Ciênc… Quê?

Não me considero uma pessoa que escolhe facilmente, mas estava 90% certa disso um ano antes de ter que fazer a escolha definitiva. A história começa lá em 1994 com uma garota que cada dia se fantasiava de uma coisa, querendo ser todas as coisas do mundo e ao mesmo tempo nenhuma delas. Foi ao psicólogo com doze anos e falava tanto que ele a encarou e disse “sei que ainda é nova, mas quando tiver que escolher um curso na faculdade, não se esqueça de cogitar ciências sociais”. Ela se esqueceu dessa fala e só a lembrou em 2012, quando já estava matriculada no dito curso. Entre seus doze e dezessete anos passou por três anos de aula de sociologia, um estudo teatral aprofundado e convivência com um comunicador filósofo que fez seu TCC sobre o MST. Isso sem contar em toda a influência sofrida por seu pai, cientista político não formado academicamente, mas sim empiricamente. O fator determinante para a escolha, no entanto, foi uma aula específica, quando ela estava no segundo ano do Ensino Médio. Seu professor de sociologia descreveu exatamente como se sentia quando estava naquela idade, naquela fase escolar. Ela nunca tinha se identificado tanto com algo em toda a sua vida. Nem Mia Thermopolis em seus nove livros descrevera tão bem seu modo de sentir e pensar o mundo como aquele professor o fez. A partir dali ela já marcou em seu vestibular treineiro que faria Ciências Sociais. Nem sabia direito do que se tratava, mas se tinha resolvido os problemas do professor, resolveria os dela. Passou pela primeira fase, mas nem foi fazer a segunda, afinal, não poderia cursar sem terminar o Ensino Médio. Seu terceiro ano foi o mais terrível de sua vida até então, embora tenha tido alguns pontos positivos, ela abomina a ideia de voltar àquela época algum dia na vida. Sua opinião sobre seu curso só se fortificou, mas dessa vez com bases. Ela estudou ferrenhamente para sua prova específica, depois de ter pesquisado a fundo sobre a grade horária e o funcionamento do curso, seu mercado de trabalho e ter ouvido o que seus professores e o amigo do seu irmão, formado no dito cujo, dizia e pensava a respeito. Apaixonou-se ainda mais. Não tinha mais dúvidas. História, Letras, Filosofia ou qualquer outro curso na área de Humanas jamais se compararia àquela maravilha abrangente do universo inteiro, as Ciências Sociais.

Para quem não sabe, a garota acima descrita sou eu. Sou caloura no curso, não sei quase nada sobre nada, mas ando tão apaixonada com a possibilidade de saber um dia que só quero ter as minhas férias no meio, mas nada de greves ou afins. Aulas até me formar. Estava triste porque a UFPR mudou o currículo e eu não conseguiria ser Licenciada e Bacharelada (?) ao mesmo tempo, mas hoje tivemos uma reunião com os coordenadores e eles disseram que basta pedir permanência e eu posso ser Licenciada e Bacharelada com linha de formação em cada uma das três áreas. Depois ainda posso fazer especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Jamais precisarei parar de estudar! Minha carteirinha de estudante está garantida eternamente depois desse esclarecimento.

Bem, resolvi escrever sobre o meu amado e idolatrado curso porque a Alessandra há um bom tempo, pediu para que eu fizesse e eu disse que não conseguiria explicá-lo em poucas linhas, precisava de tempo e espaço para tal. Rafaela me perguntou a respeito também, a ela consegui responder, mas concisamente. Resolvi, portanto falar o quanto for necessário sobre o melhor curso ofertado em nosso país, o meu.

