Uma coisa muito importante para vocês saberem é que eu sou completamente viciada em assistir séries. Então, quando digo que vivo em um relacionamento sério com a Netflix não é mentira. Tendo isso em mente, vamos para o assunto desse texto: relação mãe-filha(o) em alguns seriados. 

       Eu nunca tinha parado pra perceber que a maior parte dos seriados que assisto gira em torno de uma relação materna. Ao contrário da superação da figura masculina, que é considerada comum e básica para a existência (vide o édipo freudiano), grande parte dos seriados que assisto dizem respeito a uma superação em relação à mãe e não ao pai. Comecei a perceber isso a partir da leitura de Star Wars: Marcas da Guerra. Nesse livro, o foco da história é na relação entre Norra e Temmin e é perceptível a dificuldade da mãe em entender que o filho já é grande o suficiente para agir de forma independente frente a uma série de coisas. Da mesma forma, é difícil para o filho entender que a mãe pode ter uma vida para além dele.

       Devido ao fato de nascermos conectados pelo cordão umbilical para com as nossas mães, o processo de distanciamento é constante e complicado. Dificilmente vidas independentes são geradas a partir do corte deste cordão, mesmo porque, enquanto bebês e crianças, os humanos necessitam do constante cuidado e atenção de um adulto e as mães acabam cumprindo esse papel, primeiro pela relação de lactação e depois pelo laço afetivo que acaba sendo construído. É claro que em um mundo ideal esse laço não seria criado apenas com as mães, mas também com os pais e outros membros da família. Porém, no que diz respeito aos seriados que vou abordar, por exemplo, as mães não são casadas e criam os filhos sozinho. Mais ou menos da mesma forma que Norra que, apesar de ser casada, tem seu marido desaparecido e a responsabilidade de criar o filho recai por sobre ela.

       É muito interessante que essa relação de rompimento (e a dificuldade de sua existência) seja o foco narrativo dessas obras. Principalmente porque são obras que geracionalmente tendem a ser acessadas pelos filhos e não pelos pais. Então o que elas falam e a forma como elas falam podem vir a refletir em diversas relações familiares, de pessoas que se baseiam no contato com as obras em questão. Eu sou dessas que acredita muito na influência de séries, filmes, livros e músicas perante as relações sociais e a forma em que elas são construídas, então achei que seria válido parar para pensar um pouco no significado de tudo isso. Aviso de antemão que não vou falar detalhadamente sobre cada série, isso fica para os textos exclusivos sobre elas – que virão em breve. Então se você não conhece ou assistiu a elas, sugiro que não prossiga no texto, para evitar spoilers, mas retorne a ele quando tiver assistido a alguma delas. As séries que escolhi foram: Bates Motel, Jane the Virgin e Gilmore Girls.

Bates Motel

       Nesse seriado vemos a relação constante entre Norma e seus dois filhos, Norman e Dylan. O primeiro, constantemente mimado e criado nas barras da saia da mãe e o segundo, abandonado e rejeitado por Norma – que por si só é uma personagem bastante complicada e com sua própria relação com a mãe para superar. 

       Norman é visivelmente doente. Ele tem problemas mentais (psicológicos e neurológicos) que fazem com que ele não se lembre de algumas situações de sua vida. Norma, porém, sabe o que ocorreu nessas situações e protege o filho, não revelando a ninguém o que ocorreu de fato. Em um primeiro olhar, podemos considerar que isso ocorre simplesmente por proteção, mas olhando atentamente a série, vemos o quão doentia a relação entre eles é.

