Contos de Fadas?

Primeiramente devo afirmar que a minha birra não é com os contos de fadas. Eu, como toda boa criança, assisti a todos e sei a grande maioria de cor. No entanto, pelo fato de ter um irmão mais velho, detinha-me nos contos menos afeminados, é por isso que meu preferido é “Rei Leão”, seguido por “Peter Pan”. Os de “menina” que eu gostava eram somente “Alice no País das Maravilhas” e “Cinderella”, este último somente pela cena a seguir. Achava fantástico o fato de uma fada mudar a roupa dela pra uma tão maravilhosa e em seguida transformar uma abóbora em carruagem. Só isso.

Certo, preciso fazer uma desambiguação antes de abordar o tema que desejo. Existem os contos e existem os Contos de Fada. Contos são aqueles fantásticos que em suma maioria foram criados por dois irmãos geniais e que não tinham nada de angelical ou infantil envolvidos, mas foram adaptados e tornaram-se populares. Contos de Fada, por outro lado, são a interpretação que a Walt Disney fez desses contos. No original não haviam fadas envolvidas, por exemplo. Já nos da Disney… Bem. Vocês sabem tudo que neles é abordado.

Muitas crianças ouvem histórias de seus pais antes de deitar e muitas delas são histórias escritas em livros, Contos de Fadas ou outras coisas. Em outros casos as histórias são contadas e, perdoem-me se estiver errada, mas creio que raramente um pai ou uma mãe sentará para contar – sem se basear em um filme ou livro – uma história como a da Branca de Neve, por exemplo. Porém, muitos contam outras histórias, que nunca tiveram um filme, como a da Chapeuzinho Vermelho, dos Três Porquinhos e de João e Maria. Eu só ouvia essas três últimas da minha mãe e nunca existirá uma história mais fantástica para a minha pessoa do que “João e Maria”. Sem brincadeiras.

Eu vim falar hoje sobre o efeito que essas histórias têm em nós. Uma vez comecei a ler um livro chamado “A Psicanálise nos Contos de Fada”, infelizmente não terminei, mas pretendo algum dia pois é um assunto que me atrai bastante. As meninas são induzidas a assistir esses filmes desde que se entendem por gente e em diversos casos antes disso, simplesmente porque está no senso comum que é o tipo de cultura ocidental que todas as crianças devem ter. O detalhe é que ao fazer uma criança saber decorado um filme de princesa você está, na maioria das vezes, criando artifícios na mente dela para acreditar em coisas irreais, e não estou falando da fantasia, dos bules falantes e das feras que viram príncipes, estou falando é de coisas como morrer e ressuscitar com o beijo do amor da sua vida. Ou ser salva por ele. Ou encontrá-lo em uma festa após ter que mudar totalmente quem você é. Eu acho que esses contos fazem com que as meninas pensem que precisam de um príncipe. De um rapaz viril e cavalheiro que as faça sentir como princesas, porque o referencial delas de felicidade plena é a realeza. Qual outra explicação vocês tem para o fato de um casamento real como o ocorrido na Inglaterra ano passado tomar proporções tão grandes? Aquilo foi um símbolo – para a maioria das garotas – de que contos de fadas existem sim e assim, infelizmente elas continuam se enganando.

Somos criadas para esperar que um belo dia encontraremos um cara perfeito que nos amará, nos pedirá em casamento e seremos felizes para sempre. Mas não é assim que acontece. A disney nos enganou! A gente vai crescer e descobrir que não há príncipes encantados. Que não vamos saltitar por aí com um grande amor que surgirá do nada. Que não precisamos ser donzelas e muito menos estarmos em perigo para conseguir ser o que queremos ser. As mulheres lutaram por muito tempo para serem reconhecidas como gente, como seres pensantes e capazes de sobreviver sem o auxílio masculino, mas as crianças até hoje continuam engolindo os malditos filmes da Disney que ensinam todo o contrário! Uma garota não precisa casar para ser feliz. Não precisa ter a realização da sua vida na vida de outra pessoa. Ela pode fazer isso, com certeza, mas não precisa e essa é a diferença que precisamos entender! Não estou colocando a culpa somente nos contos da Disney, mas eles têm um papel fundamental na coisa.

