Coerção Social

Nunca fui do tipo maníaca por encontrar um namorado e nunca entendi as perguntas do tipo “mas você não tem vontade?”, “já tá na idade, não?” ou os desejos de “e muitos namorados” que minhas primas começaram a fazer nos meus aniversários desde os quinze anos. Nunca me imaginei tendo um namorado, isso porque tenho aquele problema de não conseguir imaginar como chegar ao fim, mas conseguir imaginar o fim. Nas poucas vezes que me vi velha (e por velha entendam trinta e pouco anos, não que isso seja velha, mas nunca consegui me imaginar mais velha que isso – síndrome de Marla Singer de viver esperando que a morte chegue logo e ficar decepcionada porque ela demora) conseguia imaginar minha casa com um lindo ateliê de arte e uma máquina de escrever antiga e paredes repletas de livros – a maioria lidos e eu preparando o lanche para os meus filhos levarem para a escola e fazendo o nó na gravata do pai dos filhos e depois indo para o meu lindo trabalho sofisticado e sem horário pré-estabelecido, que permitiria pausas esporádicas para lanchinhos e sonecas.

Veja que eu digo “pai dos meus filhos”, isso porque como nunca me imaginei casando não me sinto apta a chamar esse indivíduo de “marido”. Assim como acho que vou demorar anos pra conseguir chamar alguém de “namorado”, mesmo que o resto do mundo chame. Mesmo que eu ache que talvez a gente seja. Porque na minha cabeça, estar em um relacionamento significa que você finalmente admitiu sua vulnerabilidade e resolveu compartilhar de verdade a existência para com outra pessoa. A partir disso você passa o tempo inteiro conversando com ela, e continua a sempre ter assunto simplesmente porque se sente apta a falar sobre o que quiser.  E você tem certeza de que não importa o que fale estará sendo ouvida, a pessoa estará interessada e no final vai te falar o que você precisa ouvir e vocês vão sorrir e dormir tranquilos. E eu não consigo me imaginar nessa posição.

Alguma coisa no meu cérebro bloqueia o quesito “relacionamentos amorosos” e toda vez que eu acho que estou finalmente gostando de alguém e a minha família finalmente vai tirar a imagem de 19-anos-nunca-beijou-na-boca que têm de mim na cabeça, pronto. Tudo volta. Eu me sinto a pior pessoa do universo por considerar a hipótese de gostar de alguém e empatar a vida da pessoa e, ai Deus, 7 bilhões de pessoas no mundo, não posso condenar o pobre coitado a gostar de mim e exigir exclusividade ainda! Porque, né, quem seria o burro que ia se condenar a ficar ~~comigo~~? Aí eu desisto de todos os meus possíveis pensamentos românticos, sento no meu canto comento meu chocolate e vendo meus filmes reflexivos, tento entender porque isso acontece, tento pensar que talvez eu mereça ser amada por alguém, talvez todos mereçam, choro um pouquinho e durmo. Acho que a cultura emo de 2007 realmente se enraizou em meu coraçãozinho e decidiu nunca mais me deixar em paz.

Até aí tudo bem, o problema é quando eu resolvo assistir as comédias românticas. Porque eu odeio as comédias românticas, mas as amo tão intensamente! Elas são insuportáveis porque mostram gente comum, triste e solitária que encontra o amor da vida na fila do supermercado e passa por altas aventuras enquanto tenta consolidar que de fato eles são o amor da vida um do outro e no final todos ficam bem e felizes e ao mesmo tempo que eu rio da história e choro com a desilusão por nada daquilo ser real, uma sementinha no fundo do meu cérebro me faz pensar que talvez essas coisas aconteçam com alguém. Talvez eu só precise me abrir mais. Talvez o problema esteja comigo (no fim sempre concluo que o problema está comigo, claro.)

Só que eu sempre soube lidar bem com essas coisas. Eu sempre consegui dormir depois dos meus choros-chocolates-filmes. Sempre consegui sorrir no outro dia e ignorar minhas tias dizendo que eu preciso parar de ter nojo de beijo na boca, porque é bom. Só porque  com 14 anos eu falei que achava super nojento e nunca fiz isso na frente delas e elas sub-entenderam que eu nunca fiz isso em lugar nenhum. E estava tudo bem, tudo tranquilo. Eu conseguia ouvir minhas amigas falando sobre os possíveis amores e sobre os reais amores, sobre o que fizeram e o que gostariam de fazer, sobre qualquer coisa relacionada a garotos e manter-me longe o suficiente para jamais me envolver com as conversas. Um dos principais motivos para eu me sentir um alien durante a escola era justamente o fato de que as meninas só falavam sobre garotos e, poxa, tinha tanta coisa a mais no mundo para ser dita e elas se limitavam a tão pouco! Nada fazia sentido.

Eu nunca vi sentido em encontrar um namorado aos quinze anos e estar noiva aos 21. Nunca vi sentido nessa história de amor da vida, alma gêmea ou qualquer coisa assim. Pra mim sempre foi clara a ideia de pessoas que se encontram, se gostam, tornam-se dependentes da existência uma da outra, sentem-se aptas a compartilhá-las e o fazem. Simples assim.

