Primeiro me falaram que fazer dezoito anos era a melhor coisa do mundo porque eu ia poder fazer legalmente tudo o que fazia ilegalmente, mas eu nem liguei, porque não fazia nada ilegalmente mesmo. Depois falaram que seria importante porque eu seria obrigada a votar, mas não fez diferença porque votei com 16 anos. Falaram que ia garantir independência, mas minha mãe continuou a desejar “juízo” e a querer saber com quem, onde e que horas volto todas as vezes que falo em sair.

Então começou o discurso contrário, de que ter dezoito anos não mudaria nada. Que eu continuaria sendo a mesma pessoa, fazendo as mesmas coisas e contando as mesmas histórias. Que eu continuaria a ter medo de experimentar novos quitutes culinários e de conversar com gente diferente e que continuaria a entrar na casa de pessoas apenas após vários meses de amizade. Falaram que seria apenas um ano a mais na vida e nada além disso.

Só que não.

Porque com dezoito anos eu resolvi mudar. Eu resolvi que tinha cansado de ser a pessoa chata que sempre fui e que precisava dar abertura para que a vida me mostrasse do que é capaz para que eu pudesse exercer com mais clareza meu absoluto desejo de reclamar dela. Então eu pintei o cabelo. Oito cores diferentes até agora. Tirei o aparelho. E a carteira de motorista que papai tanto quis. Desisti do teatro e sofri por isso. Consegui passar todos os semestres da faculdade completamente ilesa. Assisti vários seriados e filmes novos e li mais de 30 livros. Aprendi muito sobre muitas coisas. Conheci pessoas diferentes e absurdamente legais. Estreitei laços afetivos. Aproximei-me de gente que nunca imaginei que o faria. Decepcionei-me. Sofri. Morei um mês sozinha em casa e sobrevivi. Aprendi a voltar sozinha da faculdade no escuro sem ter medo de ser estuprada. Voltei a usar shorts. Comi coisas que nem pensava que um dia teria coragem. Experimentei mil e um novos gostos. Conheci vários lugares. Ressignifiquei vários lugares. Cresci. Tive meu primeiro salário, minha primeira prestação e a primeira dívida. Comprei várias roupas e sapatos com meu próprio dinheiro. Fui ao cinema e ao festival de teatro. Fui a diversas baladas, festas universitárias e até frequentei bares. Conheci minhas amigas virtuais em um dos finais de semana mais épicos da minha vida. Transformei meu modo de ver o mundo em diversos aspectos. Tornei-me convicta de diversas crenças e passei a repugnar diversos tipos de gente, com bases filosóficas para tal. Parei de falar com todo mundo que me irritava e decidi que viveria o hoje, seria espontânea e ia deixar de me arrepender por não fazer as coisas e começar a me arrepender por tê-las feito. Dancei. Sorri. Cantei. Dormi. Sonhei. Pintei. Escrevi. E me viciei em café num nível quase tão absurdo quanto o vício por chocolate, que a cada ano só aumenta.

Eu demorei dezoito anos para descobrir que a gente pode fazer com que dias comuns sejam especiais. Que a gente pode fazer com que a nossa vida seja especial. Que ser triste é uma escolha, embora ficar triste as vezes seja absolutamente normal. Demorei dezoito anos para perceber que eu não preciso tentar provar para terceiros coisas a meu respeito. Eu sequer preciso tentar prová-las para mim. Eu preciso apenas viver. Já é tão difícil fazer isso que nem faz sentido a gente querer complicar ainda mais.

Demorei dezoito anos pra perceber que crescer e virar adulto é uma coisa que não vem com uma simples mudança de idade, de uma hora pra outra, ela é construída com o tempo. E se eu não me considero adulta hoje, que tenho dezenove, posso dizer que, com certeza, sou bem mais adulta do que era um ano atrás. O tempo agrega mil e uma responsabilidades a nós como pessoas e a gente sofre, mas se adapta e consegue lidar com tudo. Até com o que parece inlidável. Porque em momentos difíceis, surge uma força insana sabe lá de onde que nos impulsiona a seguirmos em frente. Pra sempre.

Se hoje sou quem sou não é por culpa dos meus dezoito anos. Tão pouco dos dezessete ou de quaisquer um deles. Sou a consequência do que fiz de mim em cada um deles. Sou a consequência do que faço de mim em cada segundo. E que bom que encontrei a maneira perfeita de lidar com isso: desconstruindo meu conceito de “certo” e “errado”. Na verdade, foram tantos conceitos reconstruídos que nem ater-me-ei a comentar sobre.

O fato é que há tanto para ser dito, tanto que eu preciso falar, tanto que eu quero ser. Tenho sentido tanta vontade de vida. De fazer coisas. Experimentar gentes e gostos, ideias e ideais, cores e conceitos que está até difícil juntar todos estes conceitos novos em apenas um cérebro e um corpo. É tanta energia que anda girando ao meu redor que sequer tenho conseguido dormir direito. Será que já é um reflexo dos tais dezenove anos? Quero nem pensar o que ele me reserva.

E queria agradecer aos céus, ao destino e a sorte por terem me proporcionado um aniversário mais que especial neste ano, repleto de gente absurdamente fantástica e com direito a um lindo texto num dos meus blogs preferidos da vida.

0 thoughts on “Consequência

  1. “Falaram que ia garantir independência, mas minha mãe continuou a desejar “juízo” e a querer saber com quem, onde e que horas volto todas as vezes que falo em sair.”

    impressionante o quanto eu me identifico com teus textos… esse passo de ‘libertar-se das ordens maternas’ é um dos mais difíceis pra mim haha. basta eu negar algo que ela queira que eu faça ou fazer algo que ela NÃO quer que eu faça e pronto: sou a filha mais rebelde do mundo. e eu nem uso drogas, cara.

    ”Aprendi a voltar sozinha da faculdade no escuro sem ter medo de ser estuprada.”
    é um daqueles medos que nossas mães colocam na gente. “vem sempre pela avenida; nunca pelas ruas paralelas sem movimento, nem iluminação!”. pior que isso fica na cabeça, mas a gente aprende aos poucos que isso não significa muita coisa além de privar a gente de ir e vir tranquilas!

    “Demorei dezoito anos para perceber que eu não preciso tentar provar para terceiros coisas a meu respeito. Eu sequer preciso tentar prová-las para mim. Eu preciso apenas viver. Já é tão difícil fazer isso que nem faz sentido a gente querer complicar ainda mais.”
    cara, PARA, devolva a minha alma já!! é exatamente o que eu penso hahaha por mais difícil que ainda seja não me importar com o que os outros falam do que eu faço (especialmente do que eu faço pra eles), eu sei que se eu ficar tentando equilibrar minha imagem para todo mundo ao mesmo tempo, viverei em um ciclo de caos e minha vida passará sem eu ter realmente vivido.

    eu também destruí muitos conceitos de ‘certo’ e ‘errado’ dentro de mim… o mais complicado é o que as pessoas ao meu redor (família, amigos) acham disso, mesmo que aquela velha história do ‘não se importar com o que os outros pensam’ martele na minha cabeça.

    ps: não se preocupe em ter tempo de responder meus comentários/visitar meu blog, como você disse… eu não faço isso esperando nada em troca! é realmente mt bom visitar seu blog hihi

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