“Conto de Fadas” Moderno

(5/17)

(Daqui)

Conheceu-o na escola, mas nunca havia conversado com. Ele era daquele tipo quieto, que sentava no fundo e estava sempre estudando. Ela sentava na frente, ria com as amigas e estava tão satisfeita em tê-las que sequer tentava expandir seus relacionamentos. Até que, por causa de um trabalho em grupo, ele começou a falar com sua melhor amiga, que por sua vez, disse a ela que deveria falar com ele também. Adicionaram-se em todas as redes sociais e a partir daí passaram horas a fio conversando, a Lua era o limite deles e o tempo já não fazia mais parte de suas vidas. Até então sua vida virtual se resumia a checar suas contas e desligar-se, o que não demorava mais de uma hora. Com ele ela chegava a ficar oito horas online, conversando sobre todas as coisas possíveis. E ai de quem lhe dissesse para sair dali. Quando as aulas começaram, no outro ano, eles não se falavam pessoalmente, até que ela resolveu ir falar com ele e desde então a amizade, antes virtual, passou a ser real. A partir disso ele fez novos amigos e ela estava realmente feliz e realizada. Disseram amar um ao outro e sonharam com seus futuros, perfeitos como em telas hollywoodianas. Meses passaram e ela se sentiu sufocada com a situação, já não via mais graça na coisa e estar com ele passou a ser obrigação. Uma obrigação que aos poucos passou a irritá-la profundamente. Somando isso ao fato de suas amigas viverem falando que ela as tinha trocado por ele, foi lá e disse que nunca mais iriam conversar. Ficaram cerca de três meses sem sequer saber notícias um do outro, até que a melhor amiga, que os apresentara, disse-lhe para falar com ele novamente, pois estava muito triste. Ela foi, complacentemente, tentar se redimir e propôs que voltassem a ser amigos e foi isso que fizeram. Por mais um ano e meio foram os melhores amigos do mundo. Contavam tudo um para o outro e quando se viam era sempre maravilhoso. Diziam ainda se amar, só não romanticamente. Então a rotina chegou. A vida real pegou-os de vez e os momentos em que ambos estavam na internet ao mesmo tempo foram se escasseando. Quase não se falavam, mas quando o faziam era igualmente bom. Haviam construído uma maravilhosa relação de harmonia, que os permitia continuar a conversar sobre todas as coisas e agir normalmente, mesmo não se falando sempre. E assim foi, até que eles se tornassem completos desconhecidos. Um já não sabia mais como era o corte de cabelo do outro, qual sua rotina ou como estava sua família. Seus segredos, outrora compartilhados ferrenhamente, eram guardados em um poço sem fim e cano de compartilhamento. Eram duas pessoas em ilhas opostas, separadas por milhas e milhas de distância. Quando se falavam isso ficava nítido, mas nenhum deles podia aceitar e assim continuavam fingindo serem super amigos, saberem tudo um sobre o outro, quando na verdade sua constituição do “outro” era baseada em conceitos deveras ultrapassados e histórias que já não mais influenciavam tanto. Até que, numa tentativa frustrada de resgatar o que há muito havia sido perdido, eles resolvem se encontrar pessoalmente em um dia qualquer, para irem ao cinema. Passatempo preferido dos dois. A saída mostra-se desastrosa. Um não sabe o que falar para o outro, não há assuntos que contornem os dois mundos, transparecendo o fato de que eles já eram totalmente desconectados. Sobrevivem a ocasião sabiamente, tentando não demonstrar o desconforto, até que ele atinge um ápice que não pode ser simplesmente desconsiderado. Tentam agir normalmente depois disso, embora saibam que é impossível. Após muito pensar ela resolve enviar-lhe uma mensagem, pedindo desculpas e tentando esclarecer as coisas, calmamente, dizendo que não vai mais falar com ele e que está na hora de seguirem em frente. Ele responde com o texto mais agressivo que ela já leu na vida. Sentindo-se a última bolacha do pacote, o lixo em forma de gente, ela simplesmente não consegue dormir e fica remoendo a história por um tempo sem fim. Segue com sua vida, que sem ele é ainda melhor, mas todas as vezes que pensa em encontrar um novo alguém, logo tira isso de mente. Medo de acabar da mesma maneira. De descobrir-se um monstro novamente. Ele a transformou num poço infinito de medos. E ao invés de casarem-se e viverem felizes para sempre, viveram infelizes, cada um em seu canto, procurando outras maneiras de completar sua vida e ao mesmo tempo arrependendo-se e não conseguindo jamais perdoar a si mesmo e ao outro por aquela fatídica história. Talvez eles encontrem outra pessoa um dia. Talvez consigam ser de fato felizes. Talvez nem demore muito. Talvez eles percebam que tudo foi apenas um emaranhado de babaquices de duas levianas mentes juvenis. Mas eles nunca vão esquecer. Não há “felizes para sempre”. Há o “contente” e o “descontente” e não há hipótese de viver em um “contentamento descontente”. Pelo menos não ainda, mas não custa nada esperar, afinal o homem nunca para de “evoluir”.

0 thoughts on ““Conto de Fadas” Moderno

  1. E eu me identifiquei!? Ainda estou esperando por “Talvez eles percebam que tudo foi apenas um emaranhado de babaquices de duas levianas mentes juvenis.” Não aconteceu, ainda.

    Você escreve maravilhosamente bem! :*

  2. Não importa o que haja, algumas atitudes são determinantes em qualquer situação. Mas ela não pode, de maneira alguma deixar que ele a magoe, que ele dite sua vida e que uma burrice dele faça com que ela desconfie do mundo.

Comentários: