Curitiba, 09 de Dezembro de 2011 às 22 horas e 30 minutos.

Eu nasci no século errado.

Sei que essa frase não traz credibilidade a maior parte dos textos que a contém. Pode parecer coisa de pseudo-cult ou de indies e alternativos. Não sou nada disso. Sou apenas eu, apenas a Mayra. Vivo sendo eu há mais de 17 anos e confesso que já tive problemas com isso diversas vezes, mas hoje em dia tenho orgulho de ser quem sou. Falho, todos falham. Mas acerto, persisto e esforço-me para ser e fazer aquilo que gosto, que me dá prazer. Aprendi com Clarice a procurar a felicidade clandestina inscrita em todas as coisas e junto com essa felicidade é que tenho passado todos os meus dias.

A história começa assim:

Uma menina de oito anos está brincando de bonecas em seu quarto de brinquedos quando sua mãe lhe entrega um envelope feito a mão com um papel cor-de-rosa dentro, com letras digitadas e uma foto de uma imensa família de bonecas. Era a primeira carta que ela havia recebido e passou diversos dias a relê-la somente para sentir o gostinho da felicidade novamente. Sua prima havia enviado lá do outro lado do país notícias de seus brinquedos, de sua vida e profundos desejos de saudade, amor e amizade. A menina sorria e não cansava de ler aquela carta. Destinou logo uma de suas caixas mais bonitas para guardá-la para sempre.

Após mudar de cidade, aos dez anos, iniciou uma constante troca de cartas com sua melhor amiga da época. Nelas muitos segredos infantis e depois juvenis foram trocados. Laços sinceros de amizade foram construídos e a felicidade continuava em bater em sua porta todas as vezes que aparecia um envelope com seu nome escrito. Quando ela abria, já nas primeiras letras, aquele sorriso incansável a atravessava e ela lia ferozmente as palavras que se seguiam para depois reler a carta e demorava eras para respondê-la só para esquecer os detalhes de seu conteúdo e ao relê-los voltar ao prévio estado de alegria que lhe saltava o coração e só então, suficientemente inspirada, começava a resposta. Mas os anos passaram, a amizade se distanciou e hoje a menina sequer sabe em que cidade a outra mora.

O tempo passa e a internet entrou em sua vida de supetão, fazendo-a abandonar o mundo das cartas e adentrar-se no universo virtual. Trocou mais de seissentos e-mails com sua nova melhor amiga. E-mails gigantes que detalhavam suas vidas cotidianas dos seus treze, catorze e quinze anos. Era feliz e não achava ruim falar com sua amiga por e-mail, conversas do msn e pessoalmente. O assunto não acabava nunca e elas realmente se divertiam compondo aqueles textos. O  tempo passou e essa amizade também mornousse. Continua em pé, a ciência de sua existência jamais sumirá. As vezes alguns e-mails surgem. As conversas do msn, embora não tão constantes, ainda as fazem detalhar seus cotidianos. São amigas, só não tão insanamente como outrora foram.

Aos quinze anos, chega-lhe uma carta. Já não se lembrava quando havia sido a última antes dessa. Era sua prima novamente. Detalhando sua vida novamente. Contando-lhe coisas que muito a agradava saber. Ela respondeu. O silêncio da correspondência voltou por um tempo, mas logo passou e as cartas voltaram a rolar como bolas de feno no faroeste. Elas trocam cartas até hoje. O espaçamento entre as letras passadas, porém, vêm aumentado com a quantidade intrépida de afazeres que aflinge ambas, mas a amizade construída, a cumplicidade erguida desde que se entendem por gente, essa jamais sumirá. É assim que seis páginas volta e meia são enviadas, junto com desenhos e pequenos presentes as vezes. É assim que filmes são trocados, seriados e experiências de vida. É assim que duas garotas, em pleno século XXI constróem as suas vidas.

 

Depois dessa história você ainda acha que eu nasci no século errado? Eu não. Não há nada mais verdadeiro, sincero e emocionante do que o universo das cartas. Nada mais maravilhoso do que recebê-las, escrevê-las, selá-las e enviá-las pelo correio. Nada mais ansiante do que passar meses à espera de uma certa carta e quando já se está quase desistindo de recebê-la ela chegar a você com palavras tão certeiras para aquele dia que havia sido tão incerto. Não há nada no mundo melhor do que cartas.

Confesso que 2011 não foi o melhor ano da minha vida. Foi muito pior do que eu esperava. Decepcionou-me terrivelmente. Ao pensar em elencar meus grandes aprendizados do ano cogitei milhões de assuntos, desde os feedbacks positivos e negativos, aos clássicos da política e o conceito correto de fato social. Muitas coisas mudaram em minha vida. Mudei. Querendo ou não é esse o efeito do tempo sobre nós, os dias elencam mudanças e quando vemos já não somos o que costumávamos ser. Hoje não posso dizer que sonho em ganhar um Oscar, tão pouco que quero ser presidente ou mudar o mundo radicalmente. Meus sonhos são bem mais simples agora, quero apenas continuar encontrando a felicidade clandestina das coisas. Quero continuar sorrindo de bobeiras, levando a vida levemente e me mentindo quando necessário. Quero poder aproveitar as maravilhas do teatro e também os picnics com os amigos. Quero viver muitas tardes de filmes, repletas de pipocas e também muitas pré-estreias! Quero ansiar pelas coisas e vê-las acontecendo com um orgulho terrível em meu peito e, principalmente, quero escrever cartas.