São chamadas de “Ciências Sociais” todas aquelas áreas de conhecimento em que a gente aplica um método científico para pesquisar alguma coisa relacionada a sociedade como instituição (?), quer dizer, sua cultura, seus indivíduos, as organizações políticas dos mesmos e as sociais também. Nesse hall encontram-se as “Ciências Sociais aplicadas” onde encaixamos a economia, administração entre outras coisas. Curso ciências sociais e na verdade isso não é nada específico. É tão amplo (ou mais ainda) quanto estudar medicina e se formar em “clínico geral”. Um cientista social pode ser tudo, fazer tudo. Assim sendo o mercado de trabalho é gigante, começando pelo bom e velho professor de sociologia, indo a todos os ambientes de pesquisa possível, passando pelos concursos e órgãos públicos e findando – ou não – no ato de ser puramente um teórico. Para entrar nesse curso você precisa necessariamente gostar muito de ler, porque você vai ler muito. O dia inteiro. Sobre coisas que talvez você não concorde ou não façam o menor sentido, mas enquanto as lê trate de se esforçar para entender a linha de raciocínio apresentada, afastando-se de todos os níveis de preconceito. Cada universidade estrutura o curso da maneira que lhe convém, em linhas gerais podemos afirmar que ele é dividido em três grandes áreas, sendo elas a sociologia, a antropologia e as ciências políticas. Para compreendê-las perfeitamente outras áreas são requeridas, como economia, história, filosofia etc. No fim das contas, as ciências humanas andam sempre interligadas, assim como grande parte das exatas o faz. O fato é que em todos os períodos você vai ter no mínimo uma matéria de cada uma das grandes áreas.

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A Sociologia estuda a sociedade como um todo, os principais teóricos que formularam para ela sistemas de organização, sejam eles econômicos ou não. Além de estudar as relações sociais entre os indivíduos e tentar explicar o mundo partido do ponto de que estamos em uma sociedade e isso faz com que automaticamente não sejamos livres, devamos cumprir uma série de deveres em troca de uma série de direitos recebidos. Dentro dela há subdivisões, como sociologia rural, política, de gênero e de todas as coisas que você quiser inventar. Tudo que se encontra dentro de uma sociedade pode ser um objeto de estudo sociológico.

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A Antropologia estuda o homem como indivíduo que age e pensa. Ele sempre é moldado por uma cultura e essa é a explicação para todas as diferenças entre povos e para uma série de coisas além disso. Para estudar antropologia você deve manter-se o mais afastado possível dos preconceitos e do senso comum em geral, é como adentrar em um universo paralelo, onde tudo funciona de uma maneira não convencional e talvez por isso mais mágica. Também nela há divisões, sendo a principal entre antropologia urbana e não urbana. A primeira analisa o papel do individuo na cidade, como ela o molda enquanto ele a molda e a segunda faz o mesmo no campo, tribos indígenas e outras coisas não urbanas. Na maioria das vezes está ligada com arqueologia, uma vez que é necessário um estudo profundo do passado do povo para conseguir compreendê-lo. Utilizam-se métodos pré-estabelecidos para as pesquisas, sejam eles etnográficos ou não.

As Ciências Políticas afirmam o homem como objeto político e que suas relações são políticas em sua grande maioria. Ela viaja através dos tempos, resgatando a filosofia Platônica e Aristotélica e chega até a atualidade mostrando como a política sempre esteve presente e é importante em nossas vidas. A partir desse estudo você descobre que política realmente não se limita aos órgãos públicos e aos representantes que a gente escolhe nas eleições, a política está presente no dia-a-dia essencialmente. Em tudo há relações de hierarquia e poder, sempre é feito um contrato entre você e alguém para que algo seja permitido, enfim, a política é muito maior e mais importante do que a gente pensa enquanto cidadãos que creem ter acesso a ela somente pelo que a televisão diz.

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Com essa simples explanação é possível perceber que para entender cada uma dessas áreas é importante conhecer as outras e é tão importante quanto ter um ótimo conhecimento histórico e estar sempre antenado às novas políticas e às informações propagadas por todos, o tempo todo. Vale lembrar também que as faculdades buscam maneiras de aplicar o conhecimento, com aulas de campo, grupos de pesquisa e iniciação científica entre outras coisas, tudo para que a gente não tenha acesso a um mar de conhecimento e não o use para nada. Aconselho que, independente do curso, se esforcem pra entrar na faculdade pública, porque nela os programas de bolsas são muito mais ricos e úteis.

