De trás pra frente

Minha vida não está nada agradável… Não posso escrever muito com a mão esquerda, não escrevo nada porque nem tenho mais o que escrever. Continuo sem paciência para ler, conversar, ouvir ou entender pessoas, aprender novas experiências e afins tornou-se fora de cogitação. Tudo que faço é respirar, ingerir altos índices de cacau e assistir a filmes incansavelmente. Mas não gosto de reclamar em público. Não vim aqui para isso. Vim aqui para dar uma de Mário de Andrade e mentir. Mentir-me para que todos vejam.

Hoje o dia foi lindo, acordei sob luzes maravilhosas de um amanhecer que misturava as cores mais agradáveis dentre a palheta de cores peceptíveis aos olhos humanos. Feliz, coloquei meu braço para fora da janela e pude sentir aquele vento avassalador, capaz de abalar qualquer estrutura e de obrigar-me a colocar vários casacos sobre o meu corpo. Saí no horário certo e peguei ônibus com o meu motorista preferido, seu Zé. Percorri as ruas conversando com a menina de Paranaguá e o amigo dela e o seu Zé, que deixou cada um de nós em seus respectivos pontos, como se estivéssemos em uma van particular. Fui para a escola e deparei com as pessoas que eu não gostava muito e eram da minha sala, sorri ao vê-las e fiquei feliz ao entrar na mesma sala que elas e assistir às nossas aulas em nosso horário normal, ouvindo as perguntas bobas que alguns faziam, os comentários construtivos de outros e ao ver as pessoas de sempre dormindo ali atrás. Na hora do recreio encontrei todas as minhas amigas, elas voltaram a estudar na minha escola e agora passamos os recreios juntas, como nos velhos tempos. Sorrimos juntas e foi divertido. A manhã acabou como que instantaneamente e lá estávamos nós, no restaurante da Lari, comendo o almoço mais delicioso que o Centro dessa cidade pode oferecer, tendo um Lancy como sobremesa e voltando para a escola papeando futilidades até que eu adentrasse no maravilhoso mundo da sociologia. Hoje a sala estava mais cheia que o normal, tinha um monte de gente interessada e falamos sobre como os índios influenciam e são influenciados pela cultura da população branca. Todos acrescentaram algo para a aula e quando ela terminou fomos para o ginásio, tocar violão, cantar, conversar, rir e jogar conversa fora, cada um fazendo aquilo que se sentia apto. Depois voltei para casa alegremente, andando pela XV enquanto sorria e apreciava os escassos raios de Sol que haviam sobrado do amanhecer, tendo em vista que a grande maioria deles já havia sido encoberto por nuvens e minha Curitiba estava nublada e ventosa como eu sempre a amei. Cheguei em casa e lá estavam as minhas tias, em suas habituais visitas, falando mal uma das outras, rindo, conversando, planejando viagens e falando das mais diversas esquisitices que só as pessoas do meu sangue são capazes de passar por. Depois de rir e comer bastante ao lado da minha família, dirijo-me ao meu quarto, onde encontro meus diários e cadernos e estou inspirada o suficiente para escrever em todos eles. Depois de rechear folhas e mais folhas, resolvo ler. Leio coisas que escrevi há milhões de anos, leio blogs de amigos, leio livros que estão espalhados pela estante, leio, abundantemente. Olho no relógio e noto que já está ficando tarde, então resolvo tomar banho, ouvindo os bons metais de sempre, enquanto canto loucamente mesmo sem necessariamente saber todas as letras. Lavo meus cabelos quatro vezes, até ter certeza de que o cheiro do shampoo continuará ali e que a tinta colorida usada na semana anterior está realmente indo embora. Enxugo-me apressadamente para que dê tempo de ver mais um filme. Entro no msn e combino com alguém de assistir determinado filme, vemos ao mesmo tempo, cada um em sua respectiva casa para poder comentar loucamente depois e então eu resolvo dormir, afinal amanhã ainda é sexta e há um dia inteiro de aula pela frente! Sexta tem aula de literatura, não posso faltar aula. Despeço-me de meu amigo do msn, desejo uma boa noite a toda a minha família e deito em minha cama. Quando consigo começar a dormir, meu celular vibra, é uma mensagem de boa noite de uma pessoa inesperada. Sorrio, respondo e volto a dormir, tranquilamente. Em meia hora estarei sonhando com unicórnios no planeta do chocolate devorando os cogumelos raivosos, porque sou dessas que sonha desgrenhadamente e em poucas horas estarei descansada o suficiente para levatar-me e iniciar tudo novamente! Foi um dia agradável, estou feliz e completa.

Pena que é tudo mentira.

Como diria Mário, “Ponha essas palavras no reverso e saberás o que se passa comigo”.

0 thoughts on “De trás pra frente

  1. Fiquei boba aqui lendo esse teu texto. Conseguiu tornar a escrita muito bem feita e criativa, apesar de não ser uma coisa assim tão o que está passando. Mas merece meus parabéns, sabes escrever muito bem!

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