Eu adoro esses filmes, acho legal a parte lúdica e fantástica, mas não consigo deixar de entristecer-me ao perceber que grande parte das garotas realmente acredita que um dia as coisas acontecerão como esses filmes nos mostraram. Entristeço-me ao ver que a Pequena Sereia precisou deixar sua espécie, seu reino, sua vida, mudar seu próprio corpo para só então conseguir viver feliz com um rapaz. Entristeço-me ao ver que a Cinderela só se casou depois de ter abandonado a vida de faxineira e ter entrado num padrão de beleza e arrumação para ir a um baile pomposo. É baseando-se nesses exemplos que muitas meninas querem continuar magras. Querem ser loiras e ter olhos claros. Querem cantar Taylor Swift e achar que um dia o Príncipe Encantado aparecerá a elas. Minha prima me disse uma vez que o que arruinou a vida dela foram esses filmes: ela cresceu vendo homens perfeitos e relacionamentos que davam muito certo sem base alguma para isso e acreditou tanto que não conseguiu aceitar nenhum homem ou relacionamento real até hoje. Gente, isso é ridículo. É um absurdo. É o fim do poço. É jogar fora todas as lutas feministas. É se achar inferior e, principalmente, é ser otária.

Acho que está mais que na hora de ser repassado para as meninas crianças que Príncipes Encantados NÃO existem e que se existissem seriam uns chatos. Que todas as pessoas do mundo têm defeitos. Que elas podem ser felizes, mas precisarão batalhar muito para isso. Que elas não podem ser tão cheia de não-me-toques, pelo contrário, devem ir à luta, achar algo pra fazer e ir lá e fazer. Que ninguém é melhor que ninguém. Que você não vai achar um Príncipe mais facilmente caso você se mude para um país monárquico ou pinte seu cabelo de loiro, ou seja tão magra quanto uma modelo anoréxica. Que entre “casar” e “ser feliz para sempre” há uma enorme e larga ponte. Que é possível ser feliz, bem sucedido e bem visto sendo solteira. Que você não precisa ter as medidas exatas ou ser sempre uma dama. Que você pode ser quem quiser e fazer o que quiser pois é esse o nível da sociedade em que vivemos. Que os irmãos Grimm não escreveram essas baboseiras e que eles teriam vergonha de ver como sua obra foi mascarada. Que ser princesa deve ser um saco e para saber disso basta ler “O Diário da Princesa” ou ver aquele filme com a Julia Stiles e, principalmente, que a gente deve aceitar nossas limitações, aceitar quem somos, aceitar os parceiros que a gente encontrar ou simplesmente ser satisfeita e contente caso não encontre.  De acharem outra palavra para denominar meninas(os) que se encaixam nos padrões. De pais pararem de chamar os filhos de “princesinha” ou “príncipe”. Está na hora das meninas assistirem mais a “Valente” e “Enrolados” do que a essas baboseiras de princesas.. De se apaixonarem mais por “Vida de Insetos”, “Toy Story” e “Bee Movie” do que por Donzelas em perigo. Está na hora dos contos de fada serem mais como “Shrek” e menos como “Bela Adormecida”. Por fim, está na hora de diminuir o número de visualizações desses Contos de princesa, afinal, eles não ensinam nada de principesco, mas sim a ser boba e ter uma vida mesquinha.

* Gostaria de dizer que creio que “A Bela e a Fera” exclui-se um bocado desse parâmetro, pelo fato de que é ela quem salva o Príncipe e não o contrário, além de que o filme tem uma ludicidade e fantasia honráveis e aquela biblioteca é a mais bonita do mundo. 

0 thoughts on “Contos de Fadas?

  1. Ai May, eu sou apaixonada pela Disney e cresci vendo esses contos de fadas milhões de vezes. Adoro mesmo e vou criar a Clara assistindo todos, ela que me perdoe depois se eu fiz besteira, mas eu amo tanto! HAHAHA

  2. Eu amo os filmes da Disney. Vi todos desde pequena, mas nunca fiquei presa a eles. Acho que o que falta para essas meninas é vida. Não sei, pode ter sido a educação que me foi dada, mas eu nunca acreditei que aquilo era real e mesmo assim conseguia enxergar toda a magia dos contos de fada. Não acho que todas as meninas que assistem os filmes da Disney se tornarão alienadas e presas a um conceito infantil. Nós evoluimos, girl!