 Acho importante expor uma ínfima parte que seja (porque se eu for escrever enfaticamente sobre tudo ninguém vai ter paciência de ler) para tentar quebrar a visão que as pessoas normalmente têm dos cientistas sociais. Que seria “São todos comunistas!” – mentira. Não me deterei ao exemplo já batido de Fernando Henrique Cardoso, sociólogo que barrou a sociologia no ensino médio e foi o presidente mais liberal que o país já teve, privatizando um monte de coisa. Falarei de mim mesma. Não sou comunista. Acho super legal a teoria sim, acho linda e bateria palmas para quem conseguisse colocá-la em prática, desde que não fosse no meu país, enquanto eu vivo. Além de eu não achar que algum dia toda a teoria linda possa virar prática sem acabar drasticamente, igual na URSS, não conseguiria sobreviver num mundo onde eu não pudesse comprar o meu chocolate da marca que eu quisesse e comê-lo sozinha, onde eu não tivesse o meu computador, onde eu não tivesse nada. É impossível fazer com que pessoas criadas no sistema capitalista se adaptem ao socialismo e sobrevivam a ele por tempo suficiente para torná-lo comunismo. Não concordo com a ideia. Afirmo sim que a grande maioria concorda e muita gente do curso luta por isso, mas não creio que esteja necessariamente ligado ao fato de estudarem aquelas coisas. Acredito também que participar de Movimentos Sociais, manifestações, apoiar paralisações etc. e tal não seja evidência de que são comunistas. No meu ponto de vista uma coisa não tem nada a ver com a outra. “São todos marxistas” – mentira gente, já inventaram Weber! “São todos maconheiros” – mentira. Uso-me como exemplo novamente, afirmando que há sim muitos maconheiros no curso, mas que isso não está relacionado ao curso em si, pois a realidade universitária do país é de que há drogados em todos os cursos, em todas as universidades, porque por algum motivo bobo que eu não sei qual é, as pessoas acreditam que aquilo as fará mais felizes e inclusive mais legais, tornando-os mais bem vistos pelos outros, o que eu discordo totalmente. “Vão ser pobres” – seu nível de riqueza quase nunca está diretamente relacionado com seu curso da faculdade e talvez “ser pobre” nem seja tão ruim. O que mais me irrita é o “São um bando de vagabundo que não teve capacidade pra passar em um curso decente e foram pra esse”. Eu e um monte de gente ali teríamos capacidade pra passar em qualquer outra coisa se isso fosse o que a gente quisesse, mas a gente que é isso e não significa que somos burros, só temos inteligências diferentes dos que querem medicina, não que algum seja melhor que o outro. É fato que a Medicina é mais bem vista e melhor paga, na maioria das vezes, mas isso não desqualifica todos os outros cursos existentes. É áquela velha história do “que seria do amarelo se não existisse o branco”. Fora que é comprovadíssimo que por mais que seja fácil passar no vestibular para ciências sociais, concluir a faculdade é difícil. O índice de evasão e desperiodização é enorme, principalmente pelo fato de que é requerido MUITO estudo (consequentemente muito tempo) e não são todos que podem dispor desses artifícios.

 Termino o texto afirmando novamente que não me arrependo em momento algum por ter escolhido o curso que escolhi, era o certo para mim, se encaixa perfeitamente com a minha pessoa e creio que me preparará para ser a “pessoa melhor” que sempre quis ser. Em linhas gerais, Ciências Sociais é um curso muito rico que amplia o nosso entendimento de mundo e faz com que busquemos por novos problemas que condigam com a realidade atual, ao mesmo tempo em que buscamos maneiras de tentar resolvê-los. E lembrar que estou no primeiro período, talvez esteja equivocada em algo aqui dito. Se alguém se interessar, tiver dúvidas ou quiser acrescentar algo, sinta-se à vontade!

rs

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0 thoughts on “Ciênc… Quê?

  1. Posso dizer? Já tinha uma baita curiosidade desse curso, e minha vontade de conhecê-lo melhor só fez aumentar após seu texto. Adoro estudar sobre a sociedade, sempre gostei disso. Sempre fiz pesquisas sobre. Não pretendo seguir carreira com isso (minha vocação é o Jornalismo mesmo), mas mesmo assim acho um curso, uma carreira muito interessante. É algo que vale a pena ser visto mais de perto.
    Bjo!