       Norman tem desejos sexuais por sua mãe e, apesar de ele já ter passado da puberdade, eles ainda se cumprimentam dando selinhos vez ou outra. Norma tem uma enorme dificuldade em enxergá-lo como alguém independente e adulto e utiliza o fato de ele ser doente para protegê-lo ainda mais – e tem o péssimo hábito de fazer isso mentindo para ele. A relação parece conflituosa e péssima, mas os dois gostam de estar em contato um com o outro e aproveitam bem seu tempo juntos. Norman não sabe lidar com a ausência da mãe e ela acaba se tornando um alter-ego dele próprio, o que é pra lá de doentio. O pior de tudo é que Norma, apesar de ver tudo isso acontecer, não tem coragem de colocar o filho em um tratamento e fica prorrogando todos os cuidados possíveis perante ele, ficando em um estado de negação constante

       Ou seja: a relação estabelecida entre eles é de dependência mútua, dificuldade de aceitação de que o outro não é perfeito (extrema idealização) e uma luta por conquistar o próprio espaço que acaba sendo reprimida pela dependência mútua. 

       Apesar de todos os agravantes da série, essa relação me fez refletir muito sobre a condição em que mães e filhos se colocam em caso de doenças. Tanto a mãe quanto o filho, se um dos dois estiver doente, isso gera uma relação de dependência mútua de difícil superação depois. E quando o filho já nasce com alguma doença, o rompimento dessa relação de dependência é ainda mais dificultado. A mãe fica em constante estado de negação, recusando-se a acreditar que o filho vai sofrer para sempre e o filho fica em constante tentativa de mostrar para a mãe que apesar de ele ter doença x, é capaz de fazer uma série de outras coisas. A confiança fica abalada e difícil de manter e o equilíbrio é difícil de ser encontrado, fazendo com que a relação tenda para o sufocamento. Claro que, na vida real, dificilmente se atinge o nível de Norma/Norman, mas as coisas seguem bastante preocupantes.

Jane the Virgin

       O próprio título da série diz respeito ao fato de que a Jane foi criada para ser diferente de sua mãe, Xiomara. Ela não poderia cometer os mesmos erros da mãe e deveria se espelhar mais em sua avó, Alba. No decorrer da série, a gente descobre que a avó dela também não é perfeita e que muitos dos valores morais passados a Jane não eram tão impossíveis de ser quebrados quanto pareciam inicialmente. A relação entre sua avó e Xiomara também é complicada e, ao contrário da relação entre Norma e sua mãe, aqui podemos ver como Xiomara e Alba convivem. 

       Apesar da relação inter-geracional ser conflituosa, elas sempre conseguem chegar a consensos e se entender. E é visível o tom apaziguador que a relação acaba tomando. Porém, o conflito mãe e filha segue ali. Só que, dessa vez, ele é inverso. Jane começa a se sair melhor na vida do que a mãe, isso em se tratando dos padrões do que é ter uma boa vida, estabelecidos por sua avó Alba. Assim, Jane passa a ser “a preferida” de Alba, por estar cumprindo uma série de protocolos de moral e bons costumes, que sua filha foi incapaz. Isso faz com que Xiomara se sinta diminuída e fique com ciúmes de Jane – ao mesmo tempo em que morre de orgulho pelo que a filha se tornou.

       A partir do momento que Jane engravida, isso entra em conflito. Xiomara tem o trunfo de que, apesar de ter sido uma pessoa “perfeita” para os padrões morais estabelecidos por Alba, Jane também acabou grávida antes de casar, exatamente como ela. Porém, devido ao fato de Jane ainda ser virgem, mesmo grávida, sua relação boa com a avó não é quebrada pelo fato. Mas o medo de se tornar sua mãe ressurge. E Xiomara sabe que cumpre o papel de “o que eu não quero/devo/posso ser” para a filha, o que a deixa bastante triste com a própria vida. Jane não gosta de ver a mãe assim e tenta apaziguar as coisas, mostrando-se bastante independente e impulsionando a mãe a correr atrás de seus sonhos. Mas Xiomara segue tendo dificuldades e a relação delas acaba sendo um tanto competitiva em alguns pontos. 

       Quando Jane explode e diz que precisava de uma mãe e não de uma amiga de quem ela precisasse cuidar, Xiomara fica mal, mas a atitude de Jane é bastante compreensível e reflete um enorme problema da forma com a qual a maternidade é tratada pela nossa sociedade. Inclusive, a série inteira é uma crítica a isso. 