E daí minhas amigas começaram a ter namorados. E daí as pessoas que estudavam comigo no ensino fundamental casaram e tiveram filhos. E aí algumas outras amigas ficaram noivas e outras não namoram porque preferem ir para as baladas e “passar o rodo” e várias outras fazem como eu e passam as noites fugindo da realidade enquanto encaram realidades paralelas em filmes, livros e séries e imaginam o quão bom seriam se aquela fosse a realidade delas. E eu não consigo entender porque essas coisas acontecem ou como acontecem, mas chega um ponto na vida em que tudo ao seu redor coage para a ideia de que você precisa de um relacionamento romântico monogâmico para ser feliz. Que você precisa encontrar um homem-hetero-solteiro que more na sua cidade e pareça minimamente confiável e interessante. Que sua vida nunca vai ser completa ou fazer sentido se você não tiver isso. Que você vai ser excluída socialmente, porque todas as amigas-que-namoram vão sair com os namorados e você vai ficar sozinha em casa. E que um dia de fato todas as suas amigas vão ter namorados e você não, logo, você será uma velha cheia de gatos e livros não lidos numa estante gigante.

E essas ideias são aterrorizantes. Porque ninguém quer ser sozinho. Ninguém que imaginar um futuro distante em que está sozinho. E eu sei que tem toda essa gente que acredita que mulher não nasceu para casar e ser mãe e ok, ela não NASCEU pra isso, mas, assim como os homens, ela vai sentir vontade de fazer isso em algum momento. E não importa se é porque a cultura em que ela está inserida a faz sentir mais segura quando acompanhada, não importa se é porque colocaram na cabeça dela que a solidão é a pior coisa do mundo, não importa se é porque ela acredita piamente que só vai ser feliz com um homem do lado, nada disso importa. O fato é que vai chegar um ponto na vida em que a mulher vai se sentir obrigada a encontrar um homem para compartilhar as coisas. Vai chegar um momento que tudo ao redor dela vai levar para isso. Vai chegar um momento em que ela vai se desesperar e ansiar amargamente que essas coisas aconteçam com ela.

E é exatamente nesse momento que os filmes de comédia romântica nos diriam que a gente não vai encontrar, porque estaremos tão desesperadas procurando nosso padrão que acabaremos sozinhas. E é nesse momento que vamos começar a ler Marian Keys, achar Nicholas Sparks fofo e morrer chorando com músicas da Taylor Swift. E que vamos fazer playlists para dor de cotovelo (porque todas as pessoas minimamente interessantes não cumprem o padrão básico hetero-solteiro-quemorenamesmacidade) e que vamos baixar aplicativos que transformam pessoas em catálogos ou mandar spotteds pra qualquer um que demonstre-se disponível de algum modo. É nesse momento que dormimos esperando o cara-lindo-dos-filmes apareça e ele nunca aparece. E os eventos familiares se aproximam, e seus primos sempre estão acompanhados, e os que não estão são chamados de “espertos” e “pegadores”, enquanto as primas acompanhadas são super aclamadas, as não acompanhadas, mas com mais de 25 anos são rechaçadas e dizem que “vão ficar para a titia” e as um pouco mais novas, mas que nunca demonstraram algum tipo de habilidade no quesito romântico viram piada.

E mesmo que nada nesse universo faça sentido, você torce para encontrar logo um namorado, colocar isso no facebook (pra evitar ter que falar pra todo mundo, porque isso me faria admitir que tenho um namorado e seria estranho e símbolo de fraqueza imenso) e conseguir dormir em paz à noite. Depois de ver um filme compartilhando pipoca, cobertor e a cama.

E esse é só mais um dos motivos pela qual a sociedade me irrita.

0 thoughts on “Coerção Social

  1. Maymay linda, esse texto é tão eu!
    Ok, tirando a parte de não pensar em casamento, amor pra vida toda e sonhar com namorado desde sempre, porque sou dessas e me declaro culpada culpadíssima. Mas me identifiquei com a parte que vivi muitos anos estando bem com relação ao fato de não ter um namorado, sabe? Eu estava bem porque nunca tinha conhecido alguém legal que eu quisesse namorar e sempre tinha um impedimento. Eu queria curtir o colegial com meus amigos, queria não ter que dar satisfação, queria passar no vestibular, queria ter liberdade pra escolher onde estudar sem ter um namorado pesando na escolha, queria fazer amigos e conhecer a vida universitária. E eu fiz tudo isso e ninguém apareceu. Às vezes me parece que o “passo” mais lógico é eu encontrar alguém, mas esse alguém nunca me encontra, eu tampouco. E eu me sinto muito sozinha às vezes. No meu breve e problemático relacionamento sério, pensei diversas vezes que estar comprometida com alguém era muito mais difícil do que eu podia imaginar e sentia falta sim da vida sem ele, de não ter que combinar saída juntos, de passar o fim de semana em casa, etc e tal. E quando a gente terminou, mesmo que a situação estivesse no limite há semanas, eu senti falta de ~ter alguém~. Do companheirismo, sabe? De ligar pra pessoa no fim do dia e contar sobre meu dia chato e ouvir sobre o dia chato dela, de saber que eu sempre teria alguém pra ir comigo no cinema, alguém pra conversar se a festa estivesse chata e eu não conhecesse ninguém. Alguém que estivesse COMIGO. É disso que sinto falta hoje em dia. Por mais que eu tenha amigos fantásticos, depois que a gente ~cresce~ e entra na faculdade, as pessoas constroem suas próprias vidas e param de precisar de você pra fazer as coisas. E eu morro de medo de sobrar eternamente.
    Aí eu penso de novo que tudo bem, porque ainda não apareceu ninguém que eu queira
    (ok apareceu, mas já superei, vamos mudar de assunto)
    só que daí eu olho pra mim e penso: 19 anos e ninguém prestou? what the fuck is wrong with me?

    Ai, desabafei.
    Tamo juntas, amiga. Vamos criar uma sociedade alternativa que nos proteja até alguém ter surgido.

    Queria ter nascido casada, seria tão mais fácil.

    beijos!
    te amo! <3

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