Coração Apertado.

Tenho andado com o coração pra lá de apertado. Não. Não tem nada a ver com o “dia dos mortos”. Eu não acredito nessas coisas. Acho que é esse o problema, eu não acredito mais em nada. Parece que a cada texto que eu leio, a cada aula que assisto, ao invés de clarear as coisas em minha mente elas ficam cada vez mais turvas e eu cada vez entendo menos sobre o mundo ao meu redor, ao mesmo tempo que o entendo infinitamente. A cada dia que passa eu descubro centenas de novas coisas e de razões para que as coisas atuais sejam da maneira que são e ao invés de pensar em algo para melhorá-las eu simplesmente fico com o coração apertado, como chocolates, muitos chocolates e tenho vontade de abster-me da humanidade, de fugir pra minha natureza selvagem logo. Eu ando cansada. Cansada de toda essa humanidade. De ter que sorrir por aí como se tudo estivesse perfeitamente nos conformes, de ter que conversar com pessoas que eu não gostaria e de não poder conversar com as que eu gostaria. Estou cansada de todo esse encargo cultural que a sociedade nos impõe, de todos esses impedimentos, essas barreiras, de todos os muros que construímos ao redor de nós mesmos e que acabam por nos sufocar. E no meio de tudo isso questiono a mim mesma, as minhas escolhas e atitudes. Questiono sobre tudo que eu fui o que sou e o que pretendo ser. E decepciono-me ao ver que a cada passo que eu dou decepciono mais pessoas, cada vez mais.

Porque eu não quero vencer na vida. Eu não quero ser alguém. Eu não quero ser milionária. E nem é porque eu não queira, se eu fosse milionária certamente não reclamaria, mas eu sei que não quero tentar ser uma. Não quero condenar-me a trabalhar horas a fio como uma otária, aguentando todo tipo de imbecilidade para acumular bens materiais. Eu morreria de preguiça muito antes de conseguir. Sim, eu sou muito preguiçosa. Talvez a pessoa mais preguiçosa que já pisou nessas terras. Na verdade, acredito que se existe um Deus que cria as pessoas, quando ele foi me criar pensou em uma pessoa que acumulasse todos os defeitos que ninguém quer ter e todas as qualidades que ninguém quer ter e daí nasceu eu. Eu. A pessoa que sempre foi “a esquisita” não importa onde ela estivesse, mesmo que fosse um lugar esquisito. Porque consegue ser mais esquisita que os lugares esquisitos. Eu sempre fui aquela que as pessoas gostam de conversar sobre assuntos polêmicos só para argumentar e que gostam de conversar sobre coisas fúteis só para rirem da minha risada. Nunca fui a pessoa que as pessoas conversam quando simplesmente precisam conversar com alguém. E, ao contrário, eu não costumo puxar assuntos polêmicos ou fúteis, eu geralmente inicio conversas para saber essencialmente sobre o outro e para ter uma oportunidade de falar sobre mim. Eu gosto de falar sobre mim porque tenho esperança de que fazendo isso acabarei por lembrar-me mais sobre mim e tenho esperança de um dia descobrir da onde eu vim e porque estou aqui. A verdade é que mesmo dizendo que não, eu sempre quis ser aceita. Todos querem. Eu sempre quis sentir que pertencia a algum lugar e eu fui capaz de sentir isso várias vezes, mas sempre dura pouco. Pouco demais. Tão pouco que nem vale apena. Eu sempre quis mais do que eu tive. Não no quesito material, na intensidade mesmo. Sempre quis coisas mais intensas. Que eu pudesse por à prova  e ter certeza de que sempre continuariam ali. Mas nada sempre continua ali, só meus pais mesmo e eu nunca entendi o que acontece com os pais para que suportem tantas barbaridades feitas por seus filhos. Sei que escrevendo assim pareço uma rebelde revoltada que daria tudo para sair em um ônibus esquisito, com roupas rasgadas e delineador tocando guitarra e cantando músicas revolucionárias, mas, bem, essa não sou eu. Eu não sei quem eu sou, mas certamente não sou essa. Estou muito mais para a garota que passa os dias com o coração espremido dentro de si, morrendo de vontade de viver tudo intensamente, mas que se sente incapaz de fazer toda e qualquer coisa. Estou mais praquela que queria ser capaz de ler tudo que a universidade manda, mas que não há santo que a faça conseguir. Que gostaria de ver todos os filmes de sua lista, mas que dorme no meio deles e que só consegue embarcar em livros quando os percebe muito distantes de sua realidade. Estou mais pra garota esquisita, que sempre será a garota esquisita, não importa onde esteja, por razões diferentes, claro, mas sempre a garota esquisita. Eu devia simplesmente acostumar-me com isso, mas é difícil. Às vezes eu queria ser mais normal, queria conseguir ir bem em matemática pra fazer engenharia e não precisar pensar sobre nada, apenas agir mecanicamente. Queria ter vontade de vencer na vida, casar de branco em uma Igreja e fazer um chá de bebê convencional. Queria ter coragem de fazer uma tatuagem num lugar super visível, olhar pra ela a vida inteira e nunca enjoar. Só queria aceitar coisas não efêmeras, mas me parece absolutamente impossível. Tudo me parece impossível, inclusive viver. A verdade é que eu sempre chorei quando meus pais vieram me contar que a gente ia se mudar, mas faz dois anos que peço quase todo dia para eles para a gente ir embora daqui, porque eu não aguento mais. Porque estou aqui há tempo demais. Porque não me identifico mais. Porque eu quero nascer de novo, outra vez. Porque eu as vezes tenho a vontade insana de deletar todas as minhas fontes de comunicação internetescas e desaparecer por décadas, para quando reaparecer só as pessoas realmente importantes ainda lembrarem-se de mim. Porque eu tenho mania de viver testando as pessoas e pior, viver testando a mim mesma. De viver analisando a todos, observando de longe, sem conseguir participar, por mais que eu morra de vontade de participar. Não aguento mais essa imprecisão, não sei como lidar com ela. E a cada dia eu entendo mais as razões pelas quais Peter Pan escolheu nunca crescer. Tudo que eu queria era ir à Terra do Nunca. Para nunca perder a capacidade de sonhar sempre e de acreditar que todos os meus sonhos são passiveis de ser real algum dia, desde que eu me esforce para isso. Sou apenas um emaranhado de palavras de apoio moral muito bonitas que não se encaixam para ninguém, nem para mim mesma.

“Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém? Me fiz em mil pedaços, só pra você juntar.” Quase Sem Querer – Legião Urbana

0 thoughts on “Coração Apertado.

  1. Minha linda, odeio te ver triste. Odeio ver mais ainda você achando que é só mais uma. Olha, você não é. Mesmo. Quantas vezes eu já te disse que sou loucamente apaixonada pelo seu jeito, que queria ter uma filha de cabelo colorido e que admiro demais a sua facilidade em dar uma banana pro mundo e fazer as coisas do seu jeito, gostar das coisas que você gosta, escrever os textos que você escreve? Mayroca, você é fantástica e tem todas essas coisas lindas dentro de você.
    Eu sei que tem épocas que a gente passa por isso de não ver sentido em nada do que faz, e nada do que é – eu pelo menos já vivi isso e sei como dói, como é terrível – mas sabe, às vezes é melhor não pensar tanto. A gente se conhece há pouco tempo, mas eu já vi tanta coisa boa dentro de você, tanto potencial, que eu duvido muito que tenha sido uma ilusão. Esqueça o que as pessoas pensam, o que você deveria fazer e gostar e acredite em quem você é.
    Amo você <3

  2. Crises, né, flor? De identidade, de vida, de arte.. Quem vive sem elas? E eu nem sei realmente se seria bom. Com cada uma a gente aprende alguma coisa. Aprendi…
    Eu também entendo tem tempo o que o Peter Pan sabia da vida e eu não. Mas quer saber? No fim das contas, crescer tem lá suas magias..
    Te amo!

  3. Olha May, acho que é normal viver essas crises qdo se é gente, aliás esse é o sinal de que somos alguém pq provavelmente não existe ninguém que não passe por esse mundo e consiga ignorar todos esses conflitos da sociedade e pessoais e ignorar, tbm acho que cada um fazer a sua parte é meio balela, até pq é extremamente difícil achar pessoas comprometidas com alguma mudança, enquanto isso, a gente vai sofrendo e tentando colocar tudo nos eixos. Sorte pra nós! Beijos!

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