Daqueles dias que deveriam ser eternos

Na última segunda-feira (28/11) recebi centenas de recados fofos e elogios de pessoas queridas. A sessão de elogios na realidade foi iniciada no sábado, durante a festa de casamento da minha prima. Deus sabe que eu sou envergonhada e invocada com o fato de só receber críticas de todos o tempo todo. Deus também sabe que eu sou a pessoa que jamais, nunca, sob hipótese alguma se elogia por algo que fez ou que não fez. Não… Deus sabe que eu sempre cobro a mais de mim e nunca fico satisfeita com nada.

Mas aí a segunda-feira repleta de elogios e coisas fofas acalmou um pouco meus ânimos e pude dormir tranquila e relaxada com um gostinho de alegria em minhas papilas gustativas. Deus sabia que a terça-feira (hoje) seria ainda melhor.

Acordei com um cansaço latente e fui para a aula de produção de texto. O interesse pela aula era mínimo, mas estava com vontade de rever alguns de meus amigos e precisava conversar com o diretor da escola, então fui. Lá descobri que às 13h os estudantes se reuniriam na Praça Carlos Gomes (conhecida por aqui como “A praça da Gazeta”) para receberem os jornais com a lista de aprovados da primeira fase do vestibular da UFPR. No dia em que corrigi o gabarito sabia que havia passado e como todos os meus leitores assíduos devem imaginar, não dei a mínima para o fato. Afinal, não concordo com o vestibular, não gosto dele, não meço minha vida por ele e o considero como uma prova qualquer dentre todos os milhões de provas que já tive que preencher ao longo da minha pacata vida estudantil. Minhas amigas queriam que eu fosse na praça, por um momento eu quis ir pra praça, mas aí cheguei em casa. Lembrei-me que hoje estrearia “Anita” e eu ainda tinha que preparar muitas coisas, além de me concentrar e manter minha voz nos eixos. Dormi após o almoço e deixei o tal resultado do vestibular pra lá. Quando acordei resolvi olhá-lo apenas por desencargo de consciência, eu havia passado e saí pela casa para procurar minha mãe e contar para ela, tendo em vista que ela ficaria muito mais feliz do que eu poderia ficar, não a encontrei. Meu pai me deu os parabéns e o sorriso no meu rosto ficou larguíssimo quando cheguei na lista do último curso e pude concluir que 90% das pessoas pelas quais eu me importo obtiveram êxito em suas provas e atingiram seus objetivos. Aos 10% restantes dignei-me a ficar triste e a pensar que doaria meus pontos extras a eles sem o menor problema. Não me esforcei para passar nessa prova sem graça e eles se esforçaram. Entristeci-me por vê-los fora daquela lista.

Resultado da primeira fase do vestibular UFPR 2011/2012 - 29/11/11

Logo minha mãe chega em casa, com o jornal na mão, o rosto vermelho e o cabelo completamente esvoaçante. Ela corre ao meu encontro e me enche de abraços e beijos e diz que foi para a Praça no meu lugar e gritou e descabelou-se ansiando por um jornal e depois que o recebeu procurou o meu nome, encontrou, gritou, parou todas as pessoas da rua para comentar o meu feito e pensou em trazer-me um presente, decidiu-se por chocolate, amargo por causa da semana de peça. Fiquei feliz e sorridente. Tenho a melhor mãe do mundo sem dúvida alguma.

Depois disso apressei-me para ir ao Cena Hum, cheguei lá com antecedência considerável e ajudei o Patrick a colocar o cenário no lugar, limpar o palco, montar as coxias e depois comemos, rimos, conversamos, maqueamo-nos e eis que chega a diretora nos dizendo que havíamos sido capa do Caderno G da Gazeta do Povo. Eu, que nunca havia aparecido no jornal, sou mencionada duas vezes no mesmo dia. Dei pinotes de gozo (como diria Mário de Andrade). Estávamos nos aquecendo para entrar no palco e chega uma câmera de televisão com um apresentador: haviam ido nos entrevistar minutos antes da estreia. Éramos 13 pessoas tremendo no palco e fizemos o possível para fornecer uma entrevista decente, talvez sem êxito – o resultado estará no ar às 20:30 no dia 08/12 no canal 11 da Net -, Humberto chega para fazer o “reihumchinchay” (?) conosco e faíscas de energia deslumbrante saem daquele palco. Oramos, gritamos, fizemos barulho, aquecemo-nos, vestimo-nos, concentramo-nos e entramos no palco.

A estreia foi repleta de nervosismo e era nítida a nossa insegurança e o nosso tremor. Pulamos alguns textos, erramos em várias partes, mas no final ficamos razoavelmente felizes com o nosso feito. Finalmente estreiamos. Pisamos naquele palco. Fizemos valer os nossos estudos do semestre inteiro. Vibramos, nos divertimos, aproveitamos, vivemos e foi lindo cada minuto daquele espetáculo, mesmo que tenha sido imperfeito. Temos três dias ainda por vir e faremos desses três dias maravilhosos. Tenho fé nisso. Anita continua ao nosso lado, nos fortalecendo e dando coragem e eu continuo pronta para qualquer crítica, elogio ou reclamação. Pronta para cumprir com todas as minhas responsabilidades, não importa quais sejam e para dar o meu máximo por aquilo que amo. Nem preciso comentar que AMO o teatro. Por isso o escolho todas vezes que preciso escolher entre alguma coisa. Teatro é a minha vida.

Capa do Caderno G - Gazeta do Povo - 29/11/11

Eis que 5 das 8 Anitas passam na primeira fase do vestibular; cerca de 50 pessoas prestigiam a nossa estreia; apareço no jornal duas vezes; quito minha dívida na cantina; consigo mais ingressos para a formatura; abraço pessoas amadas; sorrio, festejo, fico alegre e durmo tranquilamente.

Creio que todos merecem um dia desses.

(Nem preciso dizer que 29 é o meu dia de sorte)

0 thoughts on “Daqueles dias que deveriam ser eternos

  1. Ah, linda! Todos merecem sim um dia desses! Viva sua paixão por Anita com todas as suas forças. Essas coisas pelas quais nos apaixonamos deixam marcas eternas. Submarino Amarelo está acabando e eu ainda não me recuperei do fim do meu amado Vamos Falar de Amor, hahaha.
    E parabéns pelo vestibular!!!
    Beijos, bonitinha!

  2. Concordo: todos merecem um dia desses. Lendo tua narrativa, acabou por me fazer lembrar do dia da minha estreia. Teatro é uma coisa fantástica, não? Sempre muito bom.
    E quanto ao vestibular: parabéns! Não te conheço, mas pelo pouco que leio aqui, sei que mereces muito!
    Beijos.

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