De Lagartas a Borboletas

Há três anos éramos pequenas lagartas, verdes e rastejantes, que dependiam de terceiros para realizar passos minúsculos em nossas vidas.  Há três anos entramos em um casulo, mas nem percebemos isso. Estávamos deslumbrados com a cor preta do nosso novo uniforme e atarefados com as festas de 15 anos que insistiam em surgir, nem percebemos que brevemente seríamos sufocados e transformados por um casulo. As lagartas vão para o casulo para amadurecerem e transformarem-se em borboletas, nós adentramos nele para amadurecermos e transformar-nos em adultos.

No início de nosso segundo ano de casulo, percebemos que ele estava ficando um pouco mais apertado. Nosso tempo para festas era menor e acabamos nos concentrando mais na escola. Cada turma criou uma união inigualável, em que apelidos e piadas internas reinavam. Aventuramo-nos no mundo cinematográfico, sofremos com a Copa do Mundo e discutimos política durante as eleições. Ali começamos a decidir o nosso futuro e a agir de acordo com as nossas crenças. Construímos amigos e fizemos de muitos professores nossos amigos. Então chegou o terceiro ano e esse foi bem dividido: o começo apertado, em que, sufocados, queríamos ir embora, mas não era hora ainda. Estudávamos desesperadamente, éramos Feras agora, precisávamos honrar o nome. Tentávamos mostrar ao mundo todas as nossas qualidades e assim muitos de nós acabaram por brigar com suas famílias, em busca de seus sonhos. Outros construíram uma família dentro da escola. Passávamos tanto tempo dentro daqueles muros que nos sentíamos parte dele. A equipe pedagógica tornou-se psicóloga e os professores sofriam para responder todas as dúvidas e atingir as expectativas de todas aquelas de pessoas. Na segunda parte do ano, porém, o casulo já estava apertado demais, já tinha nos pressionado demais e então começamos a nossa luta pela libertação. Como as borboletas, que não podem ser auxiliadas nesse processo, nós precisávamos terminar aquilo sozinhos. Cada um com sua batalha interior, sua meta logo à frente, trilhando os caminhos que acreditava serem os corretos para atingir o objetivo esperado.

Hoje nossos casulos estão quase sendo deixados para trás, estamos prestes a nos tornar borboletas, livres como elas. O que esperar do futuro? Atingiremos os nossos objetivos? Cumpriremos as nossas metas? Realizaremos os nossos sonhos? Desapontaremos alguém? Estamos preparados para tanta responsabilidade?  São muitas perguntas passando por nossas cabeças nesse momento. A escola, que esteve presente em nossas vidas desde que nos entendemos por gente, agora faz parte do hall de incertezas que nos cerca. Já não podemos nos definir como “estudantes”. Tudo pode acontecer daqui para frente, cabe a nós fazer as escolhas corretas e aceitar as conseqüências de nossos atos. Agora seremos obrigados a colocar em prática todas as lições aprendidas durante a clausura e não foram somente lições teóricas, além de todo o conteúdo aprendemos também valores. Aprendemos a conviver, a respeitar, a sermos honestos e humildes. Além de conhecermos os conteúdos básicos esperados para pessoas da nossa idade, possuímos algumas virtudes aprendidas aqui. Agora é o momento de usá-las, de mostrar ao mundo que tudo valeu à pena. É o momento de fazermos a diferença, de sermos tudo o que sempre desejamos. É a hora de nos tornarmos a mudança que esperamos ver no mundo. Depende apenas de nós. Em alguns minutos seremos borboletas, livres para voar para onde quisermos. Podemos agora explorar a vastidão do mundo com as nossas próprias pernas, conscientes de que nossos atos são de nossa responsabilidade. Dentro de instantes os quinze anos que passamos na escola terão acabado e seremos apenas mais um monte de cidadãos formados no Ensino Médio, prontos para ingressar na vida adulta. Enganamo-nos ao acreditar que os testes e repreensões acabam com a escola, é agora que as coisas começam de verdade. Não importa em qual faculdade ingressemos, ou em qual carreira decidamos seguir, as pedras permanecerão constantes em nossos caminhos, só que agora estamos mais preparados para lidar com elas. Seremos borboletas e o mundo será pequeno para a infinitude de anseios que retemos. Estaremos prontas para voar onde e como for necessário. Passamos por um casulo repleto de metamorfoses, talvez as mais significativas para as nossas vidas, mas não necessariamente as últimas. Afinal, mudanças são necessárias e elas continuarão acontecendo, fazem parte de nós.

Gandhi disse uma vez que: “O que seja que você faça na vida será insignificante, mas é muito importante que você faça, porque ninguém mais irá fazê-lo.”. Então se nada ocorrer conforme o esperado ou se disserem que suas idéias são insanas e você deveria ficar em casa ao invés de lutar pelo que acredita, não fique triste ou ofendido. Não desista de seus objetivos por parecerem inalcançáveis. Talvez eles realmente o sejam, mas não significa que as tentativas são inválidas, elas podem ensinar mais do que a realização imediata de seus anseios. Por outro lado, se tudo estiver acontecendo como o planejado e você estiver assustado, relaxe. Aproveite. A vida não possui um sentido aparente, mas perdemos tanto tempo procurando por ele que deixamos de notar a beleza contida nos momentos simples e nos erros cometidos. Nós somos borboletas agora! O bater das nossas asas pode causar um tufão do outro lado do mundo! É imprescindível que voemos!

Não fazemos idéia do que acontecerá com nossas vidas daqui pra frente, mas é importante que as coisas fluam. Podemos nos assustar no começo, mas logo nos acostumamos. Somos seres adaptáveis, é preciso muito mais para nos abalar.

Por isso lhes digo para aproveitarem a liberdade que possuem, com a certeza de que há algo ainda mais importante: o amor do próximo, e isso com certeza nós possuímos. Mais importante do que as mudanças são as pessoas que permanecem ao nosso lado quando elas terminam.

Sejamos lagartas, adentremos em outros casulos, transformemo-nos em borboletas novamente… Tanto faz. Somos felizes! Possuímos amigos e familiares que jamais nos abandonarão. Que venham os tufões e as guerras, enquanto tivermos amor, o resto será insignificante.

Grandes, pequenas, coloridas ou acinzentadas, somos borboletas que jamais esquecerão a experiência que se finda hoje e levarão seus ensinamentos para toda a sua vida, só nos resta, portanto, agradecê-los por terem nos ensinado a beleza que é voar.

Nossa colação…
Essa é minha humilde homenagem a todos os FERAS 2011 que, não importa seu grau de esforço, merecem férias compridas e descanso master! Vocês são FERAS e apesar de tudo garanto que meu ano teria sido PÉSSIMO se não tivesse sido compartilhado com vocês. Boas festas!

0 thoughts on “De Lagartas a Borboletas

  1. Que texto LINDO, meu anjinho! Lembro do final do seu 2º ano, você vivia falando no teatro que queria ser logo FERA, e nós morríamos de rir da sua ansiedade! Agora você já foi FERA, está se formando, e saindo do casulo. E tem muita, muita coisa, boa e ruim, pra ser vivida aí pela frente, como borboleta, e também como lagarta, porque sempre seremos um pouco lagartas: sempre haverá outro casulo a ser rompido.
    Parabéns por mais essa etapa, flor.
    Sucesso!

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