       No caso, Xiomara teve que abandonar seus sonhos e sua vida aos 16 anos, porque ficou grávida e o rapaz não queria o filho, pedindo que ela abortasse. Uma vez que ela decidiu ter o neném, excluiu o rapaz de sua vida e começou a criar Jane sozinha. Porém, ela não teve tempo para amadurecer seus desejos, melhorar suas habilidades, correr atrás de uma carreira e afins, porque ela era mãe. Isso fez com que ela ficasse reprimida em diversos aspectos e acabasse extravasando isso de forma considerada nociva tanto por Alba quanto por Jane. Ou seja, Xiomara tinha vários relacionamentos que não duravam muito, bebia demais, se portava como se ainda tivesse 16 anos em alguns aspectos, apesar de ser uma ótima mãe. E isso fazia mal para Jane, que não sentia que podia contar com a mãe para repreendê-la, impor limites ou ajudá-la em situações tensas. Xiomara acabava sendo não confiável para sua filha e conforme os erros persistiam, isso só piorava a atitude de Jane em relação à mãe. E o fato de Jane ser mãe começou a fazer ela entender algumas das atitudes de Xiomara, mas ainda assim com vários pés atrás. 

       No fim das contas, é muito claro que a relação das duas também é de dependência. Ambas precisam da opinião da outra para prosseguirem, precisam compartilhar todas as coisas, precisam que a outra concorde com suas decisões, precisam estar perto. Mas Jane vai sair de casa e isso cria uma nova cisão na relação, porque elas não sabem como é manter toda a relação de mútuo afeto sem morar sob o mesmo teto. E essa, que é uma barreira a ser quebrada por todos nós algum dia na vida, é retratada da forma densa e intensa que merece, gerando reflexão e angústia nas pessoas que também são muito dependentes e conectadas com suas mães, apesar dos conflitos inerentes. 

       A série acaba mostrando que esse distanciamento precisa ser construído com o tempo e em doses pequenas. E que não é porque a distância física vai ocorrer, que a distância emocional e afetiva também vai. A relação acaba passando por modificações, mas segue existindo e sendo positiva para ambos os envolvidos, talvez até de forma mais saudável. Mais uma vez, o necessário é buscar o equilíbrio.

Gilmore Girls

       Mais uma série que trata de três gerações femininas. Dessa vez temos Emily, Lorelai e Rory. A relação entre Lorelai e Emily é conflituosa desde antes do seriado, visto que o auge do conflito foi a fuga de casa de Lorelai, após descobrir estar grávida e negar se casar com Christopher. Emily casou-se com Richard, que trabalha demais e é rico, mas não trabalha, ficando em casa o dia inteiro. É claro que ela não é desocupada, participa de vários clubes, tem uma vida social ativa e passa bastante tempo cuidando para que sua casa siga impecável e bem decorada. Ela também planeja viagens, ajuda o marido no que pode e tem uma vontade inerente de retomar o convívio com sua filha e conhecer melhor sua neta. Porém, para ela isso é difícil, porque ela não entende como Lorelai pode ter abandonado a “boa vida” que tinha para ir morar em uma cidade menor, em uma casa que Emily considera ruim e onde ela tem que trabalhar o dia inteiro, sem sequer ter frequentado uma universidade renomada. 

       Lorelai, por sua vez, é uma personagem independente e auto-suficiente, que nos é apresentada como alguém que largou os grilhões da burguesia e foi ser proletária e criar a filha da forma que bem entendia. Mas ela não é feliz por ter tido que abandonar seus sonhos aos 16 anos, após ter engravidado. Ela é feliz pela forma como as coisas se resolveram e pela filha que tem, mas nutre algumas frustrações perante o seu passado. Uma delas, evidente, é o fato de que a gravidez estragou de vez sua relação com seus pais e fez com que ela nunca mais tivesse conseguido conversar com sua mãe sem brigar. Todas as outras frustrações, ela desconta em Rory.

