um pouco maior? “Meu pai traiu a minha mãe e ao invés de ela se separar, fez um álbum fenomenal, revolucionou a indústria da música, inspirou milhões de mulheres pelo mundo e mostrou que não necessariamente elas precisam ser oprimidas, e continuou com o meu pai, depois de colocá-lo no devido lugar“? Sério, essa família pós Lemonade deve estar passando por momentos bizarros, tendo que se redescobrir o tempo todo e com os sentimentos postos à prova direto.

          Beyoncé mais uma vez arrasou em uma premiação. Saiu não apenas com estatuetas, mas com a melhor performance da noite e com milhões de fãs no mundo inteiro se sentindo representados. Ela foi lá e fez uma limonada com todos os limões que as mulheres tiveram que engolir. Ela esfregou na cara da sociedade norte-americana o racismo que ela sofreu, mostrou que uma negra pode sim chegar no topo do mundo, pode sim reverter o padrão de opressão estabelecido, pode sim reinar sozinha. Beyoncé honra o termo que ela criou, quando diz “I slay“, porque, sim, colega. Sim. Quando você fala, quando você reina, quando você brilha, a gente só sabe ficar parado e aplaudir. Muito obrigada.

Beyoncé no VMA, acompanhada por mães de jovens negros que foram brutalizados pela polícia dos EUA.
Beyoncé no VMA, acompanhada por mães de jovens negros que foram brutalizados pela polícia dos EUA.

Os Miseráveis – Victor Hugo | Resenha

Os Miseráveis Capa Martins Fontes

Quem escreveu o livro?

         Victor Hugo nasceu na França, em 1802, tendo falecido em 1885. Ele escreveu novelas, poesias, peças de teatro e ensaios, além de ter sido um ativista político importante em sua época. Além de Os Miseráveis, é autor de O Corcunda de Notre-Dame, isso para falar dos livros mais famosos. 

       No final de sua vida, ele começou a se dedicar mais para estudos de filosofia social-política e história. Essa perspectiva do autor foi impressa na obra Os Miseráveis. Victor Hugo era católico convicto, até que teve uma experiência positiva com o espiritismo e se converteu para a religião, em 1867. 

Retrato de Victor Hugo
Retrato de Victor Hugo

O que é interessante saber antes de ler?

         Deve ser de conhecimento público o fato de a obra ultrapassar as 1500 páginas, contendo partes estritamente históricas/políticas sobre a França, que não influem muito na história que está sendo contada no livro.

       O livro foi publicado em 1862 em oito cidades diferentes, simultaneamente. Uma dessas cidades, foi a do Rio de Janeiro. Em Paris, a obra vendeu mais de 24 mil exemplares nas primeiras 24 horas após o lançamento.

          A história foi adaptada inúmeras vezes para obras cinematográficas e de televisão, além de ter sido adaptada para um musical, que é até hoje produzido pela Broadway. Nenhuma das adaptações que eu tive acesso até agora conseguiu transmitir a complexidade e delicadeza da obra, ou seja, elas não substituem a leitura.

          É interessante também saber que o livro não tem uma composição simples/comum, onde o texto divide-se em capítulos e, no máximo, sub-capítulos. Os Miseráveis conta com 5 partes diferentes, que por sua vez são divididas em livros, que por sua vez são divididos em capítulos. Essa organização acaba facilitando a vida do leitor e deixando a história mais clara.

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

          Os Miseráveis se passa na França contemporânea a Victor Hugo, onde a Revolução Francesa tinha acontecido recentemente e o país ainda estava com disputas, de um lado as pessoas queriam a República e de outro, queriam a Monarquia. Nas 1511 páginas do livro, temos a oportunidade de adentrar na história da Batalha de Waterloo, as disputas monárquicas entre os reis Luís e os descendentes republicados de Bonaparte. O grande ápice histórico do livro ocorre no momento das barricadas, em 1848. A temporalidade do romance acompanha a temporalidade histórica do país e as duas histórias são mescladas, de forma a permitir que um leitor que não viveu naquela época entenda com claridade os dramas vividos pelos personagens.

          A França da época era marcada pela desigualdade social, onde a maioria da população era miserável, a ponto de não conseguir dinheiro para comprar pão. A repressão era grande e essa população miserável vivia se escondendo e fugindo dos policiais e soldados, pois se fossem pegos em situação de crime, eles iam parar na Galés. Essa é o equivalente à nossa “prisão de segurança máxima“, mas ao invés de ficarem apenas presos, esses condenados eram forçados a trabalhar. O trabalho não era remunerado, não tinha segurança alguma e as vezes causava mortes. 

Retrato de Jean Valean, interpretado por Hugh Jackman na adaptação cinematográfica de 2012
Retrato de Jean Valean, interpretado por Hugh Jackman na adaptação cinematográfica de 2012

          Nosso protagonista, Jean Valjean, surge na história como um recém liberto das Galés. Sem saber para onde ir ou o que fazer da vida, visto que o ostracismo social perante ex-condenados era absurdo e que toda a política e exército ficava de olho para qualquer possível reincidência, Valjean estava desanimado e perdido. Sua família já não o reconheceria, se é que estariam vivos. Ele não tinha para onde ir, o que comer ou como tomar um banho. Foi liberto, mas tinha apenas poucos centavos no bolso e nenhuma perspectiva. Felizmente, ele encontrou um bispo bondoso que o ajudou e mudou a sua vida, fazendo com que ele voltasse a acreditar na bondade das pessoas. O bispo lhe proveu bens materiais para que ele pudesse reiniciar sua vida e, assim, Valjean foi para uma outra cidade, arranjou um nome falso e iniciou sua própria indústria de vidrilhos negros.

         Paralelamente a isso, temos a história de Fantine, uma jovem bonita e feliz, que acabou ficando grávida de seu primeiro namorado, mas nunca teve a chance de contar para ele, que a abandonou. Sem ter tido oportunidade de estudar, Fantine ficou assustada e perdida com a ideia de ter que criar uma filha. Encontrou uma casa de hospedagens cuja dona tinha uma menina da mesma idade da sua e resolveu deixar sua filha para ser cuidada lá, visto que eles dariam melhores condições. O combinado era que Fantine trabalharia e enviaria uma quantidade de dinheiro mensalmente, para os cuidados com a filha. A intenção dela é que pudesse juntar dinheiro para se estabelecer em Montfermeil e voltar para buscar Cosette. Fantine começou a trabalhar na fábrica de Jean Valjean.

         Tudo isso acontece, com inúmeros detalhes, na primeira parte do livro. Na sequência, somos levados a mergulhar na vida de Cosette e sua criação com os Thernadiér, que a maltratavam. Jean Valjean acaba se sentindo responsável por ela e decide resgatá-la. No entanto, ele começou a ser perseguido por um oficial chamado Javert, por ter reincidido na vida criminal. Assim, a segunda parte do livro narra o encontro de Jean Valjean com Cosette e uma fuga  bem estabelecida.

Cosette trabalhando próximo ao poço
Cosette trabalhando próximo ao poço

       A terceira parte, apresenta um novo personagem, Marius. Ele advinha de uma classe social melhor, era sustentado pelo avô e tinha recém se formado advogado. Acaba tendo mais contato com a história de seu pai, que havia sido soldado em Waterloo e se torna um republicano convicto, o que vai contra a ideologia de seu avô que o expulsa de casa. Marius, então, passa a viver na extrema pobreza e se encontrar com a juventude revolucionária da França.

      A história se desemboca a nos mostrar o encontro entre todos os núcleos, que é envolto por caridade, moral cristã, romance romântico, ideologias e guerra. Tudo isso embebido de uma riqueza de detalhes absurda, onde a narrativa engloba todas as perspectivas possíveis, dando a impressão de se tratar de uma leitura em 360 graus. O livro é repleto de poesia e versos com tradução difícil, cuja editora Martins Fontes decidiu deixar tanto a versão em francês, quanto a em português, disponível para o leitor. A beleza do livro faz com que o número de páginas seja menos importante, devido à grandiosidade da história que é narrada. E pensar que tudo aquilo foi escrito antes de haver computadores, faz com que a leitura fique ainda mais emocionante.

        Compre o livro aqui e ajude o Ancoragem a se manter independente.

Contracapa da edição da Martins Fontes
Contracapa da edição da Martins Fontes

E o que você achou do livro?

         Os Miseráveis é facilmente o melhor livro que vi na minha vida até agora. Obviamente não é o que mais me tocou ou o primeiro que eu recomendo para as pessoas, mas sinto que nunca vou esquecer da aventura que foi embarcar nessa leitura. 

       Li o livro em conjunto com uma amiga. Fizemos um planejamento e nos dispomos a terminar em seis meses. Por razões nossas, acabamos atrasando e lemos em sete meses. Quando chegamos ao final, já não sabíamos se chorávamos pela história ou por dizer adeus ao livro, que tinha se tornado nosso amigo e companheiro no tempo em que estivemos juntos. Eu ainda estou com ressaca literária da história, com dificuldade de embarcar em outros universos fictícios. As vezes eu ainda sonho com o livro. Acordo e morro de vontade de bater um papo com Jean Valjean, aí eu lembro que ele não é real e que nada daquilo é real e fico um tanto atônita novamente. Principalmente por saber que pode não ser exatamente real, mas de certa forma foi, de certa forma aquilo tudo foi exatamente o que o Victor Hugo viveu.

      Eu me apaixonei pelo livro. Pela história contada, pela visceralidade com a qual o autor narrava os fatos históricos da França e pela riqueza de detalhes absurda, que as vezes me irritava profundamente, para depois me fazer explodir de emoção e gratidão por ter podido ler aquelas palavras. Os Miseráveis já era uma história importante para mim, por causa do filme musical lançado em 2012, ter acesso ao livro e à história na densidade com a qual foi pensada, me fez quase explodir de emoção a cada dia que eu sentava para ler. Quem conviveu comigo nesses seis meses sabe que era inevitável eu tocar nesse assunto em algum momento. Porque ele não me saía da cabeça.

       Victor Hugo se demonstrou um excelente novelista, a história se demonstrou com ainda mais potencial do que o explorado pelo cinema e os personagens se demonstraram ainda mais cativantes. É claro que tem algumas falhas e, dentre elas, a forma como a personagem Cosette é construída e o romance romântico retratado. Há também algumas falhas históricas e o ritmo da leitura é difícil de ser mantido em alguns momentos. Mas quando a gente finalmente termina, tudo isso é diminuto frente à experiência grandiosa que ficou. E acho que é nisso que devemos nos ater.

      Estou organizando, com a Larissa, um “podcast” da gente conversando sobre o livro e a nossa experiência. Vou liberar ele aqui assim que ficar pronto e vai ser cheio de spoilers, sendo pensado para pessoas que já tenham lido o livro. Por hora, fico com o estímulo: vá lá ler Os Miseráveis. Não tem como se arrepender.