Foram quatro meses convivendo com uma pessoa que trocou mais de mil cartas com seu amado sabendo que não era correspondida, que muitas vezes era enganada. Que sofria, mas ao mesmo tempo enebriava-se de alegria, carinho e afeto. Se Anita Malfatti não tivesse passado tanto tempo de sua vida escrevendo cartas para Mário de Andrade, não teria seu melhor amigo, não conheceria o amor verdadeiro, não teria continuado a pintar, não teria decidido sua vida e muito menos vivido de verdade. Aquelas cartas mudaram a vida daquelas pessoas e junto com a vida deles a história de toda a humanidade. Pode parecer presunçoso, eu sei, mas o que seria do mundo sem a arte? Sem as inovações que a arte provocou? Sem a revolução que foi o modernismo? O que seria do mundo se os humanos não fizessem nada com ele? Talvez seja sim uma tremenda presunção, otimismo ou bobeira minha, quem sabe, mas depois de um ano completamente tortuoso e cheio de loopings, percebi que somos sim insubstituíveis que cada um de nós é responsável por uma coisinha minúscula que gera uma relação em cadeia e no fim acaba por mudar algo. Nós somos importantes. Todos nós. As cartas me fizeram acreditar nisso.

Hoje foi o último dia de aula de teatro do semestre. Foi também o último dia de aula na escola. O último dia da minha vida e eu fiquei em casa dormindo só porque achei que seria bobo demais dar o gostinho àquelas paredes que tanto me fizeram chorar nos últimos cinco anos de me ver triste por abandoná-las. Aqueles muros não merecem a minha tristeza. Merecem sequer que eu dê importância. De fato a escola não teve nenhuma importância em minha vida, quem teve foram as pessoas que conheci lá e sei que minha relação com elas não necessariamente termina porque a escola terminou. Minhas melhores amigas são a prova disso. Encontrá-las em lugares inusitados e agir como se nos víssemos todos os dias e ainda fôssemos melhores amigas são a prova disso. As pessoas não necessariamente mudam porque o lugar em que vivem muda. O que nos muda é o tempo. Cartas podem eternizá-los. No último dia de aula do teatro, lemos cartas de mulheres e homens notáveis que fazem parte de dois livros muito legais emprestados a nossa professora pelo diretor da escola. O livro contém cartas de Henrique VIII para Catarina de Aragão e Ana Bolena, de Napoleão para Josefina e vice-e-versa, de Bethoven para sua amada, até de Darwin! Apaixonei-me. Decidi guardar dinheiro para comprá-los ou então torcer para que alguma alma bondosa me presenteie com eles em algum momento. Nada me faria mais feliz. Exceto, talvez, chocolate. Não sei. Cartas têm mais efeito sobre mim do que qualquer quantidade de cacau.

Decidi pedir o endereço dos meus amigos e tentar por mim mesma encontrar o endereço daqueles que não querem me fornecer. Preciso escrever cartas. Preciso receber cartas. Esse foi o semestre das cartas, mas mais do que isso, essa vai ser a vida das cartas. Sei que existem e-mails e diversas outras mídias mais simples, mas cartas, assim como livros impressos, jamais serão substituídas completamente. Quero escrever cartas mesmo sem ter recebido as respostas das outras, quero compartilhar todos os momentos importantes para mim com as pessoas que digno importantes.

Se você gosta de cartas também escreva um comentário, vamos trocar endereços, vamos nos corresponder. Descubra você também a felicidade do mundo das correspondências. Sejam felizes! Amem! Escrevam! Compartilhem! Vivam simplesmente. Fazendo o que os faz feliz, não importa o que seja. Os momentos tristes ocorrem, os fins estão diretamente ligados aos novos inícios. Não deixe de experimentar coisas pelo medo de como elas possam vir a acabar. O que importa o fim? O que se leva são as experiências construídas, os momentos compartilhados.

E se algum dia forem coletar todas as minhas cartas para colocarem em um livro, quero que tenham muito trabalho, que percam as contas e que sofram escolhendo as melhores para colocar.

E para qualquer um que sonhe em ser meu amante algum dia, escreva-me cartas, já será meio caminho andado.

0 thoughts on “Curitiba, 09 de Dezembro de 2011 às 22 horas e 30 minutos.

  1. Cartas são amor né, fala sério?? Quero cartas suas, pode ir se preparando, dona mocinha. E você já tem meu endereço, porque me tirou no amigo secreto, lalala….

    1. sim sim! nas férias me aguarde! Rua brigadeiro franco, 86 (não vou divulgar o ap e o cep porque… né) te entrego o presente no dia apropriado! Aguarde! Ele é lindo, igual você! <3

  2. Oie!
    Gosto muito dos seus textos e me identifico com algumas de suas ideias e ideais.
    Amei esse sobre cartas e tenho que dizer que condordo com tudo o que você disse. Nada substitui a emoção de receber uma carta pensada, escrita e enviada só pra você.
    Em julho enviei umas para uns amigos porque estou morando fora do Brasil desde o ano passado e só sentar-me para escrevê-las já me deixa super contente, tão contente a ponto de ignorar o fato de que (ainda) não recebi nenhuma resposta mimimi hahaha. Mas só pelo que eles me disseram ao receberem as cartas compensou tê-las escrito. 🙂
    Como disse, ótimo texto, adorei mesmo!
    Um beijo.

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