  2. May do céu! Eu gosto tanto de Ciências Sociais! Acho que é um dos cursos mais importantes que existem. Eu super cursaria, inclusive, no terceiro ano, cheguei a cogitar a possibilidade, mas acabei desistindo.
    Já pensei em puxar matérias de sociais, mas dizem que o coordenador daqui nunca libera. Um dia, quem sabe, eu não volto pra universidade pra fazer sociais?

    Beijo, May! <3

  3. Pois eu acho que deve ser realmente um curso super difícil, e tenho muito orgulho de você! Queria eu ter paciência e cabeça para me dedicar e aprender tudo o que um curso desses pode ensinar! Adorei o post explicativo, e é muito engraçado imaginar você, minha pequenininha tão amor, com cabelinho Amélie Poulain, discutindo e lendo tantas coisas sérias!
    Amo você!

  4. Como a Analu, eu fico imaginando você toda fofinha descutindo coisas sérias, aprendendo muitas coisas, refletindo e tal. É TÃO LINDO! É tanto orgulho!
    E fico muito feliz que você esteja se encontrando dentro do seu cursos. Isso é uma das coisas mais difíceis do mundo. Mesmo depois de toda a pesquisa que eu fiz no terceiro ano, tenho dúvidas gigantes se estou fazendo a coisa certa.
    Sabe, esse semestre tenho Sociologia e DEVERIA ter Teoria Política Contemporânea. Semestre passado tive Ciência Política e foi amor puro. Gosto muito mais de ciência política, muuuuuuuito mais. Sociologia não é muito a minha praia, mas gostava na escola. E antropologia eu só vi um pouco dentro da matéria, mas nada muito aprofundado.
    Mas ai, viva a Ciência Política! <3
    E minha reação quando alguém fica e "mimimi esse curso é fácil mimimi ah, mas fulano faz TAL CURSO, isso até minha vó": –' MORRE, DIABO.
    É muita ignorância, viu.
    Mas você é linda e vai ser muito feliz no seu curso! <3
    Beijo!

  5. Mayrinha! Gostei muito e me deixou curiosa, por ora eu vou seguir pelo meu caminho visual, de design, fotografia e um dia – quem sabe – até produções audiovisuais, parece um curso que exige muita dedicação mesmo e até uma certa vocação… Não sei se faria parte dos desistentes ou dos persistentes que teriam seus diplomas orgulhosamente emoldurados na parede, mas gostaria de ver como é esse curso de dentro, mas obrigada pelo post gostei muito, de verdade! *—-*

    Beijo guria

  6. Posso dizer que continuo sem entender exatamente o que faz um cientista social. Culpa dessa amplitude toda^^
    O mais importante, sua revolucionária maconheira, é que você tá fazendo o que gosta. Olha, eu cheguei aos 20 sem ter noção de nada, passei 3 anos fazendo faculdade de matemática não sei como, porque eu detesto matemática! Ano passado entrei de gaiata em Odonto, e aqui estou, sem ter certeza se vou ou não aguentar ser dentista até o fim da vida. =~~
    Você tá ‘encontrada’, isso é maravilhoso!

  7. Adorei esse post, viu? Eu me sinto muito próxima do curso de Ciências Sociais aqui no meu curso de História. Já disse e repito mil vezes o quanto amo Antropologia! Com Sociologia minhas experiências nunca foram boas. E acho que eu deveria experimentar alguma coisa de ciência política, viu?
    A melhor parte do post foi esse final combatendo os mitos/preconceitos hehe Perfeito!

  8. Olá!
    É a primeira vez que passo aqui em teu blog – e gostei muito. Até porque, tenho quase vinte abnos e ainda não sei direto o que fazer da vida. Meu sonho é estudar História da Arte, mas aqui onde moro só tem Museologia. Até cogitei a possibilidade de fazer Ciências Sociais, como você, e lhe agradeço imensamente todo esse esclarecimento sobre o curso. Parabéns por estar fazendo o que gosta, o que lhe cabe e convém. Espero que comigo ocorra o mesmo.
    Virei aqui sempre!
    Abraços!

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