    Apesar disso, eu já encontrei meu príncipe encantado, vou casar feito princesa da Disney e acho que o casamento real foi a coisa mais linda do mundo!! *-*

  3. Amo/sou seus sonhos revolucionários Mayroca. Concordo em partes com você. Acho que os filmes da Disney fizeram um certo desserviço às futuras mulheres, mas só naquelas de cabeça fraca. Porque se você cresce sem saber direito o que é e o que quer da vida, vai achar fácil fácil que só vai ser feliz se encontrar o amor da sua vida. Eu quero muito encontrar o amor da minha vida, mas não acho minha vida um lixo só porque ele não chegou ainda. Acho chato esses filmes passarem uma imagem de que sua vida não vale nada se você não tem um príncipe e concordo totalmente com essa parada das princesas mudarem totalmente suas vidas por conta de um homem ser de um machismo tremendo. Sou apaixonada pela história da Branca de Neve pelo apego da infância, mas gosto muito mais das princesas badass, tipo Mulan ou a Anastasia.
    No entanto, não acho que as crianças devam ser privadas dessa fantasia. Eu, pelo menos, fui muito feliz vendo todos esses filmes, e caso tenha uma filha, quero que ela se apaixone por essas histórias também. Acho determinista demais acreditar que os filmes por si só podem “desvirtuar” as garotas, se você tiver a cabeça no lugar e crescer vendo, assistindo e lendo outras coisas, não faz mal sonhar um pouquinho =)
    beijos, mi amor

  4. Minha mãe contava uma super versão de Chapeuzinho Vermelho HAHAHAHA
    Olha, eu fui uma criança totalmente anti Disney. Só via os filmes do Mickey e não as animações de contos de fadas. E sou tão grata por meus pais terem sido supostamente negligentes na hora de cuidar dos meus momentos de entretenimento HAHAHAHAHA Vai ver por isso sou tão pouco romântica. Nos meus contos de fadas a princesa se divorcia de um sapo HAHAHAHAHAHAHAHAHA
    Seu post me fez lembrar de um livro chamando “A Disneyzação da Sociedade”, que eu preciso ler um dia.

  5. Vou te dizer que concordo com algumas coisas, principalmente com o finalzinho do texto… e é bem verdade que a Disney talvez tenha nos deixado mal acostumadas, mas eu gosto, poxa. Eu ainda acredito que irei encontrar um amor que vai me fazer rodopiar por aí. Mas, acima de tudo, acho que acredito no amor verdadeiro. Gordo, magro, baixo, alto, tanto faz! Que o meu príncipe seja como for, mas que exista… e que venha!

    Beijos, May!

  6. Concordo! E acho também que já estão mudando isso. Assisti esses dias ao novo filme da branca de neve, este mesmo em que a rainha é quem narra a história e, enfim…vi essas mudanças: a princesa ir atrás do que quer, da mudança que quer na vida dela, na vida de quem ela ama, de aprender a superar seus próprios medos, etc e tal. E acho que podemos ter uma nova geração de meninas que não são tão bobas a ponto de deixar de lutar, de ir atras do que quer (claro que dependendo também da criação de cada uma). Sobre relacionamento, ou ser solteira, ou whatever, eu tive meus altos e baixos no “amor” e numa dessas descontroladas de pensamentos, sentimentos, comprei um livro aleatório na banca de jornais que me chamou a atenção pela capa e pelo nome. vou deixar aqui o link para as interessadas, mas como todo livro/conto/conto de fadas, devemos filtrar muita coisa (porem, ele me ajudou muito na minha auto-confiança): http://jacuecangaindependente.com/O%20Que%20Toda%20Mulher%20Inteligente%20Deve%20Saber%20-%20Steven%20Carter%20e%20Julia%20Sokol.pdf tá aí!
    Adorei o texto, concordo com tu-do o que foi dito e também fico no aguardo dessa mudança nas nossas “menininhas”.
    Beijo!

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