       Rory nos é apresentada como uma garota de 16 anos extremamente nerd, que adora ler, não tem vida social e não sabe como agir quando alguém demonstra gostar dela ou a elogia de alguma forma. Ela começa a construir uma relação com seus avós no decorrer do seriado, pois até então essa relação era pífia. E é também no decorrer do seriado que vemos um amadurecimento dela em relação à forma como tratava sua mãe. É evidente que Lorelai projeta tudo que gostaria de ter sido e não foi em Rory e é notável que a garota não percebe isso até certo ponto e simplesmente segue o fluxo. 

       Porém, já perto do fim da série, Rory rompe com esse padrão comportamental e passa a escolher coisas que a mãe não escolheria e a fazer coisas que a mãe não faria. Ela fica bem chata no decorrer desse processo e faz uma série de coisas burras, mas mostra pra mãe que é uma pessoa independente, com as próprias vontades e opiniões. Tudo isso é bastante interessante, porque o primeiro namorado dela, Dean, comentou logo no começo de sua relação algo como “você faz tudo que sua mãe quer“, demonstrando que faltava opinião própria na garota. Realmente faltava. Ela tinha 16 anos e estava começando a construir isso. No final da série, é perceptível a evolução da Rory enquanto personagem e também a relação entre ela e sua mãe, que após esse rompimento começou a ser mais saudável.

Logo…

       Assim como Xiomara, Lorelai tem seus momentos de imaturidade, onde comete erros estúpidos e acaba sendo mais “filha” de Rory do que mãe. Talvez isso seja um padrão de comportamento de pessoas que foram mães adolescentes, pelo menos na ficção. O fato é que as filhas dessas personagens, Jane e Rory, acabam tendo que criar artifícios para amadurecer antes do que o esperado/previsto. E esses artifícios são exatamente os que são negados a Norman, que não consegue enxergar sua mãe de forma não idealizada, ou seja, como humana. Enquanto Jane e Rory batalham em todos os episódios para construírem as próprias vidas e mostrarem que podem continuar amando suas mães e tendo boas relações com elas, mesmo depois de crescerem e terem suas próprias vidas, Norman se recusa a crescer e quer estar o tempo todo embaixo da barra da saia da mãe, que corrobora para que a situação persista. A diferença principal entre os casos de Jane e Rory, para com Norman, é o fato de que ele sofre o mesmo que o édipo do teatro grego: após matar o pai, quer ficar com a mãe – romanticamente falando. Porém, como essa desejo ainda é inconsciente dele, a parte consciente de sua personalidade desconhece e insiste em acreditar que o maior problema de sua vida é a relação sufocante com a mãe.

       Nos três casos, há diversas complicações. É impossível haver uma relação familiar sem conflitos. Mas é bastante interessante a gente olhar que quando não há uma figura feminina na construção da personalidade desses personagens, os conflitos acabam se voltando para as próprias mães. No caso de Lorelai, apesar de a relação com Emily ser conflituosa, é visível que o ressentimento é ainda maior em relação a Richard. Lorelai segue com birra de Emily mais pelo fato de a mãe ter “ficado do lado do pai” e não “do lado dela” do que pelo fato de a mãe ser malvada. Já Rory, Jane e Norman, não têm a opção de “ficar do lado” de outra pessoa, porque as outras pessoas que fazem parte da vida deles são meros coadjuvantes e o espaço maior em sua formação foi ocupado por suas mães. 

       Eu realmente gostaria de saber um pouco mais de psicologia para analisar melhor esses padrões de comportamentos e esses casos todos. Enquanto leiga, fico com as indagações e os questionamentos que essas três relações me causam. Aceito opiniões a respeito! Ah, claro! Todas as séries aqui mencionadas estão na Netflix e são ótima pedida pras férias!

Comentários: